domingo, 1 de agosto de 2010

O FANTÁSTICO NA PROSA ANGOLANA


>FILIPE CORREIA DE SÁ

Jornalista, nascido a 27 de Maio de 1953, no Balombo, Angola, residiu em Cabo Verde desde 1985 tneo voltado a Angla em 2009. Neste seu primeiro livro, cujo título busca o nome numa famosa cordilheira de Angola, o autor fala-nos de um reino antigo de vastas planícies e montanhas, no sul do mundo, e narra uma história sob as chamas da fogueira dos Passados, guardada por Todo o Mundo, o renascido. Dele tiramos os excertos aqui contidos.

ESTAMOS JUNTOS NO REINO ANTIGO

Um reino antigo ocupa vastas planícies e montanhas no sul do mundo. As águas brilham entre as matas e os canaviais, tombam, por vezes em cachoeiras prateadas, sobre corpos serenos que se banham nos rios.

Estamos Juntos, de pé, de braços abertos a inspirar da manhã, a cheirar a guano, os aromas na sua temperatura, de palha húmida e estrumada, as lufadas ácidas das gajajeiras a chamar os mercadores do pólen. A casa dele no cimo de um morro debruça-se sobre o rio que passa em baixo onde peixes abundam. O marulhar da água a correr extingue-se no fundo de uma garganta de pedras a cachoeirar numa ravina. O rio continua para longe, recuperando, mais à frente, os braços que estendera para trás dos morros ou nas depressões do caminho.

Era frequentepassarem caravanas ali perto, sítio ideal para reconfortar homens e alimárias, num movimento cíclico, regular.

Ao longo do tempo, sementes viajantes no lombo das manadas transumantes, de gnus e palancas, germinavam árvores de vário porte, muitas já então na época de fazer pender dos galhos encurvados frutos sumarentos de apetecer. Manga, fruta-pão, gajaja, pitanga, banana, goiaba, maboque e outros tantos.

A pouca distância da casa de Estamos Juntos, passava uma das rotas das caravanas dos mercadores, rede infindável que circulava por todo reino. O movimento aumentava de dia para dia, naqueles últimos tempos. Alguma coisa se estaria a passar, pensava, embora estivesse longe de saber o que seria e não mostrasse sinais particulares de inquietação pelo que concluía.

Raras pessoas apareciam na sua morada. Não era visível de baixo, protegida por uma camuflagem de árvores, pedras cinzentas enormes e uma série de outros cumes com melhor acesso. Às vezes aproximava-se gente, mas só mesmo quem precisava de alguma coisa. Apenas o acidental reflexo de um utensílio ao Sol, a bruma dos fumos, o som de um animal, o rodopiar das pombas fazia saber da presença de alguém ali a morar. Se carecia de um produto, punha-se a caminho, descia para o acampamento mais próximo. Sabia das notícias desta maneira, enquanto procurava o que pretendia, entre os mercadores. Se não havia num, procurava noutro, assim ia ouvindo. Conversar, conversava pouco, não se demorava muito nas falas, porque não entendia a maior parte das conversas.

Estamos Juntos tinha sido criado ali, naquele cume de morro, pelo avô, que um dia disse: “vou-me embora, tu ficas aqui. Ensinei-te tudo o que um homem precisava para viver, mesmo na solidão. No momento propício, saberás do resto, aquilo que desconheces ou o que esqueceste e esquecerás. Preparei-te para enfrentares a solidão. Agora vais ficar sozinho, eu não volto mais”.

Estamos Juntos perguntou então para onde é que ele ia e por que não voltaria mais. No peito, um aperto subia devagar, um nó na garganta.

O avô disse que tinha chegado a hora dele, de abandonar os terrenos deste mundo. Chegara até ali durante o tempo de o criar. Agora já era gente que podia tratar de si mesmo, que nunca se vira ninguém crescer sozinho, nem os bichos das goiabas; quem os põe lá é mesmo a mãe deles, com tudo preparado. E que não voltaria era uma maneira de dizer, sabe-se lá, lá talvez voltasse, mas não com aquela cara e aquele corpo, seria doutra maneira. E não disse mais porque estava muito cansado e ainda teriam de andar até ao sitio onde se separariam.

Chegaram ao pé da montanha. O avô sentou-se numa entrada muito escura entre duas pedras e disse:

- Ouve então o que te digo. Aquilo que foi até agora e vai acontecendo, já não existe mais, só mesmo no pensamento mais no fundo que a gente guarda sem mexer muito. Como aquela água da cacimba ou da lagoa, onde por vezes te levava, para ficarmos a olhar as coisas a passar à nossa frente e dentro das nossas cabeças. Uma coisa vou repetir: deves sempre guardar bem, tudo quanto te deixei, principalmente o Passado que não podes perder. Se não vais sofrer grandes tragédias. Nele não podes inclinar demais o teu coração, como também não o podes afastar demais.

Fica só com o teu e deixa o dos outros que a eles pertence, só assim pode existir um que seja de toda gente. Como esta pedra que se apoia apenas com um bocadinho do seu corpo nesta outra, sem cair nem para um lado para o outro. Agora vem, vou entregar-te o teu Passado.

Entraram. Lá dentro estava frio e o eco dos seus passos liquefazia-se contra as paredes rochosas sobre as águas transparentes de uma lagoa; a luz do sol enfeixava-se, com muitas cores, através de umas aberturas, por onde o vento silvava.

O avô desembrulhou dos panos um objecto que Estamos Juntos via por vezes lá em casa, parecia um cajado. Feito de argila branca e de madeira de munhango, gravada a fogo, tinha o tamanho de uma perna, do joelho para baixo. Das zonas mais escuras e recuadas da gruta emanava uma luminosidade que dava vontade de acariciar com a mão. O avô tirou um outro, idêntico, mas menos luzente. O rosto dele vencia a escuridão.

- Este aqui, mais brilhante, é o meu Passado, este outro é o teu, que passarás a guardar, é a tua própria vida. Se o perderes, grandes males poderão acontecer, assim como a outras pessoas.

Ao fundo da gruta, na concavidade de uma pedra, ardia um fogo vivo. O avô passou por ele o Passado de Estamos Juntos rolou-o depois em areia branca e em areia negra e também na terra. De seguida, sempre a falar em voz baixa, e a soprar, o mais velho dirigiu-se para os feixes de Sol com vento e girou o Passado entre palmas das mãos, durante alguns momentos. Mergulhou o Passado dele na água. Quando o retirou passou-lhe com a mão várias vezes. Manipulou o outro Passado, até ficar completamente humedecido e submergiu-o, por sua vez, na água da lagoa. Repetiu a operação do Fogo, depois da qual o Passado de Estamos Juntos, já com outro brilho lhe foi entregue.

- Agora podes ir. Trata bem do Passado, muito te ensinará. Trata-o mal também muito te ensinará. Aquele que o perde, aquele que o rouba, aquele o empresta, aquele que não o limpa, aquele que não respeita, muitas dores virá a sofrer.

Estamos Juntos perguntou:

- Avô, quando chegar a minha hora, eu também tenho de entrar aqui?

- Meu filho - disse o mais velho - quando chegar a tua hora vais saber o que fazer . Tudo se fará conforme o que deve ser feito aqui ou noutro lugar, desta ou doutra maneira. Fica bem.

O avô entrou na gruta e Estamos Juntos foi-se embora. Regressou ao cimo do morro e passou a morar sozinho. O tempo foi andando. Nos dias e nas noites servia-se dos ensinamentos depois mais velho.

///

MBOA, LELA E PENSAL NO SONHO DO REI

Por essa altura, os negócios do reino não estavam em bom estado. O rei procurava saídas para dar conforto ao povo. De todos os lados, surgiam notícias que não lhe agradavam. Gente procurava-o diariamente para se colocar sob sua protecção. De acordo com um costume antigo que obriga o soberano a dar guarida a quem o procura. Acrescentou às suas ocupações habituais aquelas que sem ele não frutificavam.

Os cofres do reino estavam na penúria, o dinheiro desaparecia e o que circulava tinha pouco valor. No mercado, só se comprava a troco de mercadoria. Quase todos se recusavam a aceitar dinheiro. Um pano valia um boi. Os mercadores viam-se e desejavam-se para transportar o produto das suas vendas.

Os campos não produziam por causa da seca. Ir para a guerra não era uma solução, pensava o rei com a maioria dos seus conselheiros. A situação nos reinos vizinhos não era muito melhor. Os mais distantes eram demasiado poderosos para que se atrevessem a ir até lá. A guerrear. A longa caminhada bastaria para dizimar metade dos seus soldados, sem contar as guerras que teriam de travar ao longo dos reinos que fossem atravessando; o estado enfraquecido dos domínios do rei poderia atrair a cobiça de algum vizinho mais ambicioso e aventureiro. Tudo isto preocupava o soberano. Já havia notícias de pilhagens: aldeias subitamente assaltadas e arrasadas por misteriosos bandos; gente e povoados inteiros que desapareciam, sem deixar rasto.

Os adivinhos não conseguiam dar respostas capazes de conduzir o rei a tomar uma decisão acertada, embora lhe dizimassem as capoeiras nas consultas. Era uma ou mais galinhas de cada vez, conforme os casos. Por vezes cabritos e até mesmo bois. O rei meditava nas soluções a adoptar.

Uma noite, das raras noites em que adormeceu, teve um sonho. Vinham três mulheres pela estrada: uma trazia um cajado, a outra um pote de mel e a terceira uma criança de colo que amamentava. A criança crescia e ficava do tamanho da mãe sem sair do colo dela e depois voltava a ser de novo pequenina e até quase desaparecia, voltava acrescer toda num só olho, límpido como só as crianças são capazes, e onde, sonhando, o rei mergulhou seu espírito inquieto. As três mulheres caminhavam à frente dos olhos dele a olhar para lá de si sem saírem de lá. Ao mesmo tempo que via o que elas viam de dentro dos seus olhos, olhava-as de frente, na paisagem. Uma delas parou, as outras duas imitaram-na e ela disse:

- Agora aqui sozinhas podemos soltar as nossas mágoas.

- Como dizer aos nossos homens que nos roubaram? Que vai ser deste menino?

E as três cantaram em coro:

- Nada lhe poderá saciar sua fome?

Fome que não tem mel, nem pau que lhe afugenta.

Roubaram o ventre de sua mãe de onde sai o leite e a vida.

Ai se algum rei nos visse.

Poderia ficar a saber

A dor que nos revela o

momento que nos espera

nas matas do futuro.

Haverá fogo para aquecer nossas esteiras

Nas noites mais frias que hão-de vir?

Mais três mulheres apareceram e depois mais três e mais três. Abriu-se um imenso campo, vasta xana inundada pelo canto delas, três a três. Cada uma com o seu cajado, o seu pote de mel e a sua criança.

Começaram a dançar, a rodar, e numa volta de roda os panos abriram. Dentro deles não tinham nada, era só um vazio. As crianças choravam, as caras delas aproximaram-se e fundiram-se numa só e enorme cara a ocupar o sonho todo, uma grande aparição: de dentro da cara, explodindo em cor e espaço sem som, espalhando-se, saiu um rapaz com cara de sonho. Ajoelhou-se na terra, mergulhou o braço no chão, logo a abrir-se parecia água, e tirou de lá de dentro o rei.

Acordou confundido com a visão mas apesar de toda a preocupação sentia-se bem disposto. Alguma coisa começava a acontecer. Foi espreitar a noite que era de Lua Cheia. Resistiu ao impulso de acordar a rainha Mboa, para lhe contar o sonho que tivera. Ouvia o som dos animais nocturnos num uníssono de prestações solitárias, de mabecos a cigarras e onças; uma jibóia arrastava-se junto aos currais, julgou ele perceber pelos sons que lhe chegavam através da cinza da noite fria. Mas não desvendou o significado do sonho.

De manhã cedo, no dia seguinte, mandou convocar os adivinhos e conselheiros. Nenhuma das interpretações satisfez o rei.

Depois de muitas horas de elucubrações infrutíferas, um conselheiro pediu a palavra ao rei com uma vénia breve. Deu uma dobra no pano, num gesto quase inconsciente:

-Rei, duvido que os teus adivinhos consigam resolver este enigma tão depressa, assim como nós os teus conselheiros e sábios, que achaste por bem convocar. Tens de reunir todas as aptidões capazes de trazerem a este recinto a resposta necessária, a única verdadeira. Qualquer um de nós se apercebe que o teu sonho se refere aos grandes problemas do reino. Mas para chegarmos às resposta, todos têm de participar-

-- Mas então – disse o rei – estão aqui os adivinhos mais célebres deste reino, todos os meus conselheiros, quem mais falta?

