sexta-feira, 16 de maio de 2014

MEMÓRIAS DA ILHA - CRÓNICAS







OS SONHADORES

 
Há quem afirme que os sonhadores são os salvadores do mundo, talvez porque ao escutarmos as mais belas músicas, ao lermos os mais belos livros e poemas, ao nos revermos nas mais maravilhosas pinturas, ao tentarmos entender as mais engenhosas profecias e a sabedoria universal, cheguemos à conclusão que tudo isso é possível porque houve e há gente que sonhe.

E acho que isso é um facto, as realidades, os avanços conseguidos nas sociedades, são e serão fruto do sonho de alguém que soube acreditar em si mesmo e partiu para a labuta, para a concretização do seu desejo, da sua visão, da ânsia do querer. Todas as grandes descobertas foram chamadas de loucuras, ou tidas sem futuro prático, mesmo as mais recentes como o automóvel o que, fazendo um parêntese, me faz recordar uma pequena fábula, quando começaram a aparecer as primeiras máquinas automotoras, em que o burro, feliz, anunciava ao cavalo o seu fim, o homem não mais iria depender dele para a locomoção.

“Se eu me tornarei indispensável como cavalo, não sei o que será de ti como burro.”

“Ora, meu amigo, tu poderás ser dispensado, mas burros sempre os haverá!”

Foram esses sonhadores que nos deram a nossa essência. Sem esses visionários, ainda se acreditaria que a terra é plana, que não havia um Universo e sabe-se lá o que mais. Jesus Cristo não seria hoje o que É. Buda nunca teria penetrado o mundo que concebeu. Cristóvão Colombo nunca teria chegado ao novo continente, não obstante os seus desígnios serem comerciais e de direcção oposta, porque a força impulsionadora, para além das correntes marítimas, foi o sonho pela aventura, pela crença de que do outro lado daqueles mares, certamente algo o esperaria.

Todavia, os sonhos são os espinhos da roseira e não foi sem propósito que o Cristo foi coroado com uma coroa deles. A maior parte dos grandes sonhadores pagou caro pela sua visão de um outro mundo, pela sua crença e fé numa outra ideia, pela proposta de uma alternativa. Grandes sonhadores, como Moisés, como Ghandi, embora seguidos, foram maltratados pelos que os seguiam, pois a natureza humana é invejosa e, assim, as suas gerações os sacrificaram, de uma maneira ou de outra.

Se formos à Bíblia, entre muitos profetas, encontraremos Isaías, o anunciador de uma mensagem que nem sempre satisfez as coligações políticas dos chefes de Jerusalém, porque também anunciava que “o lobo habitará com o cordeiro, o leopardo deitar-se-á junto do cabrito, o vitelo e o leão pastarão juntos... o bebé brincará na toca das cobras, e a criança meterá a mão no buraco da víbora”. E o que lhe aconteceu, segundo relatos deixados? Terá sido serrado em dois.

Confúcio, cujos ensinamentos ainda hoje são referência na China, foi de igual modo um visionário que desejou um mundo melhor, confinado numa filosofia a que ele chamou a “Grande Harmonia”. Em vida foi humilhado, vexado, para mais tarde, os imperadores citarem as suas máximas, para o seu retrato estar em lugar de honra, para lhe serem construídos templos e oferecidos sacrifícios, para ser chamado de sol e lua, tal a sua glória. Assim como as asas das aves são as que sustentam o seu voo, assim é o sonho para os sonhadores, para os que sabem que não há limites que o confinem.

Esta crónica é dedicada e visa aqueles todos que sonham, que não desistem face à dura realidade, que sabem que sonhar é olhar para a frente e crer em si próprio. Estas palavras são para todos aqueles que sabem que é no ovo que está o futuro pássaro que, no meu caso, seria a bela ndua fugidia dos meus anos de menino, nas matas do Zavula.

 

14/08/05

VERTENTES DA FICÇÃO INSÓLITA ANGOLANA (ESTUDO)






VERTENTES DA FICÇÃO INSÓLITA ANGOLANA (excerto)

 
Jurema Oliveira

Professora da Universidade Federal do Espírito Santo na área de Teoria Literária e Literaturas de Língua Portuguesa, Pós-Doutora em Letras pela Universidade Federal Fluminense – Uff, desenvolve pesquisa na área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa

 Resumo: Depreender na literatura angolana as vertentes da ficção insólita contemporânea.

 Palavras-chave: tradição, oralidade e insólito

 O corpo é ao mesmo tempo o ponto de partida, o ponto de origem e o referente do discurso. O corpo dá a medida e as dimensões do mundo (ZUMTHOR, 2000, p.90).

O presente trabalho tem por objetivo discutir as vertentes da ficção insólita angolana. Para esse estudo escolhemos as obras dos autores (…) e Fragata de Morais.

