terça-feira, 23 de junho de 2009

"CARTAS" IN JINDUNGUICES



CARTAS

Minha Genoveva,

Senta-te para que não caias de surpresa, já que é a primeira vez que nos falamos e poder-te-á ser, ou não, agradável o que vou contar.
Quando o meu bisavô foi para as Áfricas, já lá vão precisamente 98 anos, certamente ninguém pensou na sua aldeia que voltasse, mas foi o que fez, como talvez saibas. Deixou aí filhos com uma lavadeira negra, um deles o teu avô, de nome Miguel Gomes, só isso é que sei. Parece que vivia em Benguela e o teu pai ou a tua mãe, cujos nomes não conheço, se ainda forem vivos, por certo saberão confirmar o que digo. Sou, pois, tua prima afastada, sendo o nosso bisavô o mesmo, já que ele aqui tornou a fazer filhos, tendo-se casado com a minha bisavó, D. Engrácia Gomes.
Fique muito feliz quando recebi do consulado português em Luanda a indagação se por acaso um tal José Armando Gomes seria aquele que estivera em Angola de 1900 a 1930 e cujo assento de baptismo de um filho, Miguel Gomes, constava na paróquia do Carmo em Luanda. Acho que terás sido tu a inquirir, pois foi esse o endereço que me foi fornecido.
O resto, é este primeiro contacto. Manda-nos fotografias tuas e da família, explicando tudo muito bem, quem são e como estão.
O retracto que anexo, é do Augusto, meu marido, eu e o nosso filho Tobias, tirado no jardim zoológico o ano passado, quando fomos a Lisboa de férias. Por acaso tirada ao lado dos elefantes, quando ainda não sabíamos que tínhamos parentes em África, vê lá.
Tua prima que te adorará conhecer um dia.
Ana Rita
P.S. Que cor és?...

Mário Maldonado ao chegar a casa, encontrou a carta aberta em cima da mesa na sala de jantar. Certamente que a mulher aí a tinha deixado para que ele a lesse. Momentos depois, quando esta saiu do quarto, jocoso, perguntou, à guisa de cumprimento:
“Então foste descobrir uns pulas teus parentes na meloi?”
De facto assim fora. Genoveva descobrira uns documentos guardados em um embrulho de papel castanho meio comido pelas traças, numa mala com coisas que tinham pertencido a sua mãe, que davam a entender que talvez pudessem ser de seus familiares. Sem dizer nada ao marido consultara os registos da igreja e contactara o consulado português em Luanda, que se prontificou a averiguar.
“Que mal há, são parentes e devemos conhecer as nossas origens.”
“Vem mesmo a calhar, para o ano vamos lá passar férias.”
“Achas que vão querer ter na terrinha, uns pretos como parentes?”
“Será por isso que perguntam qual a tua cor?”
“Penso que não, deverá só ser curiosidade. Conhecem que o bisavô fez filhos com a lavadeira minha bisavó, portanto pensam que no mínimo mulatos devem existir.”
“Lá isso é verdade.”
“Envia-lhe umas fotografias e logo verás... “
“Se a minha mãe estivesse viva, iria ficar bem contente. Ela sempre nos disse que tínhamos sangue de branco”
“Por acaso recordo-me da tua mãe, era negra mas notavam-se-lhe os traços europeus. Mas o que vamos fazer?”, perguntou-lhe.
Genoveva Maldonado parou para pensar. O lógico seria responder e dar tempo ao tempo. Aguardar que uma amizade se formasse, ou que a curiosidade soçobrasse no mar de esquecimento que a distância produz.
Ardia por saber mais daqueles primos distantes, em lonjura e parentesco. Ter tido conhecimento que tinha família para além da conhecida, e em outras partes do mundo, fora uma agradável experiência. Eram raízes dum tronco comum que se revelavam abruptamente, um passado que emergia e a incorporava.
“Creio que vou-lhes responder e aguardar, nada mais posso fazer. E um dia, quem sabe, talvez me convidem a visitá-los.”
“Nos convidem!...”, emendou o marido.
Com a felicidade da primeira carta, na manhã seguinte respondeu à prima.