O mais velho prosseguiu:

- Faltam as tuas mulheres que não convocaste. Devo recordar-te que já há alguns dias elas pediram para as receberes, o que te comuniquei em devido tempo, pois tive o privilégio de ser solicitado pela voz da primeira, a nossa rainha Mboa. Ora, se te lembras, não as quiseste receber.

O rei lembrava-se. O conselheiro tinha-lhe transmitido o pedido das mulheres mas no meio das preocupações não encontrou oportunidade para se encontrar com elas e mandou-as esperar.

- Sim, lembro-me. Mas o que é que as mulheres têm a ver com o meu sonho?

- Talvez elas te possam dizer se as escutares.

Ficou a pensar naquilo. Teriam sido as mulheres que lhe mandaram aquele sonho? Tudo era possível, reconheceu para ele próprio. A rainha Mboa era muito bem capaz de organizar uma operação daquelas. Mandou que as mulheres fossem falar com ele. Ordenou a suspensão do Conselho enquanto as aguardavam.

Pensativo, contemplava alheado os conselheiros a conversar. Os seus olhos saltavam indiferentemente pelas diversas figuras espalhadas pelo salão. Há muito tempo que não visitava as suas mulheres. Tinha lá vontade de se meter nos braços da rainha Mboa ou das suas duas outras concubinas jovens e fogosas, que lhe faziam esquecer as tristezas e outras penas, quando o reino estava num estado que caía aos pedaços sobre as suas cabeças? Aliás, ainda bem que há muito tempo tinha decidido dispensar as outras quarenta e sete mulheres do seu harém, precisamente na altura em que as finanças entraram em declínio. Era demais para o orçamento e para a sua resistência. Mas nos seus braços poderia, pensou também naquele momento, encontrar o aconchego para chegar a uma boa ideia.

As mulheres chegaram. À frente, imponente, esbelta, a sacudir as pulseiras e as missangas do seu cabelo com o seu porte de felino cruzado com gazela, a rainha Mboa abria o caminho para as outras duas rainhas, não menos vistosas. Passavam entre o silêncio dos olhos e as vénias dos homens. Em tempo, os reis contentavam-se a descobrir brilhos de incêndio nos olhares dos dignitários, enquanto as mulheres passavam, as favoritas, como a rainha Mboa primeira entre as primeiras, principalmente Muitos chegaram ao ponto de perder literalmente a cabeça, no cepo. Este rei, porém, estava absorto e quase lhe escapava a luz dos olhos amendoados das amantes.

A rainha Mboa saudou-o, todos o saudaram, e disse:

- Temos procurado falar contigo, mas os teus conselheiros disseram que andas muito ocupado e tu mesmo mandaste dizer que esperássemos. Ora, o mesmo que te preocupa, o estado em que estão os assuntos do reino, obriga-nos a falar-te. Por isso te mandamos o sonho que tiveste esta noite.

- Afinal sempre foram vocês. Bem me parecia. Mas esquecem-se que infringiram uma lei que proíbe que se mandem sonhos ao rei, a não ser devidamente autorizadas?

- Sabemos perfeitamente. Quanto a essa lei, espero que não te esqueças que eu, a primeira rainha, tenho o direito de te fazer sonhar, se for essa a única forma de entrar em contacto contigo. Antes de tomar essa decisão consultei os conselheiros, podes confirmar.

O direito era dado à rainha de fazer sonhar o rei, já por várias ocasiões, nos tempos mais remotos, tinha salvo o reino de situações perigosas em tempo de guerra, quando os mensageiros estavam impedidos de furar as linhas inimigas. Através do sonho, as rainhas podiam enviar as mais diversas mensagens.

- Bom, então falem, eu escuto – ordenou o rei.

- A razão da nossa vida – começou a rainha Mboa – é a força da nossa gente. Mas mitos estão a perder essa força. Está a acontecer uma coisa muito grave: há Passados a desaparecer antes do tempo deles s esgotar. E como tu bem sabes quem não em Passado fica sem força.

- Mas como é que os Passados estão a desaparecer?

- Não sabemos senhor. Tanto pode ser algum fenómeno estranho, como pode ser puro roubo!

- Roubo? Mas quem é que se atreveria a roubar os passados? É um crime impensável Ai de quem se atreva…! Estaria a desafiar as leis mais severas que eu guardo!

- Não sabemos quem, mas mandamos investigar e somos levadas a acreditar que se trata de roubo. Aqueles que foram interrogados sobre o desaparecimento dos seus Passados pouco sabem. E muitos não se atrevem a dizer nada, porque o assunto é demasiado grave para as suas vidas. Como disseste, quem perder o Passado está sujeito a grandes e duras provas!

- Isso é verdade! – Disse o rei.

- Nós pensamos numa forma de tentar resolver o assunto, convocando a coragem da nossa gente, pela ambição que todos têm em ti, principalmente quem é mais jovem

A rainha Mboa sentou-se ao lado do rei e virou-se para a assembleia de nobres. As outras duas rainhas, Lela e Pensala, fizeram o mesmo.

O rei redobrou a atenção:

- Chegou o momento de autorizares o casamento da tua filha, a princesa Makemaka. Manda avisar por todos os cantos do reino que quem se considerar com o direito à sua mão poderá candidatar-se. Aquele que casar com ela será feito príncipe e contigo aprenderá a governar os interesses do povo. Porém, há uma condição que se não for cumprida eliminará automaticamente o candidato: é necessário apresentar o respectivo Passado!

- E que vantagens obterei, uma vez que até aqui só eu tenho dado? Primeiro a minha filha e depois o meu reino? Que receberei em troca?

- Não vês, ó rei, que com isso levarás os homens a recuperar os Passados perdidos? Com este desafio dar-lhe-ás um incentivo e nascerá neles a vontade de lutar à luz do dia para devolver ao reino a força que perdeu. Por outro lado, poderás arranjar para a tua filha um marido digno de mais tarde dirigir com ela os destinos deste reino.

O rei prometeu pensar no assunto. Quando as rainhas Mboa, Lela e pensala se retiraram, ficou algum tempo sentado. Os conselheiros foram-se também embora. As primeiras penumbras invadiram o salão. O Sol já descia e virava para a outra banda do hemisfério. Como era possível que o não tivessem avisado sobre o desaparecimento dos Passados? Era um direito sagrado cada um ter o seu. Desde sempre os seus ancestrais, através de leis sábias e justas, tinham procurado proteger cada um no seu direito de o possuir e guardá-lo, prevenindo-os dos perigos resultantes de um tratamento inadequado.

Cantadores e oradores, difundiram pelo reino, desde os tempos mais antigos, as palavras que guardavam histórias e lições para proveito de todos.

A via sugerida pelas mulheres tinha a vantagem de evitar perigos a que o reino poderia estar sujeito, no estado em que se encontrava. Vir lá de fora, de algum reino vizinho, um príncipe, um rei ou um nobre, junto de um monte riquezas, uma aliança a estabelecer pelo casamento, um passo curto para uma vassalagem a curto ou a médio prazo, ou até a anexação pura e simples. Nem precisava de consultar os conselheiros. Mandou imediatamente proceder às escrituras necessárias para pôr em marcha as suas vontades.

Por decreto real, a todos quantos reunissem as condições exigidas assistia-lhes o direito de se apresentarem como candidatos à mão da princesa Makemaka. Na embala do rei realizar-se-iam as mais diversas provas, para avaliar as qualidades, a coragem, a dignidade, o valor dos candidatos. Um júri seria constituído pelos sábios do reino escolhidos entre os makota e presidido pelo rei e pelas rainha Mboa, Lela e Pensala. À princesa Makemaka caberia a última palavra. O soberano deu ordem para que, três a três, os arautos percorressem as estradas, picadas e caminhos, para levarem a notícia a todos os súbditos. Sem excepção. Quem não fosse portador do seu Passado seria excluído das provas.

///

ESTAMOS JUNTOS COM OS TRÊS ARAUTOS

Estamos Juntos tinha acabado de recolher água na cacimba, quando viu três homens a subir o carreiro para a casa dele.

Vestiam os trajos dos viajantes e pelo seu aspecto caminhavam há muitos dias. Depois dos cumprimentos, Estamos Juntos convidou-os a lavarem-se e ofereceu-lhes hospitalidade. Disseram que não podiam aceitar nada antes de cumprirem o mandado do rei. Sentaram-se então debaixo de uma mangueira. Convidativas, pendiam frutas dos ramos. Nem sequer olharam.

Um deles deu-lhe a notícia real, que a princesa ia casar e tudo o resto. Um outro perguntou:

- Achas-te com direito à mão da princesa?

- Sim – respondeu Estamos Juntos, sem perceber completamente o que estava a acontecer. As palavras do arauto ainda não tinham chegado lá bem dentro da sua cabeça.

Então, o terceiro arauto perguntou-lhe se ele tinha Passado.

Estamos Juntos ficou um bocado surpreendido com a pergunta mas logo se lembrou de que há muito tempo não lhe punha a vista em cima. Desde que o avô se tinha ido embora

Concebido pelos maiores ceramistas do reino e depois de submetido a rigorosos rituais purificados e consagrados, era entregue pelos sábios e kimbandas a cada chefe de família

Quando um dos membros da comunidade conquistava a sua independência, recebia um, depois de sagrado pela Terra, pela Água, pelo Fogo e pelo Ar.

Estamos Juntos disse que sim, que tinha o Passado lá dentro.

Os arautos olharam para ele em silêncio durante alguns momentos. O primeiro a falar perguntou-lhe como se chamava. Ele disse ‘’Estamos Juntos ”.

- Com quem vives?

Com Ninguém respondeu.

Ninguém era um papagaio que o avô lhe tinha dado, poucos dias antes de ir embora para nunca mais voltar. Foi ele mesmo quem lho deu com esse nome ao dizer “agora ficais sozinho e ninguém te vai ajudar. Por isso mesmo, este papagaio vai-se chamar Ninguém, depois verás”. O avô remeteu-se ao silêncio sobre aquele assunto, sem deixar de falar de outros, depois de dar duas chupadas no cachimbo, sacudindo a brasa, que devolveu á fogueira fazendo-o rolar na palma da mão.

Então os arautos disseram a Estamos Juntos “queremos ver o teu Passado” Estamos Juntos levantou-se, entrou em casa.

Ninguém estava no poleiro ao lado da porta, a coçar o bico com uma pata. Estamos Juntos procurou, procurou, procurou, nada. O Passado não aparecia. Quando saiu vinha de mãos a abanar.

Os arautos perguntaram-lhe:

-Não te lembras onde guardaste o Passado?

-Lembro-me, mas não está lá. Desapareceu.

- Procuraste bem?

- Procurei

Estamos Juntos voltou a procurar. Nada. Os arautos disseram que ficaram ali o tempo que fosse necessário, que não tinham pressa, podiam esperar. Ao fim de muitas buscas inúteis, desistiram Disseram os arautos:

- Estás com um problema. Tens um prazo até ao casamento da princesa para descobrir o que aconteceu ao teu Passado.

E prosseguiram viagem. Se chegaram preocupados, mais preocupados partiram. A situação estava a torna-se muito grave. Alongo da sua missão tinha encontrado muitos casos parecidos dos com o de Estamos Juntos. Não sabiam ainda a que atribuir as verdadeiras causas do desaparecimento dos Passados. Havia a hipótese que apontava para o roubo puro e simples. Mas outras cintilavam suspeitas, nas cabeças em procura. Não era de excluir serem as próprias vítimas as causadoras do desaparecimento dos Passado que, em certas épocas de crise, aumentavam, em muito, o seu valor. Muita gente tentava adquirir vários, para capturar algum ou mais poder, e sempre aparecia quem não se importava de vender o seu. Poder efémeros porque não se pode, indefinidamente, dominar o que é dos outros…

///

O CAOS NOS QUIMBOS

Muitos dias se passaram desde que o rei mandou os arautos espalharem a notícia de que tinha chegado a hora de casar Makemaka. De todos os cantos do reino recebia informações que anunciavam a partida de inúmeras caravanas rumo à imbala real. Os mensageiros vinham dar testemunho do grande entusiasmo por todo o reino em relação ao casamento da princesa: uns, porque queriam competir na obtenção das suas boas graças, outros, na mira dos festejos que se adivinhavam faustosos.