 
           … FRAGATA DE MORAIS escreveu Como Iam as Velhas Saber (1983, A Seiva (1995), Jindunguices (1999), Momento de Ilusão (2000), Amor de Perdição, Antologia Panorâmica de Textos Dramáticos (2003), A Sonhar se Fez Verdade (2003), A Prece dos Mal Amados (2005), O Fantástico na Prosa Angolana (2010) e Batuque Mukongo (2011).

 

O século XX presenciou modificações históricas importantes no cenário mundial e em particular nos países africanos de língua portuguesa. O fenômeno violência nasce do desejo de dominação de um homem sobre todos os homens, mas, de acordo com Hannah Arendt, a violência destrói o poder, não o cria. Em contrapartida, as ações violentas fazem emergir no cenário social experiências insólitas, não habituais do ponto de vista cultural. A violência neutraliza toda e qualquer possibilidade de os homens se organizarem e viverem em harmonia e consequentemente abre espaço para o luto visível nas imagens refletidas num espelho d’água embaçado. Estes fatos constituem o móvel, os eventos sustentadores do gênero insólito:

           [...] o mundo organizado de repente se desorganiza, sobrevém então o desequilíbrio e as personagens oprimidas passam a viver o clima do absurdo, isso então seriam as características de um ‘insólito contemporâneo’ que lida com o coletivo e a vida pública, problematizando-os (Rodrigues, 2007, p.92).

 

Nessa perspectiva, os eventos não ocasionais, violentos, são postos em movimento por uma língua ficcionalizada que desloca as falas de seu lugar habitual, dando nova roupagem à ideia de apagamento, de censura promovida pelo discurso oficial, e abrem espaço à circulação da heterogeneidade identitária e discursiva, numa demanda múltipla dos eventos insólitos que rondam as experiências humanas diárias dos “pontos-sujeitos”, a base da ficção de Boaventura Cardoso para quem o personagem tem sempre um movimento especial, insólito. Sendo assim, em “A árvore que tinha batucada” do livro A morte do velho Kipacaça, o elemento de destaque é a árvore:

 

Para Carpentier, o maravilhoso constitui-se na modificação da realidade. Assim, a sensação do maravilhoso pressupõe uma fé, uma crença. Os que não acreditam em santos não podem curar-se com milagres de santos:

          [...] o maravilhoso começa a sê-lo de maneira inequívoca quando surge de uma alteração da realidade (o milagre), de uma revelação privilegiada da realidade, de uma iluminação inabitual ou especialmente favorecedora das inadvertidas riquezas, de uma ampliação das escalas e categorias da realidade, percebidas com particular intensidade em virtude de uma exaltação do espírito que o conduz a um modo de ‘estado limite’ (CARPENTIER, 2009, p. 9).

 

A experiência inabitual de que fala Carpentier presentifica-se no mistério que envolve a árvore, mobilizando, assim, toda a comunidade. No plano maravilhoso, é comum encontrarmos expressões ou termos que remetem os fatos ocorridos ao mundo sobrenatural, sem uma explicação racional. De acordo com Todorov: “O fantástico se define como uma percepção particular de acontecimentos estranhos” (TODOROV, 2004, p. 100)…

… O maravilhoso modifica o cenário, gera um estranhamento e estabelece novas categorias para a realidade. Sendo assim, o conto “O filho” do livro Momentos de Ilusão, de Fragata de Morais, nos apresenta uma experiência inusitada que é uma gravidez de sete anos: “Há sete anos que o filho lhe remexia as entranhas. Não havia dúvida, há sete anos que a criança a apalpava por dentro, que lhe falava em silêncio penoso”. A narrativa de “O filho” se desenrola valorizando o sobrenatural e o erotismo, pois o esposo ao cumprir o ritual afetivo conduz o desfecho do conto:

          … Na sala, o marido notou a esposa a arfar em agonia no sono, sentiu-a febril ao tomar-lhe a mão. Tacteando, beijou-a com culpa insaciável, nem se lavara ao sair da amante. Esta, grata pela carícia, levou-lhe a mão ao ventre e puxou-o a si, ardendo não de febre, mas de desejo. Penetrou com a língua sedosa o bacio da orelha do esposo e vasculhou-lhe os putrefactos segredos da alma.

A vontade renascida entumeceu-lhe as calças, tentou ignorar.

“Que situação ridícula, não posso”.

Todavia os lábios femininos insuflaram a não mais o estertor do delírio. E quando a penetrou desvairado, sentiu a criança agarrar-lhe a força máscula, o pénis, e a levá-lo para o ventre materno no momento supremo do prazer, da agonia, no explodir tumultuoso do plasma. (...)

Foi, na sala de visitas espaçosa, ao lado do sofá de couro onde repousava o corpo inerte e putrefacto da companheira, que os vizinhos o encontraram sete dias mais tarde.

Do carcomido ventre da esposa saiu um sardão vermelho que desapareceu por trás do cadeirão tronco de árvore, restolhando as folhas secas das tristezas (Morais, 2000, p. 13).