Porém, algo estranho, muito estranho mesmo, estava a acontecer. Os dias passavam, as pessoas não chegavam. Às que já lá estavam, mercadores de ocasião, peregrinos, viajantes, gente que esperava que se fizesse justiça para os casos que apresentavam, ou doentes que procuravam a cura junto dos melhores quimbandas do reino, pouca gente se juntava, que tivesse directamente a ver com o casamento real.

O rei estava muito preocupado. Tudo apontava para a existência de um mistério: os viajantes desapareciam no percurso para os terreiros do rei. O soberano, depois de ouvir os conselheiros, meditava na solução a adoptar. Precisava de arranjar uma forma de acabar com aquilo.

Estava ele contemplativo, sentado numa rocha sobranceira ao Grande Rio que corria junto aos muros de pedra da embala, quando se aproximou a rainha Mboa, com o seu passo silencioso:

-Meu senhor, grandes preocupações te sobrecarregam o olhar, a cor fugiu da tua testa. Posso ser-te útil de alguma maneira?

- Ah minha rainha, o plano que sugeriste revela-se ainda mais problemático do que a nossa situação.

- Eu sei, e já previa que isso acontecesse. Se alguém anda a roubar os Passados, não podia deixar de aproveitar esta oportunidade para deitar a mão a mais alguns. Esta pode ser a altura de nos aproveitarmos de algum erro que cometa, para acabarmos com os seus crimes.

- Minha rainha, não fosse a tua insistência, a convicção que transmites, não mais pensaria nesta história dos Passados, mas vejo-me obrigado a concordar contigo. Coisas extraordinárias se estão a passar! – Disse o rei contemplando o Grande rio na sua marcha líquida. Depois de uma pausa em que mergulhou profundamente no olhar sereno da mulher, reflectiu, quase que para ele:

-- Mas de que forma agir perante alguém que não se mostra., se nem sequer sabemos o que realmente se passa?

- Meu rei, pode ser que alguém saiba de alguma coisa e não o queira dizer por medo. Talvez um pequeno incentivo da tua parte levem as pessoas a vencerem os receios e a contarem alguém que ajude a desvendar o mistério…

- Muito bem, o que sugeres?

- Sugiro-te que ofereças uma recompensa a quem trouxer informações sobre o que está a acontecer. Dá-lhes qualquer coisa, fuba, mandioca, quissângua, panos, peles, etc. Se for de comer, de beber e de vestir, muita gente virá tentar…

-Não me custa fazê-lo, embora as finanças não estejam nas melhores condições.

- Majestade, as tuas reservas são inacabáveis.

- Não acho, senhora, não acho, mas que mais posso fazer senão tactear no escuro?

O rei mandou proclamar que ofereceria uma recompensa a todo aquele que reunisse informações capazes de ajudar a descobrir o que estava a acontecer no reino e, principalmente, tudo quanto estivesse relacionado com o desaparecimento dos Passados.

Oferecer recompensas em tempo de crise, para as pessoas revelarem coisas que ajudem a saber o que não se sabe, pode despertar, em todo o mundo, uma verdadeira paixão pelas alvíssaras, mais que pela verdade mesma das coisas. O rei sabia disso, mas pensou que talvez valesse a pena correr alguns riscos. Não se admirou, quando as pessoas começaram a aparecer em peso na Casa Real, para trocar informações por fuba, feijões, mandioca, batata doce, peixe, carne, massango, milho, massambala, que apesar de comida de passarinho, jeito também fazia, para quem apreciava, e outros víveres. Afinal, tratava-se de uma boa saída para a situação crítica de muitos, que começavam a desesperar. Sem trabalho, ou porque a seca devastara os campos e secara as represas ou porque as ameaças dos inimigos e os seus ataques não permitiam o desempenho das tarefas produtivas, havia quem se munisse de algumas informações, um saco e pronto, dava para tapar os pequenos buracos da vida. Gerou-se rapidamente um verdadeiro caos. O Grande Quimbo transformou-se num gigantesco mercado onde a troco de duas ou três denúncias se poderia adquiri peixe, fuba, milho, feijão. Era possível obter uma casa e seu recheio, denunciando uma família inteira de vizinhos que entretanto ficavam presos para averiguações, ou tinham de arrumar as embambas noutro sítio. Ou desapareciam da circulação.

Casos havia também de moradores de casas cobiçadas que eram subitamente desalojados por via de uma denúncia entregue a um colaborador do rei, podia até ser o guarda do portão, que de imediato colocava o denunciante lá morado, graças a uma combina engendrada num ápice, e se possível apoiada por competente ameaça. Não havia tempo a perder.

Era comum os negociadores cruzarem-se em diálogos curtos e eficientes:

- Já trataste da nossa combina?

- Estou a dar o expediente. Mais uns dias e resolve-se.

- Vê se te avias.

O rei mantinha-se na ignorância, o que sempre acontece até um dia.

À custa do rei, muita gente comia e vivia assim, denunciantes e denunciados (classificação com a propriedade associativa, porque não raro era acontecer os denunciantes virarem denunciados, como uma vela de dongo vira de repente para o outro lado graças a uma mudança de vento). O soberano andava verdadeiramente preocupado com o estado de espírito que aqueles seus súbditos revelavam, em que já não havia respeito por ninguém, a começar por cada um por si mesmo. Como uma moléstia que o vento transporta no bojo dos seus transmissores, estendia-se pelo reino o ambiente próprio de uma sociedade desavinda, onde todo o mundo só era bom para todo o mundo,, porque era bom para si, o que seria bastante razoável, não fosse o caso de, na maior parte das vezes, a bondade para si não ser senão a máscara da mais implacável perversidade.

Amantes em discórdia aproveitavam a oportunidade para descarregarem os seus odiados sentimentos reciprocamente. As mulheres fartas dos maridos, idem, estes vice-versa. Havia filhos que denunciavam os pais enquanto estendiam as mãos para os sacos de farinha ou para uma boa cabeça de pungo à espera do respectivo caldo a condizer. Todavia, a falta de amor filial, fraternal e outros, era apenas mais um esquema engendrado mentas mentes imaginosas dos que logo transformavam o assunto do rei em negócio mais rentável e constante. Porque, na realidade, muito amor filial, fraternal e outros que havia é que determinava a elaboração esquemática. Que mais fazer? Na maioria das vezes, rapidamente os acusados eram postos em liberdade por não se lhes reconhecer culpabilidade. À saída dos calabouços recebiam um cesto com as mais diversas vitualhas, uma forma de os compensar dos incómodos causados pela máquina da justiça. Aí, era a vez dos acusadores irem para o calabouço e assim sucessivamente. Formaram-se até associações deste tipo, que iam do tio ao sobrinho, passando por avós e netos. Os conselhos de administração destas empresas tinham sede segura na própria casa do rei, por enquanto alheio a tudo isto. Em suma: o estômago mandava mais do que o coração e este mais do que a cabeça. As famílias desmembravam-se, desta maneira, frente aos olhos impotentes do rei, a confirmar de momento a momento que a maior parte das informações que lhe traziam eram pura inutilidades e invenções. Sementes da discórdia.

O rei, quando abriu os olhos e deu conta do descalabro, tentou acabar com aquilo de uma maneira simples: mandou deter sem direito a recompensa, fosse em que circunstância fosse, todos aqueles que acusassem outros, sem fundamento. Os detidos eram então obrigados a apanhar sacos de sumaúma em dias de ventania.

In “Tala Mugongo”, Spleen Edições, 1995

quarta-feira, 21 de julho de 2010

PALAVRAS AMISTOSAS

O Daniel Teixeira publicou este testemunho no seu Jornal, o que me me lisonjeia e pelo qual lhe agradeço.

O Fragata de Morais não precisa que eu lhe diga aquilo que eu penso que ele sabe...dentro de todos os seus trabalhos que temos publicado neste nosso Jornal Raizonline (o que não quer dizer todos os textos publicados pelo autor, como se entenderá) este é, na minha opinião um dos mais conseguidos (ou mesmo o mais conseguido uma vez que a opinião é exclusivamente minha).

Para nós é uma grande honra ter o Manuel Fragata de Morais como nosso colaborador - em rigor nós é que somos colaboradores dele para colocar a verdade nas suas dimensões - e este texto, de uma clareza narrativa extraordinária, inserido no ambiente do fantástico africano ou de qualquer um outro lugar onde se mistura o natural com o sobrenatural ou o para - natural, espelha um percurso imaginado possível até certa medida, perfeitamente coerente no imaginado de tal forma que tudo se torna possível sabendo-se que é impossível.

O imaginário africano não está só (nunca esteve) e curioso é sabermos que tendo sido nós, europeus, os alegados civilizados evangelizadores, todos os dias e a cada dia vamos aprendendo sempre mais e guardando aquilo que em tempos se julgou primitivo.

Bem haja o Fragata de Morais por este e outros textos que nos tem trazido, pela poética do seu escrever, pelo lirismo conseguido em temáticas a ele tão naturalmente adversas. E obrigado por mais esta lição sobre a arte de bem escrever...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

ANTOLOGIA DO CONTO ANGOLANO - COMO SE VIVER FOSSE ASSIM






FRAGATA DE MORAIS

Nasceu no Uíge e tem vasta obra publicada.Membro da União dos Escritores Angolanos, da União dos Jornalistas Angolanos, é Embaixador de carreira, aposentado. Este conto faz parte do seu livro "Momento de Ilusão".

O FILHO

E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho...
e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando à luz,
lhe tragasse o filho.
S. JOÃO - APOCALIPSE 12


Há sete longos anos que o filho lhe remexia as entranhas. Não havia dúvida, há sete anos que a criança a apalpava por dentro, que lhe falava em silêncio penoso.
No início da gravidez os médicos observaram-na cuidadosamente, todavia, à medida que os meses passavam, insinuaram uma gravidez psicológica.
Ao décimo sete mês, uma amiga, insidiosa, propôs-lhe a possibilidade de uma barriga de água.
“Não sabes o que é, eu explico-te?...”, ofereceu-se.
As íntimas, propuseram os remédios da terra, a visita aos kimbandas, aos adivinhos. Não haveria nada a perder, que não tentasse esconder o que é da terra. Mulher grávida há sete anos só pode ser curada com a tradição, com o debicar engasgado do galo.
Angustiada, cruzou as longas pernas, vestia o robe de chambre azul cor das águas e reclinou-se no cadeirão de couro da vasta sala de visitas de sua casa.
Acendeu, silenciosa, um cigarro. Não queria ser apanhada em kimbandas. Isso não. Seria o perder do pudor, sabia que os rótulos se arquitectam nos vastos silêncios sociais.
Atirou, com displicência, o fósforo para o cinzeiro e serviu, da pequena mesa ao lado uma bebida, levando-a à boca em longos e melancólicos sorvos.
Olhou para o quadro pendurado na parede oposta. Paisagem típica africana, o capim em movimento, fustigado pela brisa da tarde. Suspirou nostálgica, sentindo a paisagem embrenhar-se nos poros das paredes da sala, e o copo da bebida estremeceu na mão, à carícia do vento melódico que soprava do norte. O fumo nervoso do cigarro esvaiu-se no ar, rumo ás nuvens onde pairavam as águias das palmeiras, enquanto que, contemplando o momento de ilusão, acabou por tombar adormecida anestesiada pela angústia do desassossego, ao badalar dos pios angustiados do mocho ora desperto na árvore soberba.
O marido entrou na sala, olhou o rosto tranquilo e ainda fumegado do cigarro meio perdido de cinza, e retirou-o da mão palpitante.
As águias das palmeiras gritaram estrídulas.
Como todos, igualmente pensara que a estória da gravidez fosse passageira, e por essa razão acarinhara os anseios da esposa, nunca a desfalcando de amor e compreensão.
“Olha a criança mexeu, o nosso filho mexeu, não viste?”, dizia-lhe, mão no ventre ofegante.
E com este acanhamento vestido de verdades aparentes, foi contando aos parentes e amigos as vicissitudes de futuro pai.
Por volta da gravidez psicológica começou a não conseguir pôr cobro à chacota mal disfarçada, aos ditos apenas sussurrados à sua passagem.
O desânimo aproximou-o mais da esposa e passaram horas de deleite encontrando nomes para a criança, para o filho.
“Sim só poderá ser um menino”.
Inventaram creches e escolas.
Mas quando qualquer dúvida renascia, quando o terror se lhe assenhorava da alma, fugia tinhoso para a amante, pronta e aberta, que o compensava pela gravidez inexplicável, mesmo se, no expirar do tempo, partia mais triste do que viera e mais vazio do que chegara, revertido criança na estórias meio contadas dos adultos, de ser ele o filho do dragão, o fruto do pecado e da vergonha sempre eterna que lambe as labaredas do inferno.
Seu pai, era tio de sua mãe.
E na descendência dos mal amados, os antepassados obrigá-lo-iam a carregar até aos fins do caminho, a sarna que há sete anos passara para o ventre frutificado da esposa.
Só poderia ser isso.
Agarrou o sufoco e embrenhou o medo nos seios flácidos da amante.
Regressou a casa encontrando a mulher ainda no mesmo lugar, adormecida. Pensou em acordá-la, não o fez, sentou-se no cadeirão e teve a leve sensação de sentir a carícia do vento no rosto.
No véu de uma memória que não era a sua, o cadeirão de couro da sala era o tronco seco já meio apodrecido no capim onde sua mãe, ainda mulher-meia, tentava agarrar a brisa suave com as mãos, enganando o desespero que a cingia porque, em breve, seria a época das queimadas, a derruba do nicho incestuoso do amor, e assim não poder encontrar-se com o tio para as rezas suplicantes da carne.
No tempo do cacimbo, a terra reveste-se de castanho seco, a mata ressequida é chama lambedora do fogo posto, impudico em labaredas devoradoras. De um momento para o outro, o que era abrigo e escondia momentos prazerosos, nada mais seria do que um descampado com nascente capim verde, pasto das seixas, dos veados, até mesmo das pacaças mais afoitas.
Na espera do tio, deitou-se não longe do tronco e pressentiu, que alguém se sentara. Soergueu-se com ansiedade mas não, não fora o tio que chegara, aliás tê-lo-ia visto.
Recordou o momento acre-doce de devaneio, da entrega rendida ao latejo do desejar. Tinha quinze anos e o tio vinte e oito. Verdadeiramente nunca conseguira explicar por palavras ou pensamentos conscientes como tudo começara, o que a dominara, possuíra, feita animal envolta nos perfumes do cio manifestado.
Uma tarde de calor, o capim alto observando-a, aconchegando-a, excitando-a ao âmago, foi a carícia que fez jorrar a água das fontes internas do desejo. Abrira a blusa e expusera os seios negros e luzidios ao beijar da brisa, ao restolhar das folhas próximas das árvores.
Mulher feita, mulher desejando, arfando sem motivo aparente. Mulher fêmea em aromas vaporosos, ainda que não sabendo.
E quando o tio apareceu feito vadio, como que não conhecendo das tardes de calor da sobrinha, ela fez que não sabia do desejo e do ardor, pretendendo que nunca desejara o que então estava pronto e sacrificial.
E talvez até tivesse sido assim.
Na escuridão da eterna culpa e no despir da razão vacilante, em jeito de despedida, sem saberem ou desejarem, na morte da alma entregaram-se arfantes.
Deram-se a carne perante os olhares nunca adormecidos dos que eternamente vigiam, dos que vivem nos fundos dos rios e das lagoas. E dos que percorrem os caminhos tortuosos dos matos nas noites de luar cheio.
Quando se sentiram saciados, lambuzados do mel e da água viscosa que brevemente os unira na perdição, ficou como marca do diálogo que os corpos mantiveram, a brusca revoada das perdizes assustadas com o lancinante grito de dor do conhecimento que ganhara.
O sangue virginal no capim não foi chorado nem cantado pelas mulheres, como deveria, em afirmações honrosas. O último pingo da seiva amorosa que escorrera envergonhado das carnes já marcadas pela maldição, teimosamente agarrou-se à pequena espiga dobrada, até que a hiena sequiosa o lambeu em gargalhada esdrúxula do pôr-do-sol.
Nunca mais se falaram, quase nunca mais se olharam, mas nos momentos inseparáveis em que ambos sonhavam com as águas do rio transbordando raivoso pelas margens, nesses momentos, como que por acção fatídica, encontravam-se para o amor, para a troca de fluidos, sempre sob a vigilância acesa dos olhares albinos dos que nunca adormecem, dos que vivem com os caranguejos doces.
Aos dezassete anos engravidou. Pérola lançada no chiqueiro.
O tio, em fuga para terras longínquas e inacessíveis, lugares inenarráveis, ninguém mais dele soube.
“Acusa o padre da missão, já tem dois filhos.”, Recomendou-lhe ainda.
Aos dezassete anos engravidou minutos quando foi derrubada a árvore ainda verdejante dos sonhos.
“Acusa o padre da missão, não sejas parva.”
Engravidou horas, dias, semanas, até o aterrador compasso do tempo não permitir mais aquele esconder do inevitavelmente inescondível.
Engravidou desesperos e raivas ancestrais obscuras que desconhecia.
Das mãos paternas, medrou chicotes cavalomarinhados em sulcos ardentes fendidos no corpo tenro, na ira sempre justa e profunda da família secular, e na dança das kiandas injuriadas
Foi fechada, desterrada para o convento das madres carmelitas até ao fim do pernoitar do pecado, para o nascer alvoroso do dragão encarnado, já que a noite não é para ser vista com os olhos do dia.
No parto-morte clamou por vingança no nome daquele que fustigara sua inocência, que saciara seu desejo de virgem-fêmea não conhecedora das regras com que a natureza joga o jogo dos calores e dos suores.
Pois que a natureza se vingasse.
Gemeu as entranhas até o filho nascer e, ao sustentá-lo brevemente nos braços para lhe inculcar todo o fundo tenebroso de sua alma, cuspiu com o olhar embaciado pela dor a maldição perpétua e autófaga. Só então sentiu a força das lagoas profundas a puxar, feliz e liberta.
Na sala, o marido notou a esposa a arfar em agonia no sono, sentiu-a febril ao tomar-lhe a mão. Tacteando, beijou-a com culpa insaciável, nem se lavara ao sair da amante. Esta, grata pela carícia, levou-lhe a mão ao ventre e puxou-o a si, ardendo não da febre mas do desejo. Penetrou com a língua sedosa o bacio da orelha do esposo e vasculhou-lhe os putrefactos segredos da alma.
A vontade renascida entumeceu-lhe as calças, tentou ignorar.
“Que situação ridícula, não posso”.
Todavia os lábios femininos insuflaram a não mais o estertor do delírio. E quando a penetrou desvairado, sentiu a criança agarrar-lhe a força máscula, o pénis, e a levá-lo para o ventre materno no momento supremo do prazer, da agonia, no explodir tumultuoso do plasma.
Em seguida veio a paz e o ruído meigo das cataratas deslizando sobre as rochas em musgo.
Foi, na sala de visitas espaçosa, ao lado do sofá de couro onde repousava o corpo inerte e putrefacto da companheira, que os vizinhos o encontraram sete dias mais tarde.
Do carcomido ventre da esposa saiu assustado um sardão vermelho que desapareceu por trás do cadeirão tronco de árvore, restolhando as folhas secas das tristezas.
O corpo da mulher exalava todo o perfume e aromas mornos das festas das divindades aquáticas.
Ele, coitado, anunciava feliz aos rostos contritos de ansiedade, que o contemplavam em silêncio, que o filho finalmente nascera.
Agora que o desculpassem, teria que ir buscar mel ás colmeias e leite ás tetas das cabras para o alimentar.

O FANTÁSTICO NA PROSA ANGOLANA



DYA KASEMBE

Pseeudónimo lieterário de Amélia de Fátima Cardoso, nascida em 1946, em Mumbondu-Muxima, licenciada em Filosofia pela Universidade de S. Dennis, França. Tem vários livros publicados pela Editora L’Harmattan em França e dois pela Editorial Nzila, nomeadamente as “Mulheres Honradas e Insubmissas de Angola” e “Os Amores das Sanzalas”, de onde foi retirado o conto aqui inserido.

TUMUKA

Esta história, muito curta, é talvez a mais insólita de todas as que narramos neste livro!
Estamos em 1953… A Jangada era uma grande barcaça a remos que sem parar transportava viajantes, mercadoria, algumas vezes até viaturas e animais, melhor dizendo, tudo o que era passível de ser transportado, de uma margem a outra do rio que separava o Dondo Kandange. E um belo dia, A Jangada depositou na margem, em Kandange, um Branco, barbudo e de olhar vítreo. O soba da sanzala foi avisado porque o homem tinha chegado sem bagagens e tinha um ar doente, além de que não possuía nenhum documento que permitisse identificá-lo…
Imediatamente, achou-se que ele era uma assombração, um espírito vindo do nada. E a partir desse instante, ele tornou-se o TUKUMUKA (espírito vindo do nada).
Ele tinha ancorado ali, da mesma forma que os destroços de um braço perdido no alto mar acabam por dar à costa. Quem era ele? Um aventureiro em busca de mudança de vida? Um boémio? Quem poderia saber nesta vila do fim mundo? Era branco, o único Branco entre estes indígenas indolentes e menos apressados que o próprio tempo. Seu nome?... Os habitantes alcunharam-no de Tukumuka. Era como uma espécie de fenómeno vivo, aparecido ali, repentinamente, vindo de parte alguma, uma coisa insólita, a que acabamos por nos habituar. Ali estava ele, nesta vila de Kandange, no sudeste de Angola, a alguns milhares de quilómetros da sua Bélgica natal. Para os habitantes de Kandange era uma espécie de amuleto ou porta – desgraça que lhes havia caído em cima, mas de um certo ponto vista era também uma sorte que deviam conservar. Portanto ele era, ao mesmo tempo, temido e adulado. Apreciavam-se os eventuais malefícios. Tukumuka, ninguém conhecia seu verdadeiro nome nem ninguém lho perguntava.
Foi quando Tukumuka mostrou a foto - que ele conservava como único precioso bem da sua vida - desta mulher que ele chamava Madó. Que os aldeões de Kandange puderam então construir uma história à volta do personagem…
Os habitantes nunca tinham visto um Branco chorar; chorar de fazer partir o coração. De uma forma tão apaixonada por uma moça negra, e ainda para mais a filha da feiticeira do fim da estrada. Encontram nisso mais uma razão para o protegerem.
Ele não tinha a fisionomia do português colono, que fazia razias na aldeia, de vez em quando, para lhes demonstrar a sua força e que ele e seus congéneres eram os senhores. Mas então donde é que ele tinha saído?
Todos imaginavam as respostas mais plausíveis, mas ninguém achava a resposta certa ou confirmada.
O facto estava “consumado” e Tukumuka fazia agora parte integrante desta aldeia do fim do mundo. Foi adoptado, naturalmente, pela população. Sim! Era uma das qualidades dos habitantes da sanzala, uma ingenuidade, uma bondade, o facto é que deixavam entrar nas suas terras qualquer ser humano sem nenhuma desconfiança. Ninguém sabia quem Tukumuka nem ninguém lhe havia perguntado porque é ele estava lá.
Tudo o que se via ele era branco e estranho.