 

          Numa perspectiva numerológica, o sete é o número místico por excelência em todas as religiões e seitas, desde as mais primitivas as mais modernas. O sete é o número da criação. É também o número que indica a relação viva entre o divino e o humano, entre o bem e o mal.

 

No conto “A Seiva”, da mesma obra, Fragata de Morais metaforiza a fertilização da terra, símbolo maior, e a fertilização da mulher. Os personagens centrais nutrem um amor com “raízes na inocência rural e na crueldade terrível da natureza” (Morais, 2000, p.30), pois “o relâmpago quando desvirgina o firmamento, seu grito de prazer troveja pelos ares, derrubando árvores, casas e mesmo gente. Nada se lhe opõe no caminho da fertilização da terra. Assim seria com ele”(Morais, 2000, p.30).  Essa força sobrenatural oriunda do amor era ponderada constantemente por Mbuta que:

          … Lembrava as longas conversas com Jorge sobre o que seria tradição, usos e costumes antigos, face à Bíblia, à palavra simples, mas pesada dos padres.

          Convencera-se por fim que, feitas bem as contas, seria trocar um feitiço por outro. Abandonar a crença dos antepassados para abraçar a crença do feiticeiro dos brancos que curava leprosos com um simples toque de mãos, punha paralíticos a caminhar com uma mera vontade e palavra e, coisa jamais vista na tradição dos negros, ressuscitava mortos. Pesadas bem as coisas, de facto não havia motivos para reter a crendice clânica. O que se perdesse por um lado, a Bíblia reporia por outro, era como estava escrito olho por olho, dente por dente (Morais, 2000, p.32).

         

O questionamento feito por Mbuta acerca das tradições negras e brancas nos permite ler uma similaridade nas experiências vivenciadas por ambos os grupos humanos em torno daquilo que se origina de uma revelação não habitual, mágica decorrente da fé. Um exemplo fortalecedor do maravilhoso no conto “A seiva” diz respeito ao relato de Jorge acerca do batismo de seu bisavô materno:

          … Jorge contou que seu bisavô materno, de nome Kiavulo, fora baptizado com o nome João Patrício pelo padre, por o original ser gentio. Segundo o argumento do agente de Deus na terra, agora que virara cristão, seu nome teria que ser em consonância, nada desses nomes esquisitos que ninguém sabia o que queriam dizer. Kiavulo, que desejava aprender as coisas dos brancos, enfiou-se na catequese. Algum tempo depois, entre outras informações complexas, ficou a saber que lhe era vedado comer carne às sextas-feiras. Ora um dia desses, João Patrício, como então exigia ser chamado pelos outros naturais, caçou uma lebre e preparava-se para a comer, quando a nova consciência o admoestou, por ser o fatídico dia. Mas como a fome não tem nada de cristã nem aprendeu a ler a Bíblia, João Patrício agarrou no bicho já esfolado e antes de o comer meteu-o na água do rio, fazendo o sinal da cruz sobre o mesmo.

          ‘Se Kiavulo ser agora João Patrício, tu kabulo ser agora peixe. Branco pode fazer, mim também’, sentenciou para paz de sua consciência (Morais, 2000, p.32).

 

          Num ritual que envolve preceitos e quebra de preceitos percebe-se que o imaginário das personagens está imbuído de sensações experimentadas cotidianamente, pois o real maravilhoso se mostra de um lado na religiosidade africana e, por outro lado, no catolicismo, bem como nas práticas culturas africanas diárias. No desfecho do conto depreendemos uma sucessão de fatos extraordinários:

          … Jorge Torres, atordoado pela voluptuosidade inesperada da namorada, logo se recompôs. Apertou-a com paixão e preparou-se para o amor. Com frenesi conseguiu desnudar-se.

          Quanto a Mbuta, já há algum tempo que partira da casa da lenha. Só o corpo restara, cada vez mais abraçado a Jorge.

          Sua essência descia enroscada pelo poste na clareira, ao ritmo do bater abafado das mãos e dos pés das mulheres em seus cânticos de fertilidade.

          Silenciosa, feita serpente maior do que a jiboia, foi apertando os elos pelo corpo do amado que, de olhos cerrados e arfando, gozava o amor e a entrega, sem notar que a asfixia que sentia não se devia ao êxtase do prazer fulgarante e ritmado, mas sim ao aperto premente da cobra em si enroscada.

          Quando sentiu o ar faltar-lhe por completo, no momento excruciante do orgasmo, já roxo, seus olhos esbugalhados viram a enorme cabeça da jiboia a olhá-lo, língua bifurcada silvante.

          Despedindo-se no último beijo de amor, sua cabeça tombou por fim para o lado, o corpo inanimado amassado.

          A serpente desenroscou-se e rastejou silenciosa para o mato, desaparecendo. Ao longe, os contratados tocavam seus batuques dolentes que falavam das saudades da terra e dos familiares (Morais, 2000, p.34).
 