A FOTO

A filha da feiticeira do fim da estrada vivia na cidade, onde para alguns, a mãe tinha mandado para encontrar um marido. Na cidade, entre os brancos, ela fazia-se chamar Madó, mas o seu nome verdadeiro era Zenza. A população viu em Tukumuka uma prova flagrante da eficácia da feiticeira.
A mãe de Zenza, Dona Chiquita, fora antigamente uma bela mulher cortejada por todos os homens da vila; mas apesar da sua beleza nenhum homem a quis para esposa. Ninguém sabia quem era o pai de sua filha Zenza e ela também não revelava o seu nome. Todas as suspeitas caíam sobre o mais notável dos mais velhos da vila, porque ele era o único a proteger mãe e filha, enquanto todo o resto da população as rejeitava. Esta animosidade era mais velha que o próprio tempo. Várias gerações família sofreram a mesma descriminação, sem que alguém soubesse a causa ou o motivo. Era assim. Esta rejeição tinha-se tornado quase instintiva. As mulheres não se queixavam e os habitantes também não as perseguiam.
Evitavam os conflitos por medo das maldições de Dona Chiquita. Esta era considerada na aldeia como feiticeira, reputação que já tinha herdado de seus antepassados, já catalogados pela sorte. Como saber a verdadeira história?
E como advinha-la se os responsáveis pelos rumores também não a conheciam, nunca a tinham sabido, e se esta ignorância da origem do rumor era o facto de se terem passado sucessivas gerações? Tudo se tinha perdido, apagado pelo tempo…
Enfim, o rumor que manchava a reputação de Dona Chiquita não tinha qualquer fundamento; era uma mulher já emancipada, levava a vida como muito bem entendia, dando a mesma educação a sua única filha. Mas, nesta sanzala, tal comportamento era motivo de mexericos e condenações.
No entanto, e aí estava mais um paradoxo, os habitantes não proibiam Dona Chiquita de se deslocar à vila, e todos pareciam respeitá-la, mais ou menos, talvez por receio. Para evitar os choques com os habitantes, Dona Chiquita vivia retida com a sua filha que tinha sido obrigada a baptizar com um nome aceitável para as autoridades colónias, que não autorizava os nomes indígenas; além de que toda a criança baptizada deveria ter um colono como padrinho ou madrinha. A madrinha de Madó chamava-se Magda; tinha sido, antes e durante muitos anos, a patroa de Chiquita.
Madó trabalhava no bar de um grande hotel na cidade, o ponto de encontro der todos os cooperantes e outros Brancos que desembarcavam no país. Mulher atraente pela sua graça e simpatia, ela tinha enfeitiçado o belga, de seu verdadeiro nome, Jean-Charles, a seguir baptizado Tukumuka pelos habitantes da via de Kandange.
Jean-Charles era de nacionalidade belga, ficava no país natal cada vez que o marido assinava um novo contrato para trabalhar numa ou noutra companhia de diamantes de Angola. Ficava nove meses sem ver a família e, todos os meses de Dezembro voltava à Bélgica para depois regressar a Angola no mês de Março. Este foi o seu ritmo durante anos.
1953, deveria ser o último ano, pois, sob o ponto de vista financeiro, tinha praticamente realizado o seu sonho: possuir uma bela casa com piscina, uma bela viatura de quatro portas e um jipe todo-o-terreno. Sentia-se cansado e achava-se disposto a viver com os bens já adquiridos durante anos de sacrifícios. Faltavam-lhe cumprir ainda dois meses de contrato, antes de partir definitivamente para a sua Bélgica natal…
E tudo balançou. Aquilo começara como uma banal ligação com Madó, unicamente provocada por um desejo físico. Depois passou a ser ao ritmo de um encontro por mês, depois por semana e terminou por um relacionamento mais sério. Jean-Charles vinha todas as noites ao bar; esperava pacientemente até que Madó terminasse o seu trabalho, e saíam juntos. Acabou por alojá-la em casa dele. Rapidamente sentia-se no direito de a proibir de sair com qualquer outro. Para ele, Madó tornou-se uma obsessão. Proibiu-a de trabalhar, depois de sair, simplesmente. O que no início tinha sido delicioso, tomou o aspecto de um tormento com sequestro. E fechava-a quando partia para o trabalho.
Madó sentia-se infeliz. Um dia, ele esqueceu a chave na porta aproveitando esta aberta, Madó fugiu para sempre. Ninguém sabia onde é que ela estava, nem a própria mãe. Desde esse dia Jean-Charles não foi mais o mesmo. Abandonou o trabalho, esqueceu a família e a pátria… Pôs-se a errar pela cidade como um vagubundo, na esperança de um reencontro Madó.
E Jean-Charles tinha aportado ali, em Kandange, debaixo de um embondeiro gigantesto que lhe servia de abrigo e sob o qual a população tinha construído uma cabana para abrigar o seu Tukumuka.

In “Os Amores das Sanzalas”, Editorial Nzila, 2006

SUMAÚMA - POESIA


TUA BOCA

Tua boca
acre
vazar
da maré

onda baloiço
onde baloiço


CANTAR

Pudera cantar
o que sinto

me oprime

sem lágrimas
feitas chuva

em teus
braços negros

MEMÓRIAS DA ILHA - CRÓNICAS


A PALAVRA

Há muito que me preocupo com a Palavra, não no sentido etimológico, mas sim a partir do livro primeiro, bíblico.
Ao tentar encontrar uma explicação para mim aceitável, começo por visualizar o Criador, sozinho e a “viver” no abstracto, nem nas trevas nem nas luzes. Qualquer uma delas inexistia, aliás nem o sentido de abstracto tinha despacho oficial.
Tudo teve existência formal a partir da palavra, para quem acredita no Livro. Só pode.
Vamos que, de repente e sem mais, o Ente dá conta da sua solidão infinda e acha merecer companhia. Reinventa-se próprio e cria a Palavra, para dar sentido aos actos pessoais, já que sem ela, nunca poderia ter ordenado faça-se isto ou aquilo, separem-se os céus da terra e haja dia, haja noite. A criação da vida foi pois um acto linguístico. E aqui é onde mais sofro, porque me questiono em que língua terá o Ente falado, primeiramente consigo próprio (quando qualquer rugido serviria) e, seguidamente, com Adão.
E Adão para com Eva e seus filhos, que língua terá usado? A mesma, vulgarizando deste modo a língua divina que os precedeu?
O que terá levado Adão, perante o facto de ter de nomear a bicharada nos ares, nos mares e na terra, a chamar porco ao porco, e não pig, cochon, ngulu? Com que intenção? Simples alcunhas atiradas aos ventos, ou produto de uma observação e reflexão propositadas, todavia sem sentido já que, imagino, os conceitos, a existirem, seriam novidade?
Se formos a fazer contas, porque tudo foi elaborado em seis dias úteis de trabalho, e partindo do pressuposto de que haveria mais espécies animais e vegetais do que hoje, logo chegaremos à conclusão que a matemática está errada.
Seriam necessários muito mais dias para Adão inventar a palavra adequada e colá-la ao respectivo endereço, sem perigo de repetição ou amnésia, sem esquecer ainda de que, naquela altura, na floresta os bichos falavam. Até que ponto poderiam ter interferido nos seus próprios nomes? Porque é que a cobra aceitou ser denominada de cobra e não de Afonso ou Marinela, por exemplo?
Imaginemos um diálogo destes, entre o Ente e o primeiro Homem.
“Tata ngana (não sei como se endereçaria Adão, que tipo de relacionamento ou familiaridade haveria entre os dois), está ali um outro parecido comigo, mais baixinho e cheio de pelos pretos, a dizer que também se chama Adão, só porque Te ouviu dares-me o nome”.
Sem prever que iria criar uma confusão de linhagem milhões de anos mais tarde, o Ente pretendeu ser de ajuda.
“Não te aborreças, só não erra quem não trabalha! Chama-lhe chimpanzé” (traduzido do suposto idioma original).
Satisfeito, Adão continuou a tarefa de apodar os seres, com o agora quase-parente ao lado, em amena cavaqueira. Primo é primo!
Por certo Adão não encontrou dificuldades maiores a nomear a bicharada, qualquer palavrão servia, não obstante o vocabulário reduzido. Só então se inventavam as palavras, à medida das necessidades. Não havia ainda aqueles termos difíceis, como direitor, que todos chamam ao superior que, mais adequadamente deveria ser director (que se lixe o acordo hortográfico), significa dizer, que já per si significa dizer, internet, jet ski, kimbanda, nissan patrol, s’ingravidei-se, já puzeu a mesa? , sim já puzi e, graças a Deus, que não está a chuvar lá fora.
Mas para não fugir ao assunto, o que verdadeiramente me pica, é saber que língua se falava no Início?
Ao acreditarmos no Livro, o idioma único até o acontecimento de Babel, teria que ser o Hebreu. Lógico! Evidente! Incontroverso!
Não só por serem os diálogos primordiais trocados com as várias entidades bíblicas nesta língua, como os seus faladores, supostamente o povo eleito do Ser, também o utilizarem. Todos os troncos da Humanidade, segundo o Livro, daí advieram e um tronco comum só poderá ter a mesma seiva, a não ser que afinal, como nos é atribuída a paternidade da Humanidade, tenha sido Swaili, o que se fala ali no vale do Olduvai., de onde saíram os parentes originais.
Todavia, quando apareceu a oposição, com a expulsão dos anjos rebeldes do paraíso, é lícito de se supor que a língua do regime único, milhões de anos depois rebaptizado (que se lixe o acordo hortográfico) de Estalinismo, tenha encontrado contestação e prevalecido nos moldes originais, por esse facto. Por razões óbvias, não se pode imaginar a oposição, coitada já então no inferno, a falar o mesmo idioma!
Pode parecer-vos gozação de minha parte, todavia não é, são questões existenciais que me coloco amiúde.
Sugiro que a rádio Ecclésia gaste um dos seus sábados matinais, a debater esta candente questão com os seus participantes a que já nos habituou e, meus amigos, honni soit qui mal y pense!

Dezembro de 2004

domingo, 20 de junho de 2010

ADEUS A UM GRANDE HOMEM E ESCRITOR




Quando fui Presidente da Comissão Directiva da União dos Escritores Angolanos, tive a honra e o previlígio de privar de perto com este ícone da literatura mundial, durante uns dias.

Admirei seu humor, para mim às vezes bastante britânico, seu sentido de percepção e crítica sobre o mundo em que vivia e o rodeava e suas convicções, sobretudo aquelas a ver com a religião, que levaram muitos só a ver nele a ateu e o comunista que foi. Todavia, sempre demonstrou um elevado sentido de humanidade e humanismo que fizeram dele um acérrimo defensor dos direitos humanos, muitas vezes criticando e opondo-se a posições do seu partido e governo, bem como de outras forças políticas e movimentos internacionais.

Seja o que for, este grande homem foi um pedaço da Humanidade e sua marca será indelével na literatura tanto de língua portuguesa, quanto na mundial. Deixou marca e viveu sua vida como desejou e quis. Deixou de estar aqui, como ele próprio afirmava, para estar num outro lado qualquer. Que bem esteja.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

ANTOLOGIA DO CONTO ANGOLANO


No passado dia 28 de Maio, foi lançada uma nova antologia do conto angolano, intitulada "Como se viver fosse assim", organizada pela jovem Domingas de Almeida, finalista do Curso de Língua e Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, e da qual consto com dois contos, nomeadamente "O Filho" e "Traição", que publicarei aqui futuramente.
Segundo a organizadora deste antologia, os escritores estabelecem um pacto com as suas origens e, convocando outras memórias, seguem o percurso dos contadores ancestrais. O espaço matricial é recuperado em vários níveis, o destaque, no entanto, é para a discursividade oralizada e a materialização de tal discurso, quando o autor modifica, altera a língua portuguesa ao introduzir termos e estruturas fraseais oriundas do kimbundu, do kikongo, do umbundu e de outras línguas que representam o lugar da angolanidade. Logo, o conto angolano tem uma tradição oral, constitui-se numa herança ancestral, baseada em lendas, mitos, fábulas e provérbios

SUMAÚMA





POEMAS



Poema
gesto amarrotado
na mão pensamento


tentáculos
do mundo inverso
verdejando
no coágulo
da palavra


NUNCA


Nunca permitas
cicatrizar o ódio

a onça aguarda
medos
no muxitu

terça-feira, 1 de junho de 2010

MEMÓRIAS DA ILHA - CRÓNICAS


Logo após o Mundial de 1994, escrevi esta crónica que, às portas do que começa daqui a dias, acho por bem republicar com a devida antecedência. Assisti ao que decorreu na Alemanha, onde nós angolanos participamos pela primeira vez com muita honra e brio. Lamentavelmente, para este, que é aqui mesmo ao lado, a nossa bandeira não se fará presente. Paciência, mais sóis brilharão, e como se diz aqui na banda, etu mudietu, makamba jiami (nós somos, meus amigos).