          Nos contos de Fragata de Morais, o real maravilhoso flui livremente, pois apresenta no primeiro momento situações totalmente normais para só no futuro proporcionar ao leitor um cenário sobrenatural.

 

O estilo maravilhoso de que fala Carpentier no livro O reino deste mundo (CARPENTIER, 2009, p. 10) não é privilégio das Américas, mas uma herança de uma África que imprimiu suas marcas e traços históricos numa diáspora que se descobre herdeira de uma cosmogonia ainda em construção. As ações ditas insólitas, inabituais tem um arcabouço fundado por um enredo cosmogônico que se desenvolve por meio de uma elaborada estrutura simbólica como aquela percebida nas longas festas do Komba, ritual de passagem de um ente querido em Angola.

A performance experimentada pelos personagens do conto…. …bem como do ritual amoroso do conto ‘O filho”, de Fragata de Morais mostra o corpo em performance, conceito pensando por Paul Zumthor na obra Performance, recepção, leitura (2000). De acordo com o mesmo autor performance se refere de modo imediato a um acontecimento oral e gestual.

 

O conto “Desencontros” de Fragata de Morais, retrata a história do espírito de um soldado chamado Hernando de La Cuenca y Fraga. Numa perspectiva que remete a um contexto simbólico-religioso, Evaristo, o esposo, presencia a possessão da mulher Filipina:

… Uma noite, em que Evaristo teve o susto da sua vida, ao entrar no quarto deu com Filipina sentada na cama em profundo transe, olhos esbugalhados e em cheliques. Pensando presenciar um ataque de epilepsia, agarrou-a pelos ombros com o fito de a deitar, sendo violentamente sacudido por um abanão que o enviou de encontro à porta do quarto. Estatelado no chão, boca aberta de espanto, ouviu uma voz masculina rouca e profunda a sair pelos lábios da esposa (Morais, 2000, p.38).

 

Hernando de La Cuenca y Fraga retorna para cobrar um reconhecimento que não teve em vida e usa o corpo de Filipina para obter reconhecimento pelos seus feitos:

Evaristo esfregou os olhos, Filipina olhando-o fixamente e altiva. Parecia-lhe uma blasfêmia ouvir, não as palavras preferidas, mas a voz masculina e roufenha gorgolejando pela boca da esposa.

“E o que tenho eu a ver com isso?”, ouviu-se perguntar.

“A tua mulher terá que divulgar esta minha miséria. É injusto, ninguém se lembra de mim. Andei com o general Pereira de Eça a combater para o engrandecimento da pátria...”

“Minha mulher?!...”, disse, de olhos, agora mais esbugalhados.

“Sim, tua mulher!”

“Meus Deus, que pesadelo!...”, balbuciou Evaristo, esvaído de forças e vontade.

“Pesadelo é o meu. Mandume passeia-se por aqui de cavalo branco, servido por vários Lengas e a cada instante ouve seu nome ser recordado. Quanto a mim, nem a minha família sabe que existi!...”, disse Hernando (Morais, 2000, p. 39).

 

Os acontecimentos insólitos são aqueles que não ocorrem com frequência, contrários às práticas sociais diárias, logo, causam espanto, estranheza, pois destoam dos hábitos comuns dos indivíduos em suas experiências quotidianas, resultantes historicamente de um sistema de concepções herdadas, correspondentes às formas como os homens se relacionam e transmitem seu conhecimento entre uns aos outros em uma determinada cultura e em um determinado momento das distintas realidades sociais. Diante disso, “é lícito opor o insólito ao natural, e ao ordinário, termos comuns na teoria dos gêneros literários quando se quer falar de Maravilhoso, Fantástico, Estranho, Sobrenatural, Realismo Maravilhoso, Absurdo” (GARCIA, 2007, p.19). Seguindo as explicações do dicionário, podemos ampliar nossas informações acerca daquilo dito natural. Segundo ainda o dicionário, o termo “natural”, significa aquilo que segue a ordem natural das coisas, lógico, próprio do instinto, instintivo, espontâneo, enfim, o que é previsível, provável (FERREIRA, 1986, p. 1608).

 

O projeto literário angolano contemporâneo conta com várias correntes, uma decorrência das mudanças sociais e políticas. De acordo com Vasconcelos (2009), o período pós-independência é marcado literariamente pelos diversos e múltiplos processos de ruptura conceptual de arte com o tipo de regime e sua falência num universo de múltiplos e de intermináveis experimentalismos. Esse experimentalismo conduziu a trajetória artística dos diversos escritores angolanos. Assim, transitando entre experiências tradicionais e fatos extraordinários Boaventura Cardoso e Fragata de Morais produziram obras representativas das vertentes insólitas da literatura angolana.

Bibliografia:

CARPENTIER, Alejo. O reino deste mundo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

            CHAVES, Rita, MACÊDO, Tania & MATA, Inocência.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

GARCIA, Flavio (Org.). A banalização do insólito: questões de gênero literário – mecanismos de construção narrativa. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2007.

MORAIS, Fragata de. Batuque mukongo. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2011.

O fantástico na prosa angolana. Luanda: Mayamba, 2010.

A sonhar se fez verdade. Luanda: Inic, 2003.

 A prece dos mal amados. Porto: Campos das letras, 2005.

Momento de ilusão. Luanda: Chá de Caxinde, 2000.

Jindunguices. Luanda: Inald, 1999.

Como iam as velhas saber. Luanda: Inald, s.d..

A seiva. Luanda: Inald, s.d..

Amor de perdição. Luanda: Chá de Caxinde, s.d..

18 – RODRIGUES, Tailane. In: GARCIA, Flavio (Org.) A banalização do insólito: questões de gênero literário – mecanismos de construção narrativa. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2007.

19 – TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2004.

20 – ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: EDUC, 2000.

 

 

 

 

 

 

           

 

 

 

 

 

 

          

 

SUMAÚMA





Óbitos
 
 
O olho do viandante
é rápido
não tanto
quanto os passos
gravados
pela peçonha
 
 
na cobra
o morto dança
sortilégios tribais
 
noites de óbito
 

sábado, 18 de janeiro de 2014

MEMÓRIAS DA ILHA-Crónicas


 
 
AMORES

 Os subordinados há muito que o aguardavam, impacientes, às vezes até barulhentos. Sempre atrasado, talvez pensasse que quem não chega atrasado não é reconhecido.

Coisas da infância, quem sabe, talvez alguma rejeição pela qual todos pagavam.

A porta abriu-se e ele entrou, erecto e sorridente, como sempre. O silêncio desceu natural, enquanto todos se levantaram.

Bem, quase todos.

O Nandinho, como não ultrapassava o metro e quarenta, (precisos 140 centímetros, o bilhete de identidade estava lá para o comprovar),  permanecia sentado. De pé ou sentado ninguém o percebia, portanto...

O chefe, um general aposentado precocemente, com gesto magnânimo de mão, comandou as tropas, (as minhas tropas, como ele gostava de referir em reuniões restritas) para se sentarem.

- Estou com um ligeiro atraso...

Logo o Nandinho se levantou e, empertigado, falou:

- Não chegou atrasado, senhor Presidente Director Geral...

Faço aqui uma curta pausa pedagógica para dizer que era assim que o general precocemente reformado gostava de ser tratado. Presidente Director Geral. Por extenso e bem articulado, com todas as inflexões que o nome do cargo e a patente requeriam. Nada de PDG, como alguns livres-pensadores da Empresa, certamente que nunca teriam passado por um quartel,  ousaram fazer uma única vez. Isso de alta hierarquia ser tratada por PDG, PCA, DG, SG, não era para ele. Nos gabinetes militares nunca fora chamado por Gen, Gnrl ou qualquer outro mimo menos castrense.

Voltemos ao Nandinho que, esticado por hábito, a tentar alcançar inconscientemente pelo menos os 148 centímetros (a sola e os tacões do sapatos especiais elevavam-no aos 145), dizia:

- Não chegou atrasado, senhor Presidente Director Geral, nós é que chegámos adiantado.

A plateia, olhou pasmada para aquele gigante do lambe-botismo, aquele Zeus dos engraxates administrativos que se alcandorara ao posto de instrutor processual.  Para si talhado há pouco tempo, sob a sua mais atenta e providencial sugestão.

Com tanto despudor evidente, conseguia ser secretamente reverenciado por um ou outro dos colegas, com aquele inveja que se deve aos destemidos ou aos mais ousados que nós. Um desses admiradores, no caso admiradora, era a Teresa, uns dez centímetros mais alta, e que suspirava sempre que ele entrasse no departamento onde era contabilista. Como é sabido, é por aí que começam as instruções processuais, portanto não eram poucas as vezes que o Nandinho, a pretexto de verificar uma qualquer factura ou processo, colocava por lá o nariz, sempre olhando a Teresa de soslaio.

A Teresa, é uma versão amarela, aquele amarelo de mulata que nunca vai à praia, feminina e diminuta do King Kong. Mas tinha um coração de ouro e curioso. Quando o Nandinho se chegava com aquelas intimidades supostamente administrativas, fixava com interesse para as suas mãos extensas e suspirava, sonhadora. Seria verdade o que se afirma sobre os homens com mãos grandes? Em seguida olhava para o nariz dele e hesitava.

Mãos... não serão narizes?

Fosse o que fosse, o resultado seria o mesmo, até porque o proboscis do Nandinho era de igual notabilidade.

- É verdade, senhor Presidente Di-re-ctor Geral (teve o cuidado de sublinhar a palavra director, não fosse entender-se direitor e deitar tudo a perder junto ao Nandinho). Nós é que nos adiantámos.