O MUNDIAL

Decorridas várias semanas do término do Mundial 94, quiçá se possa referir ao evento com um pouco menos de subjectivismo e com maior probidade.
Não será intenção descrever os feitos da grande equipe brasileira e da sua mais do que merecida vitória, muito menos das técnicas e tácticas desenvolvidas e usadas nos campos pelo diabo-virado-santo Parreira.
É mister sim, e sem pitada de ironia, alertar desde já para as técnicas, e sobretudo tácticas, que poderão vir a ser impostas aos jogadores no campo do amor, no período dos mundiais. Esperemos cheios de alento que seja unicamente nos mundiais, porque se a moda esdrúxula passar para os campeonatos nacionais, Deus nos ajude, estará tudo perdido.
Num estudo elaborado e conduzido por dois pesquisadores israelitas, em cerca de quarenta jogadores de futebol daquele país, chegaram-se a indesmentíveis conclusões, que certamente não serão do agrado de todos, já que ao partir-se do princípio que todos os jogadores podem, ver-se-á que uns poderão mais do que outros, segundo a relevância física do posto. Consagra-se assim a máxima por nós bem conhecida, a cada qual segundo o seu esforço e trabalho.
Concomitantemente, a D. Maria, esposa amantíssima do guarda-redes (goleiro?) Fulano de Tal, poderá ser agraciada com os favores e calores do extremoso marido até três dias antes do tira-teimas. Se o dito cujo for tão bom a furar a baliza lá em casa quanto é a guardá-la nos relvados, ter-se-á um momento nublado para a infeliz consorte, por três dias que sejam.
Todavia, se a D. Maria for esposa do avançado Sicrano de Tal, porque o desalmado exaure todas as energias correndo de um lado para o outro para meter o afamado golo, a coitada não poderá ver, na alcova, seu marido a avançar e meter o que todos sabemos que mete, oito dias antes da partida, segundo as recomendações da estatística dos malvados, esses sim, andam a meter o que não devem onde ninguém os chamou.
Que me perdoem os pesquisadores, eles próprios talvez maridos competentes, isto não é partida que se pregue a ninguém.
É evidente que as esposas das defesas são metidas a meio caminho nesta pesquisa, devendo a abstinência sexo-desportiva decorrer a partir de cinco dias antes do páreo.
Por aí se poderá imaginar o sofrimento do futuro campeão mundial que, ao fazer todas as partidas, passará no mínimo um jejum espartano de mês e meio, isso não contando que o regime seja aplicado durante o período de preparação.
Não nos admiremos pois, se os treinadores desejarem levar a rigor os valores científicos das pesquisas, para benefício do desempenho da equipe que se venham a verificar violentas manifestações púb(l)ícas das esposas dos jogadores, com as dos avançados a liderar, unidas para jamais serem vencidas.
E para que elas se vinguem, sobretudo as consortes dos futebolistas do Petro Atlético de Luanda ( mais validado campeão angolano), aos quais é exigido muito mais que um tetra, com o resultante desgaste do arcaboiço e afins, é dever patriótico tornar público o nome e local de trabalho destes briosos e talvez inditosos pesquisadores.
Mas meditai antes, ó abnegadas damas, porque uma viagem a Israel é algo oneroso. O pecúlio hoje é escasso, não mais se viaja por duas grades de cerveja. Ser-vos-á mais fácil e prático permitir que os vossos maridos impunes furem o boicote, até porque o treinador não estará de vigília todas as noites e em todas as alcovas.
Quanto aos malandros, os senhores Alexander Olshanytsky e Mordechai Halperin, pesquisadores no Centro de Jerusalém para a Impotência e Infertilidade, não se encontrando ainda satisfeitos com os possíveis danos que venham a causar, desejam ir mais além e prometem pesquisa feroz nos restantes domínios do desporto.
Felizmente só jogo ao dominó!

04/08/94

O IMAGINÁRIO NO TEXTO ANGOLANO (NO PRELO)


COSTA ANDRADE

De seu nome de guerra, Ndunduma We Lepi, nasceu no Huambo em Abril de 1936 e faleceu em 2009. Insigne nacionalista, guerrilheiro, artista plástico, jornalista e Deputado, tem mais de vinte títulos publicados, poesia e prosa, e é um renomado artista plástico, com nove exposições individuais de pintura. Sobre este conto, escrito em 2002, o autor, com a nostalgia de quem revive páginas duma infância mágica, revela que o rio Kuiva não é um rio. É uma lenda.
Também não é uma lenda. São muitas lendas cruzadas com a verdade. Tantas verdades, que a lenda do Kuiva é afinal uma verdade, que faz dele um rio, que devia ser igual aos outros, mas não é.