E sem espaço para enleios, reafirmou a intervenção do Nandinho, só com mais veemência e a olhar di-re-cta-men-te para os seus olhos:

- Não chegou atrasado, senhor Presidente Director Geral, nós é que chegamos adiantado.

Todos viram o ruborizar agitado do Nandinho que, apanhado desprevenido por aquela declaração pública de amor, manteve-se de pé a olhar para a Teresa, envolto em só ele sabia o quê.

Quanto tempo teria passado?

Nunca o soube, mas foi ao quarto tossir rouco do senhor Presidente Director Geral, que os dois se sentaram, envergonhados mas com o coração em louca cavalgada pelas planícies escancaradas da emoção.

Em breve, de papel passado e com o senhor Presidente Di-re-ctor Geral a servir de padrinho, a Teresa iria desvendar aquela dúvida sobre as manápulas dos homens. Ou seria dos narizes?...

 

In Memórias da Ilha

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

ADIVINHAS ANGOLANAS

 
 
ADIVINHAS ANGOLANAS
 
Pergunta:
O pai fez uma casa com andar. Ninguém lá pode subir, a não ser ele próprio?
(Chi banga chi tunga tata. Muntu mká podi maka kó, na veka toka?) Kikongo
Resposta:
A galinha a chocar os ovos
(Nsussu u butumina ma chió)
 Pergunta:
Fui para terra estranha, e nela me cumprimentaram (que é)
(Ndale  k’ukombe, vanamela (vandilamela) k’ofeka? Umbundu
Resposta:
É o galo (que cantou como a saudar)
(Ekondombolo!

O FANTÁSTICO NA PROSA ANGOLANA

 
 
ISAQUIEL CORY

O ÚLTIMO FEITICEIRO

 Quem for a Catete, via Luanda, há-de encontrar, nos arredores de Mazozo, bem junto à dita estrada nova, em contraposição à outra, velha, inteiramente abandonada ao capim e aos passos infatigáveis dos camponeses locais, um embondeiro outrora majestoso, caído, derrotado pelas forças humanas da destruição. Foi a partir daí, dessa paragem que o povo chama do “Embondeiro Caído”, que fui vencendo o longo percurso ravinado até à sanzala que viu os meus pais nascerem.

Ao longo do caminho seco e pedregoso, inadvertidamente, fui espantando os animaiszinhos que se banhavam de sol.

Com as costas húmidas e encurvadas de cansaço e os olhos semicerrados parei, finalmente, diante de Mazozo. As primeiras casas, de pau a pique, estavam espalhadas, separadas umas das outras por largas extensos de terreno coberto de capim. Galinhas e respetivas crias andarilhavam de um lado para o outro, à cata de alimentos. As únicas criaturas humanas visíveis eram algumas crianças de tronco nu, descalças, que se moviam com extrema lentidão.

Se em Luanda já notara uma certa lentidão no jeito como a vida se desenrolava, comparativamente a Londres, agora em Mazozo esse “não ter pressa” de nada, essa maneira rotineira e lenta de viver, dava-me a impressão de estar diante de um écran gigante com as imagens a passarem em câmara lenta. Interroguei-me se um écran desses, colocado em Mazozo, causaria o mesmo efeito que numa cidade. Captaria, os telespectadores locais o tempo e o ritmo diferente das imagens? Se as suas vidas já eram lentas não lhes ficaria melhor as imagens em câmara lenta?

Por breves momentos as crianças olharam-me com muita curiosidade mas depois retornaram às suas lentas brincadeiras. Chamei uma delas, que se aproximou devagar.

- Tudo bem? Onde é que mora o velho Chico Maria?

- O feiticeiro? – A criança, dos seus nove anos, falava num tom próprio dos naturais de Catete e denotava no seu português um forte sotaque kimbundo.

- Sim – respondi.

Olhou-me com muita atenção da cabeça aos pés e apontou, relutantemente, para uma casa isolada das outras, ao lado de um embondeiro velho.

Chegara, enfim, ao meu destino. Algures aqui fora enterrado o cordão umbilical do meu pai e da minha mãe. Ainda não sabia como proceder mas estava pronto para a vingança. Jamais ficaria satisfeito enquanto o sangue dos meus pais não fosse derramado sobre a cabeça do assassino.

Desabotoei a camisa, por esta altura completamente ensopada de suor, e fui caminhando muito lentamente para o sítio que me fora indicado. Nenhum adulto na rua. A essa hora estavam todos nas lavras, teriam ficado apenas os doentes e outros incapazes já de caminhar e de trabalhar a terra. As casas eram de aspecto modesto, algumas quase a caírem de velhas. A pobreza e também o conformismo da população estavam patentes em toda a sanzala. Não se notava qualquer indício de alguma tentativa de melhorarem as condições materiais em que viviam. Longas décadas de vivência a poucos quilómetros da grande cidade e entretanto a ambição dos conterrâneos dos meus pais limitava-se a conseguir o suficiente para comer. Foi então que compreendi o fenómeno que era a emigração dos mazozenses para a capital: era a única saída para singrarem na vida. Os que permaneciam na terra natal talvez fossem os mais conformados, os de mentalidade mais conservadora, impregnada dos valores ancestrais.

A casa do feiticeiro tinha as paredes inclinadas para dentro, mal aguentando o peso do tecto de capim. As janelas eram pequenos buracos assimétricos e a porta estava coberta por uma velha chapa de tamborão de combustível. Um cão todo ossos assustou-se com a minha presença e refugiou-se, caminhando aos círculos, para os lados de um anexo que me pareceu ser a cozinha, denunciando assim a localização do seu dono.

O tio feiticeiro, sentado na kibaka (banco feito de tronco de madeira) , de olhos avermelhados, com um casaco cheio de furos a cobri-lo inteiramente, ao jeito de um cobertor, apesar do forte calor que fazia, tremia de frio.

Sentiu o barulho dos meus passos e levantou a cabeça. O seu olhar incidiu sobre mim como as luzes de um carro numa noite escura, cegando-me momentaneamente. Ligeiramente atordoado aproximei-me mais e com as mãos agarradas à cintura lancei-lhe, do alto, um olhar de desprezo e ódio. Ele desfez-se do sujo e roto casaco e abriu a boca, sorrindo de modo triunfante, ao mesmo tempo que exibia a sua boca desdentada. Não consegui conter-me.

- Tu, assassino dos meus pais, jamais descansarei enquanto não vir o teu sangue a jorrar como água de uma torneira avariada! – Gritei, metendo nas palavras toda a minha raiva, toda a minha frustração. O velho continuava a sorrir. Impulsionei-me rapidamente para a frente, desferi-lhe um pontapé na boca do estômago e preparava-me para o esmagar no solo quando reparei que mesmo assim ele continuava a sorrir.

- Um momento, meu filho, um momento. Escuta-me – suplicou, em voz baixa, acusando, de qualquer modo, o impacto do pontapé recebido. – Eu sei que me queres matar e não vou fazer nada para evitar isso. Sabias que desde há muitos anos não tenho desejado outra coisa senão deixar de respirar e juntar-me aos mortos? Achas que é de bom grado que retiro a vida às pessoas, algumas das quais até me saio muito queridas? Meu filho, tu não sabes nada. Podes matar-me, se assim quiseres.

- Não tentes enganar-me. Diz-me, o que é que aproveitaste com a morte dos meus pais, seu miserável?

- Meu filho, eu tenho uma história. Já tentei contá-la a muita gente, mas nunca alguém prestou-me atenção. Muita coisa está a passar-se aqui na nossa terra de Mazozo e ninguém está a ver. Há uma corrente de vida que nos liga aos antepassados mas que agora está a quebrar-se. Todos estão a ir-se embora para Luanda e estão a esquecer-se das maneiras do nosso viver, do viver que nos foi ensinado por os nossos país, e pelos pais dos nossos pais. Tenho ligação com todos os nossos chefes antigos, com todos os nossos grandes mortos. Foram eles que ordenaram e me deram o poder de matar os teus pais, e não só. Sem esse poder eu não seria nada.

Essas palavras encheram-me o peito e a cabeça. A minha ânsia de vingança não se abrandou mas senti uma vontade irresistível de o ouvir, de o interpelar.

- E em relação aos meus país o que foi que esses antepassados disseram? – Perguntei, mostrando a minha curiosidade sem o desejar.

- Os teus pais e outras pessoas que na sua juventude partiram daqui e instalarem-se em Luanda são traidores. Renunciaram e traíram a sua origem. Bastou viver em Luanda para logo a seguir acharem-nos atrasados. Vinham para aqui e sentiam pena de nós. Esqueciam-se que o nosso viver é mesmo assim e que satisfazemo-nos com o pouco que temos. Os teus pais, porque conseguiram ganhar muito dinheiro, queriam mudar a terra dos nossos antepassados. Queriam trazer para aqui máquinas, tratores, motobombas. Criam matar-nos. Eu não tenho dinheiro, nem quero ter, basta-me o poder sobre a vida e a morte das pessoas.

- Digas o que disseres serás sempre um assassino, nada justifica a morte dos meus pais – gritei, pois era já incapaz de falar sem ser aos gritos. – Agora eu tenho o poder sobre a tua vida e vais morrer nas minhas mãos!

- Há, há, há! – Riu o maldito feiticeiro, despejando o seu bafo repugnante sobre o meu rosto – criança, isso é o que és! Tu só matas-me se eu quiser. Vou dar-te uma amostra do meu poder. Veja!

Não sei concretamente o que ele fez. Só sei que vi o meu pai e a minha mãe a virem a pé, carregando uma enxada e um kubutu (trouxa) nas costas, no caminho que rasgava o capim seco em direcção às lavras. Corri precipitadamente, chamando-os aos berros:

- Pai! Mãe!