A PROFECIA


O rio Kuiva não é um rio. É uma lenda.
Também não é uma lenda. São muitas lendas cruzadas com a verdade. Tantas verdades, que a lenda do Kuiva é afinal uma verdade, que faz dele um rio, que devia ser igual aos outros, mas não é.
Ás vezes torna-se um conto, outros vezes um mistério, a maior parte das vezes um caudal de enchentes, onde acontecem coisas estranhas, inesperadas, que transformam o rio num conjunto de geografias, seres humanos e bichos, capazes de ser ontem e amanhã, mudar de repente.
Das águas cristalinas, alturas do Salundo, passa e arrasta margens das nakas, as lavras de terra negra fértil das baixas da Emanha, transporta o barro, lama, até chegar á sukatera, a garganta apertada, do próximo socalco.
Perguntei uma vez, à noite, hora propícia, sentado em torno do braseiro, ao guarda-nocturno da loja, o mais-velho Longuia, porquê que o Kuiva se chamava Kuiva.
- Porque o Kuiva é uma cobra. Mas não é uma cobra qualquer, às vezes incha, outros vezes fica magro. Esse nome dele, de cobra, não é aquele, daquela cobra que mataram no curral dos porcos?
- É.
- Então! Kuiva é nome de cobra. A kuiva do curral mamava o leite da porca enquanto ela dormia e os leitões morriam de fome. A kuiva metia a ponta do rabo dela, na boca do leitão. Uma vez é este, outra vez é aquele, e todos morreram de fome. Até que lhe mataram com ela, também.
- Eu penso que se o Kuiva incha e fica magro ás vezes, talvez o nome dele, devia ser o’mona, porque a, a jibóia, pode até engolir uma pessoa.
- Sim, mas o Kuiva não é um rio muito grande para ser jibóia.- conclui Longuia.
O Kuiva não é um grande rio, porque só tem trinta quilómetros. Mas era grande porque tinha lagoas muito largas no caminho, cascatas de grande altura, rápidos, ilhas, onde com coragemt talvez se pudesse viver. Águas turvas aqui, transparentes ali, onde viviam peixes. Nos rápidos, novamente a cintilar, os brilhos de rochas de granito afiadas, escorregadias, reflexos de sol, antes de sombras, praias, numa e noutra margem, ilhas povoadas por bandos de pássaros e serpentes esquivas, bananeiras espontâneas, frutos sem nome, doces e com múltiplas cores; um pouco mais longe das margens, nkulankunlas, as cerejas planálticas, o’lomoinhos vermelhos junto à raiz, como pequenos bagos de café rasteiros, quando maduros, e outras surpresas. A minha Avó não queria nem ouvir falar das minhas ideias com Tchiwe e o António até ao Kuiva.
- Lá tem muitas cobras, nas árvores do Kuiva. Aquela cobra que voa, o nome dela é Ndala. A cobra Ndala salta como seta de azagaia lá dos ramos e te pica na cabeça. É só morrer, sem tempo de chamar ninguém para te chupar o sangue envenenado, com ventosa de chifre de mbambi, a cabra do mato, se tem. Isso tudo, e o que fica Por contar, é o rio Kuiva. Exactamente, a partir das alturas do Salundo, até pouco antes do começo da encosta do Chivilundo, onde ele cava a ravina profunda da passagem, que o leva ao Chicanda é a parte que eu conheço e lhe andei, com os meus amigos.
Porque eu vou contar o que sei dele e acontece, o que vi e entendi, nos dez ou doze, dos seus poucos mais de trinta quilómetros de existência. São esses, que conheço perfeitamente, de tê-los pisado ao sol, à chuva desde o muxitu, as árvores gigantescas da nascente, onde surge gota a gota, entre raízes e mosquitos, quase noite porque o sol não consegue entrar ali, até que começa a viver diante dos olhos e ouvidos do mundo, com a voz de seixos e pedras cor de cobre e ferro, entre raios, que parecem lanças quando atravessam os espaços no meio das folhas, que o dia de sol não deixa escapar, e finalmente se despenha num outro rio, esse sim um rio. Este é mais estreito e longo, visto de vários vistas, atravessado por pontes, e cordas de amparo, (coisas dos homens), que o Kuiva não conhece, nem permite que façam sobre ele.
Dizem que do Kuiva, em noites de lua cheia, levantam-se serpentes com duas cabeças de mulher. Têm cabelos que brilham e se alongam sobre o corpo esguio. Se calhar passar homem, mesmo um rapaz, a serpente enrola-se nele muito apertada, uma das cabeças bebe-lhe o sangue através da carótida, e a outra suga-lhe toda a força, que ele podia dar a um filho se fosse com uma mulher de verdade. Depois solta o corpo, feito cobra sem vida, mais bem uma tripa de boi abandonada, no fundo das águas, para ser levada pela corrente e desfazer-se no caminho.
- E porquê, que essa cobra faz isso aos homens - perguntou o Tchiwe?
- Porque ela não tem família, vive a raiva de ser sózinha, não sabe o que é gostar ter alguém, para chamar-lhe pai ou mãe.
- E porquê, que um caçador naõ vai matá-a ou fazer uma chiriva, ratoeira, para lhe apanhar? - perguntei eu.
- Porque a arma ou azagaia do caçador vira água, quando ela aparece. E a chiriva vira barro
De olhos esbugalhados ouvíamos o terror das coisas medonhas, que os mais velhos contavam do Kuiva. Isso aguçava a nossa curiosidade, em vez de fazer-nos desistir de ir a ele.
No seu percurso, pelo menos aqueles que eu conheço, recebe regatos, torrentes das montanhas que o apertam e por vezes lhe dão largas só dum lado, para espreguiçar-se e inundar as terras, protegidas por espinheiras de folhas acerradas e cruéis, não obstante a forma de um coração humano, que exibem enquanto verdes. O próprio Kuiva parece não saber do mundo e não ter vida dentro de si, até momentos antes de diluir-se no Chicanda, que pouco depois se despenha nas mupas da Tchenga, conhecidas nos mapas da linha do caminho de ferro de Benguela, como as quedas do Ukuma. Mas é falso, é perigoso, acreditar nesse fingimento. No lago que forma depois da queda do Salundo, lá para trás vários quilómetros, há bagres e outros peixes, que na verdade ninguém sabe, como é que são iguais aos do Luena tão distante e diferente, com falas e lendas doutra língua, por vezes até para culpar a terra do Kuiva, de ter levado de Kalunga, o mar, até ás suas planiras, os brancos que mandavam na vida e na morte, depois demandarem no trabalhos pessoas. Mais isso acabou num dia 11, dum ano, que vai ficando velho, como acontece com todos os anos, que se comemoram.
Ninguém sabe nada do Kuiva, porque esconde as estórias todas dos seus mistérios, dizem que por causa daquele branco, que lhe apareceu na outra margem, como uma nuvem de chuva carregada, que faz fugir as pessoas e os bichos, para ninguém saber como veio, o que fez e como acaba. Por isso é que os mais velhos, nunca respondem ás perguntas sobre o branco, sobre a lavra dele, e não gostam, que as crianças atravessem o rio, nem mesmo nos lugares onde é possível tentar chegar ao outro lado.
Nós os miúdos da Emanha, sem nada para fazer, depois que nos ralharam por subir nas cabras e ovelhas, fazer delas cavalos, fomos várias vezes até lá.
A Emanha era a nossa margem, cá em cima.
Em baixo na encosta, as lavras, mbanda, lavra de socalcos do Chimuco e todos os habitantes da aldeia.
Diante dessa lavra, havia uma floresta estreita, que se podia chamar a fronteira do lago, que se estende em frente à alta e escarpada encosta da Emanha, o nosso sítio prefeito. Era o nosso ponto de observação, posto de guarda, sei lá! Vivia no lago, um jacaré, que não tinha famíla, nem se sabe como lá chegou. Ninguém lhe viu jamais os filhos, a mulher, os ovos, donde saem pequeninos já a morder, os filhos da sua “epata”, a família, da beira d´águas paradas e profundas. A terra do lado da margem do Ukuma estende-se plana e úbere.
Do nosso miradouro, via-se um canavial, pomar e lavra, até perder de vista na base da montanha, atrás da qual se esconde o sol, ainda cedo, antes das cinco da tarde. Daí o Kuiva, vai por sua vez, gordo de tantas águas, de outros córregos, cercar uma ilha ao longo de um quilómetro, num abraço de pouco mais de cinquenta metros de largura. Nela, a ilha de chão branco de areia, sobre a terra negra, crescem árvores muito altas, com lianas, flores, abelhas e estende-se essa areia branca, como voz de quem chama ao repouso, como um convite de pensar coisas sagradas, para acreditar no que vê e ouve do vale profundo, antes das quedas do Lukamba, onde o moínho, que alguém tentou plantar ali, foi levado pela enxurrada, antes de ter moído sequer um grão de milho, encalhado entre as pesadas mós de granito, que tinham o dever de executar esse trabalho. O Kuiva não consentiu jamais corpos estranhos, nem mesmo ali onde montanhas e pedras resistem desde sempre, á sua força variável somada á dos músculos da idade do mundo. Nem mesmo um corpo de mulher, que diziam ser do Brito alfaiate, por ter constado, que ele a encontrou na cama com um empregado da loja do Barreto. O Kuiva atirou-a para a outra margem e os corvos, em disputa com os lobos e as raposas do Chivilundo deram cabo dela, e no entanto ninguém a viu. Outros diziam, que não era nada disso. Ela fugiu do Brito, que não chegava par ela, e era bruto. Apanhou o combóio no Longonjo e foi ser puta no bairro S. João, em Nova Lisboa, para os soldados expedicionários.
Então o Kuiva chega, cinco ou seis quilómetros adiante, ao Chicanda antes da ponte, para preservar a sua liberdade de margens afastadas, após ter aberto na montanha vulcânica, a ravina profunda da passagem, (que referi antes do tempo), e que o sol não consegue nunca iluminar. Não é que ele não queira, é o Kuiva que não deixa, mesmo se já cumprido o seu caminho. Transforma-se, enfim num rio, como os rios, é Chicanda, que se desfaz finalmente, em rio Catumbela, um senhor de rios, que impõe os seus caprichos aos homens, haja chuva ou seca a mais, durante o ano.
Pouca gente fala do apoio, que ele recebe de muitos outros, sobretudo do Cubal, dono de muita terra, e muito canto, por causa dos saltos sobre o leito pedregoso. Nem sequer duma barragem feita pelos homens, que outros mandaram destruir, como se a praga do Kuiva tivesse resistido a tantas misturas de afluentes com mais forças do que ele. Como se fosse já o rio grande e poderoso, feito de rios e de lendas, margens de sisal e eucaliptos, ali mesmo transformados em papel, lenha para combóios e fibras para sacos, até perder-se no mar, antes com a doçura devida aos canaviais, á fabrica do melaço e álcool, agora mudo, com raivas escondidas, do abandono em que o deixaram. Fez mesmo desabar a ponte, como que diz, que até os rios têm ressentimentos e os galpões de fábricas silenciosas, também.
É claro que já não era o Kuiva, esse rio que muitos chamam rio, por não terem outro nome par dar a um grande volume de água que corre, salta e repousa, depois corre novamente, sem um leito permanente, para perder-se na corrente mais estreia, quase serpentina, que o emigra do lugar onde nasceu, par transformar-se em nuvem, virar chuva e regressar á terra.
O Kuiva era o nosso brinquedo. Hoje não sei o que é feito dele. O Tchiweienge, o Vilombo, o Kalombweti, durante uns dias o Rui Araújo vindo do Lépi, Zé Coelho do Huambo, não sei se alguma vez o Jaime Reis e eu decidimos seguir o Kuiva, conversar com ele, até ao ponto onde o Ngwenje, o riacho do Brito alfaiate, se despeja nele. Conhecer alguns dos seus segredos, decifrar os cantos e vozes que lhe ouvíamos, sobretudo descobrir o sitio certo, para vencer a sua fronteira, tal muralha e desafio, a cavaleiros de nuvens da imaginação. Atravessá-lo, ir ao outro lado era uma força maior do que do que o desejo. Mais que o risco, era a afirmação. Onde a terra plana, o pomar, a lenda cresciam era impossível, cada vez que íamos imitar o Domingos Epanwe, o único que atravessava o Kuiva quando lhe apetecia, sem que nos visse.
Era o fascínio e o mistério, havia o silêncio das respostas.
Do nosso lado, o declive, árvores com raízes à flor da terra, algumas delas inclinadas quase a tocar-lhe as águas, deixava a adivinhar sobre a imensa planura do horizonte na outra margem, pontos de cores entre frutos e flores, brilhos de inundação, libélulas, peitos celestes, rabos de junco, rolas, e até pumumus, gaviões e corvos. Uma vida cheia de mistérios até ás montanhas, que escondem o Ukuma. Um laranjal e tangerineiras, morangos, muitos milho, batata-doce dentro dum vastíssimo capinzal e trepadeiras selvagens, flores de rícino, numa ou noutra árvore um cortiço. E no entanto havia pontos em as margens quase se tocavam, quando as montanhas de um e doutro lado mostravam ser mais fortes do que as águas e cresciam até ás nuvens. Da planície, diziam os velhos e as velhas sobretudo, ser um lugar para não irmos nunca. Lugar marcado por Kalunga, não o mar mas a morte, que no tem o mesmo nome, que lhe dão a praia, quando não regressa nunca mais, alguém da pescaria.
Diziam ser uma fazenda amaldiçoada, povoada por almas doutro mundo. Abandonada por um branco, que morreu de biliosa, nos anos em que nascemos nós aventureiros. Os que falavam com maior conhecimento, diziam ter sido o jacaré solitário da lagoa, que não tendo mulher, nem filhos, devorava os seres humanos, e algum macaco, que caísse à água, dos ramos pendentes sobre o rio. Por isso é que o branco, que lá viveu era um mistério, uma assombração.
Um branco que não chega a construir nenhuma estrada, sequer um caminho de andar a pé ou de bicicleta, de carroça, até à própria porta, só podia ser um branco malfadado e mal falado. Ninguém lhe sabia o nome, ninguém o viu na vila ou na cidade, como veio e como foi, que trouxe a enxada, e as sementes, com que plantou aquela baixa fértil, sem acessos. Nem vindo do Ukuma, das altas montanhas, nem ido da Emanha, a partir da estrada do Longonjo até Caconda, ou da Catabola e do desvio para a Yava, mesmo da paragem do Calunga, donde vinha o “Burrinho”, Joaquim Torres, (ouvi anos depois, quando morreu de morte emboscada no Miramar, chamarem-lhe rambo e não gostei!), passar férias connosco na Emanha. Nada, não havia nem ponte nem passagem. Ninguém o conhecia. Ninguém o via.
Nós, formamos um grupo, que fugia de casa, antes das nove da manhã, depois do matete de losseke azedo com mahíni, o yogurte kuanhama da cabaça, a quase tortura do cálice de quinado da Madeira, que o velho nos fazia tomar a todos, para prevenção contra o paludismo. Íamos espreitar de longe aquela terra de mistérios, ver como o Domingos atravessava o rio. Algumas vezes levávamos comida para lançar ao rio e atrair o jacaré para jusante. Enquanto isso tentávamos a travessia a montante. O “Burrinho” subia um tronco envelhecido e lançava-se quase em voo, mergulhava, para surgir na margem oposta, triunfante. O regresso era um pouco mais difícil. Com as varas de bambu da ilha fazíamos restolhar a água. Talvez por isso o jacaré não vinha nunca interromper a brincadeira da coragem. O nadador da vez, dava as braçadas necessárias até ao tronco, subia e voltava herói, para os que não tinham tentado ainda a travessia. Mas ninguém se atrevia a ir além da margem, colher uma laranja, o que quer que fosse. Não era aquela uma terra de causar medo a todos, menos ao Domingos, porque era Epangwe?
A nossa margem entrecortada de pequenas veredas, que desapareciam entre o fechado arvoredo, para ressurgir em várias direcções, que não conduziam a ponte nenhuma, era o nosso território. É claro que tínhamos atravessado quilómetros abaixo, o ramo estreito do Kuiva e descoberta a ilha. Mas não além da ilha, a contracosta, que a torrente era forte e com ruídos surdos. Vimos fugir serpentes, macacos a chiar e a fazer caretas de assustar intrusos. Vimos pássaros saltar de ramo em ramo, seguros por não verem nas mãos de nenhuma de nós uma chifuta, a fisga, um arco ou zagaia, o que quer que fosse, que servisse par matar.
Mas se não havia pontes nem estradas, como é que o branco foi ao outro lado, ou lá chegou, vindo ou não desse mesmo lado, para plantar aquele pomar, naquela baixa inundada pelo Kuiva, todos os dezembros até março? O tronco de pé, que o Domingos um dia derrubou, não era ainda, quase ponte.