Eles viram-me e pararam. Apressei-me a abraçá-los mas em vez de agarrar a massa dos seus corpos, abracei apenas o vento. Eles também abriram os seus braços generosos, tentando corresponder ao meu gesto, todavia eles também não me sentiam. Em vão insistimos, até que por fim ficámos a olharmo-nos uns aos outros, tristes, como se estivéssemos separados pela janela envidraçada de uma cela. Sim, de facto estávamos separados. Eles estavam mortos e eu estava vivo. Ou seria o contrário? Ou eles é que estariam vivos? Não interessava saber já, era uma questão de somenos importância. As lágrimas misturaram-se com o suor no meu rosto e verifiquei que os meus pais, lá do outro lado, do lado do não sei o que, também choravam. Prisioneiros de um poder que desconhecíamos, estávamos incapazes de comunicarmo-nos e isso era uma tortura. Estávamos condenados a olharmo-nos e a suscitarmos em nós a saudade dos tempos em que de facto estávamos juntos, em que podíamos tocar-nos, apalpar-nos, beijar-nos. Sem conseguir aguentar mais o peso de tanta saudade dei as costas aos meus pais e vi o meu tio, o meu maldito tio, a olhar para mim com os seus olhos avermelhados e agora rigorosamente inexpressivos. Girei rapidamente sobre mim mesmo e já não vi sinais da presença dos meus pais.

.- Viste, meu filho! Foi uma pequena amostra do meu poder. E como já não consigo suportar a tua presença, vou levar-te a Luanda. Conforma-te com a morte dos teus pais, deixa as coisas tal como estão. Venha.

Eu parecia um drogado. Tudo acontecia á minha volta mas eu estava alheado de tudo. Vim-me arrastado para o fundo do quintal e o feiticeiro enfiou-me numa velha canoa. No estado em que me encontrava não me perguntei sequer o que estaria a fazer aí uma canoa, tão longe do mar ou de um rio. O velho também subiu na canoa, segurou em dois remos e foi remando. Não tardou e ganhámos altura. Afinal a canoa era uma espécie de avião. Era através dela que ele ía às localidades distantes para cumprir o seu destino. O seu destino de feiticeiro, de suposto guardião da ordem preconizada pelos ancestrais. As nuvens estavam lá em baixo, o ar escasseava e involuntariamente eu respirava fundo. Passados alguns minutos divisei, ao longe, os altos edifícios da cidade. A canoa foi voando cada vez mais baixo e passávamos mesmo à beira das janelas de alguns escritórios, com um ou outro funcionário a olhar para nós com olhares perfeitamente normais, o que me deixou espantado: a visão de uma canoa voadora, de tão incomum, seria motivo suficiente para despertar curiosidade geral em qualquer parte do mundo. Só então dei-me conta da possibilidade de estarmos invisíveis.

A canoa pousou suavemente no quintal da minha casa e o que se seguiu já não me vem à memória. Sei apenas que despertei no meu quarto, na minha cama, vestido e calçado.

Dei um último safanão ao sono e fui a correr para a sala. A Marisa estava a ver um filme e assustou-se com a minha súbita presença.

- Oh, mano, que susto! Ontem esperei-te todo o dia e quase toda a noite. Como foi o encontro com o Chico Maria?

Tinha de descontrair-me, de mostrar normalidade: tinha o dever de não transformar também a vida da minha irmã num pesadelo, mais do que já o era, pondo-a ao corrente das coisas que eu próprio não compreendia inteiramente o sentido.

- Resolvi o problema, mana. O Chico Maria já não vai meter-se na nossa vida. Olhemos para a frente e organizemo-nos para gerir o pouco que ainda temos. Não há outra solução.

Sentei-me, fatigado, no cadeirão. Apesar de todas as evidências em contrário, queria pensar que tudo que acabara de acontecer não passara de um sonho, de um pesadelo. Apesar de todo o meu esforço eu tinha certeza que a imagem do meu tio haveria de visitar-me sempre e que de agora em diante eu não saberia mais o que é a vida e o que é a morte.

De outra coisa. Com uma veemência inquestionável, e incomodativa, eu ganhei a certeza: o tio Chico Maria pertencia a uma raça de feiticeiros em extinção, ele era, só podia ser, o último representante de uma casta de feiticeiros que bebiam do mais puro sopro da madrugada, alimentavam-se da emanações telúricas e conheciam o lugar exacto onde principiam as coisas.

In O Último Feiticeiro, Editor Chá de Caxinde, 2003

 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

FELIZES FESTAS

A todos(as) os meus(minhas) amigos(as), seguidores e curiosos (no bom sentido da curiosidade), formulo votos de Felizes Festas, com um Ano Novo muito Próspero junto aos entes que vos são queridos. Muita Paz e Amor.