De pergunta em pergunta, ouvimos dizer da Avó Ngueve, que isso era uma história de mais-velhos e que os meninos não deviam andar por esses lados. Só lá ia o Domingos Epangwe, que na verdade se tornou dono daquelas terras, ou pelo mesmo, do que ela produzia. Trabalhou desde criança com o branco, que pegou primeiro na enxada, capinou a vastidão, semeou o milho, as batatas, o feijão e mais perto da montanha, as árvores de frutos todas, que lá havia. Não derrubou nenhuma das naturais, que encontrou, filhas da própria terra, os loengos, as loncyas, outras mais. Plantou mangueiras, junto da pequena casa, que ele próprio construiu. Viveu sozinho, muito tempo, ninguém sabe ao certo quanto. Atravessou o rio para este lado, foi ao quimbo do Lukamba, uma vez de manhã cedo, arranjou uma mulher ainda nova, que vivia só, sem filhos, e convidou para viver com eles o Domingos, que já era órfã de pai e mãe. A mulher perdera o marido há vários anos, vendido pelos angariadores para S.Tomé, mais exactamente para as fazendas do café, perto do Congo. O Domingos, vítima do mesmo destino dos pais, era então, um rapagão de uns treze ou catorze anos, que vivia de muitas tarefas pesadas, prestadas a este e àquele em troca de comida e dormida, uma fuga aos cipaios, pedradas aos camiões, que transportavam contratados. Forte como um touro, livre como um leão., forte como um elefante, Domingos era um homem aos treze anos.
Aceitaram os dois, a mulher e Domingos, ir viver do outro lado, mais acima, com aquele branco estranho, que morava sozinho e lavrava a terra como se tivesse nascido ali. De resto, pouco ou nada mais sabiam dele.
Os dois, também sem mais ninguém no mundo, seguiram-no, subiram atrás dele, toda a margem esquerda do rio, às alturas do Salundo, desceram a encosta, até ao ponto onde o barulho d’água, que se ouvia de longe, se tornava tão forte, de não deixar de ouvir a palavra do branco, mas só o gesto, “por aqui!” encontraram-se diante de três grandes rochedos, quase pontiagudos, que apertavam o rio, fazendo-o passar ruidoso e revoltado, entre duas gargantas, donde caía em espuma e arco-íris, ao sol do meio dia, duma altura de mais de quinze metros, sobre um poço negro de águas límpidas, que depois por vez, se abria em lago calmo, que se alongava cerca de quilómetro e meio, e se alargava cerca da margem direita, nus cinquenta metros mais aqui, menos ali, antes de estreitar-se novamente entre margens reais mais fortes, porque de pedra profunda e com a face votada para o sol.
- Enquanto não fizermos uma pequena ponte lá em baixo, perto de casa, este é o único sitio onde o Kuiva se deixa atravessar a vau, mas com cuidado par não escorregar, senão é morte certa”.
Em silêncio fizeram o caminho da descida da margem direita até ficarem defronte da encosta, donde tinham vindo, e se erguem os vários caminhos que vão á Emanha das lojas e da estrada no planalto.
Chegados á casota do branco, ele dispôs como seria daí para a frente:
- Aqui dentro fico eu e a... como é o teu nome’
- Lahundi.
- Lahundi? Tá bem! Filha da puta de nome...Tu ficas aqui comigo. Agora és minha mulher. Não quero idas e vindas á sanzala, nem visitas de ninguém. Vais à loja quando eu mandar. Tu ou o Domingos. Ele dorme no jango da cozinha, até fazermos na próxima semana, um quarto para ele, ali perto da horta.
Domingos e Lahundi nada disseram. Olharam em torno. Havia um cercado do lado do rio. Luhundi apontou para lá o branco disse:
- Sim! É lá, podes ir. Oh Domingos, havemos de fazer outra latrina mais fechada, um pouco mais longe.
- Sim, disse Domingos.
Entardecia. Lahundi, que já vira o que havia dentro de casa, voltou com um a panela de ferro esmaltado e batata-doce. Entrou no jango, soprou e reactivou o braseiro, voltou a sair, foi até ao rio, encheu a bacia, que levou á cabeça com água e regressou ao jango. Lavou as batatas e assentou a panela ao lume sobre as três pedras para o efeito. Retirou do tecto do jango dois peixes secos e fumados, assou-os directamente nas brasas.
O branco, depois de ter comido levantou-se, foi sentar-se a uma certa distancia, acendeu o cachimbo com uma brasa, que levara consigo. Um cheiro estranho espalhou-se pelo anoitecer, agrediu as narinas dos recém-chegados e os mosquitos desapareceram.
No dia seguinte de manhã muito cedo, o branco agarrou na enxada, chamou Domingos, entregou-lhe umas moedas e disse-lhe.
- Vais à Emanha, e compra sal, óleo, açúcar e arroz. Vais pelo caminho de ontem. E não sabes nada, que te perguntem, ouviste bem?
- Emanha é aqui á frente. Não tem passagem?
- Não. Há aí um lago com jacarés. Nem sei como vieram parar aqui, havendo aquela queda de água de um lado e outro lá em baixo, perto da ilha.
- Sim Senhor! - Respondeu Domingos. Como do outro lado tem muitos paus grossos, um dia vou fazer uma canoa.
- É uma ideia!
Domingos partiu. O branco e Lahundi, depois de um gole de café foram para a lavra. Passou a ser assim todos os dias.
Lahundi olhava de vez em quando aquele branco forte, com alguns cabelos brancos, barba crescida, que falava pouco, e que ninguém sabia donde vieira. Nem mesmo o nome dele, sabia. Parecia ter feito sozinho a lavra e tudo quanto fosse obra. Queria saber dele alguma coisa, mas ele quase não falava. Nunca foi visto a visitar os outros brancos das chitakas, que havia do outro lado. Muitos nos quimbos pensavam, que fosse um branco feiticeiro. Os cipaios mandados do posto do Lépi tinham medo. Faziam perguntas às pessoas do quimbo e iam embora, dizer que não havia nenhum branco naquela terra. Os brancos todos eram conhecidos, tinham lojas e chitakas do lado de cá do rio. Lahundi, porém, agora que vivia com ele, que era sua mulher, tinha de saber ao menos, o nome dele. Naquela noite, da primeira vez, até gostou dele. Só aquele cheiro, que saia no nariz, parecia um remédio dos mais velhos, é que lhe estragou um bocado. Até que era um bom homem. Nunca, lhe bateu, mesmo na noite, que tinha dente doeu e não aceitou lhe deixar dormir em cima dela.
Perto do meio-dia quando voltavam para casa, Lahundi disse, que já vinha ia passar naquele lado do milho, se tinha maçaroca para jantar.
- Podes ir, mas não vás para lá daquele morro de salalé. Ali só eu, é que vou”.
Lahundi, enquanto procurava no milharal umas maçarocas mais desenvolvidas sentiu alguma curiosidade pelo que haveria atrás do morro de salalé, mas pensou para consigo: “se calhar quer fazer lá outra coisa, um dia”. Deu de ombros, voltou para casa.
Passava do sol das quinze, quando Domingos chegou com a sua carga.
À medida que o tempo passava Domingos foi-se tornando cada vez mais forte, dono de uma força hercúlea, ajudante inseparável do branco, que o tratava sempre, como se fosse um filho. Era ele que saía para as compras e vendas dos produtos da lavra e do pomar.
Lahundi ajeitava-se nas tarefas da casa, da lavra e da cozinha. O único momento estranho, difícil, incompreensível tanto para ela como para Domingos, sem que no entanto tivessem trocado um palavra sobre as suas preocupações era o afastamento cada vez mais frequente do branco, ao fim d dia, para fumar o seu cachimbo, exalando aquele cheiro, que tanto os incomodava. O branco, num desses fins de tarde chegou a dizer-lhes:
- Vocês podem chamar-me senhor José. Não podem ficar toda a vida, sem um nome para me chamarem, não é?
- É sim, senhor José, - respondeu Domingos.
Lahundi manteve-se em silêncio.
Depois foi uma noite em que José, pareceu mais amigo e se encostou muito a Lahundi. Mais uns dias passados, após uma noite de muita chuva, acompanhada de granizo, que destruiu grande parte da lavra de batata-doce e milho, José levantou-se nervoso. Dormira mal. Durante curtos períodos de sono agitado. Lahundi ouviu-o falar, pronunciar nomes, que não ouvira nunca. Gritar a palavra não, algumas vezes. Ao vê-lo levantar-se e sair sem tomar café, em direcção ao rio, Lahundi sentiu um pequeno aperto no coração, como que um vago pressentimento. O chão ainda mostrava extensos espaços brancos de granizo, que esperava o sol para derreter completamente.
José dirigiu-se a passos largos para a lavra das batatas. Dois javalis largaram em fuga transvia, para o lado das montanhas. Era a primeira vez, que via javalis naquela zona. A inundação cobria grande parte da lavra. Adentrou-se um pouco mais no campo inundado. Queria chegar à horta, que lhe parecia não estar coberta pela água Para encurtar caminho, a água chegou-lhe á cintura, um passo mais e de repente, saltou um grito e desapareceu. Debateu-se alguns instantes. Agitaram-se as águas e depois voltaram à sua quietude habitual. Lahundi que de longe seguira José com o olhar, soltou um grito angustiado chamou Domingos e correram ambos na direcção do sítio onde desaparecera José.
Antes de chegarem ao ponto da ocorrência viram aparecer á superfície das águas á direita, mais exactamente sobre o leito do rio, uma ancha de sangue levada lentamente pela corrente, um braço, que depois também desapareceu.
Lahundi correu par o rio desesperada. Domingos impediu-a, segurado-a pela cintura. Puxou-a para terra e arrastou-a para cas.
Ela dizia entre soluços: - “Atrás do morro do salalé. Atrás do morro do salalé, é que está o segredo, atrás do morro da salalé”.
Quando Domingos conseguiu serená-la e depois de deixá-la chorar longamente em silêncio perguntou com voz contida:
- O que é isso do morro de salalé?
- O branco falou desde o primeiro dia, para nunca ir lá. Nunca fui.
- Eu também nunca passei naquele lado, mas ele não falou nada.
- É melhor passar lá para saber, agora que ele morreu.
Á tarde encaminharam-se para morro de salalé. Percorreram cerca de dois quilómetros seguindo um mal disfarçado caminho. Entre o arvoredo abri-se uma pequena clareia com uma plantação, cujo cheiro deu a Lahundi, a resposta imediata:
- Ele fumava! Afinal era este o cheiro! Ele fumava! Vamos sair daqui! Vamos deixar esta lavra, tudo vamos sair. Aqui tem desgraça.
- Não! Então nós trabalhamos com ele este tempo todo. Não sabemos se tem família ou não tem. Nós é que ficamos família dele, e vamos deixar tudo aqui? Não. Ainda vamos ver, vamos pensar bem.
Voltaram para casa.
No caminho do regresso, Lahundi dizia: “É mesmo a minha desgraça! O meu primeiro homem lhe levaram no contrato, no norte. No dia 15 de Março lhe mataram, porque é daqui, desta nossa terra. Fui no velho Pataka, passei na velha Nanguenkenha, fui nos sékúlus da Ahienja, matamos galinha, é cabrito, é quê, todos falaram: “a tua desgraça só vai acabar quando outro filho daqui da nossa terra morrer, um mês de lua antes desse dia 15, que perdeste o teu homem, junto com os outros, que foram daqui. Mas tem de morrer também outra pessoa, um mês de lua depois desse mesmo dia, para acabar a desgraça, de todos da nossa terra. Nem que vai passar muitos anos. Se não vai continuar sempre. Todos vamos sofrer muito”.
Lahundi não dormiu a noite toda. Na manhã seguinte, depois de ter percorrido as águas com o olhar, sem ter visto qualquer sinal de José, entrou em casa e abriu o velho baú de zinco, onde José guardava as suas coisas.
Entre as poucas roupas gastas, duas fotografias, um de uma mulher muito velha com cabelos brancos, parecida com José. Estava o cachimbo, havia uma folha rasgada de jornal antigo, com a fotografia do José, enquanto novo. Lahundi não sabia ler. Chamou se Domingos, que frequentara há muitos anos a segunda classe a escola do Ukuma, antes dos pais morrem no norte. Domingos conseguiu decifrar o velho jornal, dos anos cinquenta:
“Evadiu-se da Baía dos Tigres o perigoso assassino João de (Papel roído), que aí cumpria pena maior de 22 anos, condenados na metrópole (Papel roído), por vários crimes contra a segurança do Estado.”
Lahundi não quis ouvir mais nada.
Três semanas decorridas, uma manhã, com o sol já alto como não se abrisse a porta, Domingos bateu novamente e abriu. A casa estava vazia. Lahundi desaparecera. As pegadas frescas de véspera, que conseguiu descobrir, levavam ao rio. Segui-as um pouco, mas desistiu.
Domingos ficou só, durante muito tempo.
Num dia de sol decidiu atravessar o rio, pelo caminho de sempre, até á árvore da outra margem, que se erguia em frente da casa onde morava. Como o machado, que levou consigo derrubou-a fazendo tombar sobre o rio, quase transformada em ponte, sem separá-la totalmente da raíz. Os ramos mais altos e robustos atingir a margem onde morava, enquanto não fizesse a canoa, ou não completasse a ponte, com outro pau até onde terminava este.
Regressou exausto a casa. A solidão pesava-lhe. Levantou-se a caminhou até á pequena lavra de diamba de José. Colheu algumas folhas, voltou a casa, secou-as na cinza quente e depois fumou-as. Passou por um estado, que nunca vivera antes. O meio tonto, meio leve sem saber o que sentia, nem pensar exactamente em qualquer coisa. Adormeceu, dormiu profundamente.
Com a passagem dos anos, e sem ter feito a canoa nem completo a ponte, passou a atravessar o rio, no sítio da árvore tombada. A falta de chuvas estreitava o Kuiva certos anos. Bastava-lhe um salto mais ousado, uma braçada mais larga, atingia a margem. Na ida era o contrário: dava duas ou três braçadas, içava-se na árvore caída sobre ela chegava á outra margem.
Visto pelas crianças do outro lado, a proceder à travessia, depressa lhes ocorreu a imitação.
Foi assim que o nosso grupo, com o “ Burrinho”, que era o mais aventureiro, iniciou aposta sobre o medo, a coragem, a rapidez e a vitória da corrida a nado, desafiando o jacaré, que de vez em quando se espirava ao sol, na praia do rio, desse mesmo lado, com a boca aberta para caçar moscas. Era tão grande, que devia ser muito velho com certeza, pensavam as crianças.
Domingos, que entretanto começou a tresandar a liamba por onde passa, quando ia á loja vender mangas, laranjas, ananases, passou a ser conhecido por Domingos Epangwe, e mais tarde apenas por Epangwe, o nome da liamba em umbundu. Não se zangava jamais, deixava transparecer apenas uma profunda tristeza no olhar.
Quando numa manhã de Abril, depois de uma noite de lua cheia, regressava do quimbo, ao antigir a margem direita, depois de duas braçadas a nado, Domingos sentiu a perna presa dorida, entre as mandíbulas do jacaré. Com a rapidez e a força imensa, que tinha desfechou uma machadada, entre os olhos do batráquio que de repente abriu a boca sem espadanar. Sem vida, voltou-se, ficou de barriga para cima, a boiar, arrastado lentamente pelo Kuiva.
Domingos sangrava, mas conservava a pena presa ao corpo, os osso inteiros. Arrastou-se para fora do rio e disse para consigo:
- Agora só falta acontecer o resto da fala da velha Nanguekenha, numa lua de fevereiro, para acabar a desgraça toda nossa gente. Eu não morri, mas o bicho morreu.
Domingos, passados mais de trinta anos, não chegou a saber se a profecia da velha Nanguekenda se cumpriu. Caiu ao rio, depois de ter bebido a cabaça inteira de lingenye, a aguardente de batata-doce. Desapareceu nas águas da noite escuras, cansado de esperar o fim da sua desgraça.
Dois meses depois, em Março, Vilombo o único amigo, que lhe sobreviveu, velho e só, viu gente, que não via há muitos anos, passar entre os esqueletos do quimbo. Chamaram-no par que fosse com eles. “Toda gente que sobrou vem aí, Velho”!
- Eu vou mais aonde, se já perdi até a vida dos meus netos?
- Vem, mais-velho! A desgraça acabou! Lá atrás na fila, tem um menino, que pode ser teu neto. Ele não tem ninguém! Nós também somos teus filhos, não temos nada. Vamos só. Vem... não podemos te deixar...
Vilombo pediu ajuda para levantar-se a custo, e começar a andar. Afagou a cabeça do menino, conseguiu finalmente esboçar um sorriso.
Deixou morta a desgraça.