Querida Ana Rita
Fiquei muito feliz em receber a tua carta, não só porque foi uma surpresa como igualmente revelou familiares que nunca sonhei ter, não obstante minha mãe me falar de um avô mulato, seu pai, portanto. Meu avô chamou-se em vida Abílio José Gomes e casou-se com uma senhora negra, Celestina. Geraram vários filhos, entre eles a minha mãe, Francisca Gomes, que por sua vez se casou com um outro senhor negro, António Nóbrega da Silva, que me fizeram a mim, esta tua prima Genovena Silva Maldonado, (o último nome por casamento) e mais dois irmãos, todos vivos.
Ficas, assim, a saber do ramo africano da família gerada por nosso bisavô, pelo menos no meu lado.
Estou um pouco atrapalhada por não te conhecer e, portanto, não saber o que te dizer. Quanto ao nosso país, certamente sabes de tudo, ou quase. Há anos que nos guerreamos e destruímos, sobretudo por causa de um lunático que teve que nascer nesta nossa terra maravilhosa, para mal de todos nós.
Quando desejares vir até Angola, tens aqui casa. Por ora é tudo. Oh!, quase me esquecia, a fotografia é minha, com o meu marido. Não é muito recente mas ainda estamos assim, talvez um pouco mais magros. Tua prima. Escreve!
Genoveva

Dois meses passaram e Genoveva nada mais ouviu de Ana Rita, facto aproveitado pelo marido para a espicaçar.
“Eu bem te dizia, logo que souberam que havia negros na família...”
“Pode ser, mas duvido. Sabiam que os havia, pelo menos a bisavó.”
“Certo, mas a confirmação de uma hipótese mudou tudo. Olha, o teu avô poderia ter casado com uma branca ou mulata.”
“O que interessa tudo isso?”
Ana Rita dirigiu-se à varanda para estender a roupa lavada da véspera. À noite houvera luz, as sagradas oito horas distribuídas ao bairro. Esta manhã tê-la-iam até ao meio dia e, depois, tornaria a voltar a partir da meia-noite. A campainha da porta soou e Mário abriu. Era o carteiro a entregar a correspondência, entre a qual, uma carta de Portugal.
“Véva”, gritou ele para a varanda. “Tens aqui uma carta da tua prima portuguesa!”
Genoveva veio a correr e não conseguiu conter a excitação. Quase arrancou a carta da mão do marido e, nervosa abriu o envelope. Sentou-se na cadeira e leu alto.

Genoveva minha querida,
Recebi a tua carta que muito me alegrou, foi uma sensação cá em casa. O Augusto, que sempre foi do PCP e nunca esteve em África, ficou radiante. Claro que isso serviu para mais um sermão sobre o passado do colonial-fascismo e o apoio dos capitalistas do PSD às tendências neocoloniais em Angola, etc, etc. Eu também sou do PCP, mas às vezes o Augusto chateia-me com as conversas dele. Se não é o partido, então é o Benfica.
Já todo o bairro sabe que temos família em África, angolanos genuínos, como ele repete por tudo quanto é canto. Foi muito gentil de vossa parte porem a casa à nossa disposição, quem sabe se um dia não teremos essa alegria de aí ir, embora duvide muito. Não temos posses e a viagem custa bastante.
Segundo consta aqui em Portugal, vocês é que são um país muito rico e há por aí um monte de carros novos, dizem que todos têm um e que os angolanos viajam muito. Alguém contou-nos que em vez de dentes de ouro, vocês usam dentes de diamantes e que o petróleo até escorre nos bairros de Luanda. Se isso for verdade, então certamente será muito mais fácil vocês virem cá. A nossa casa é pequena mas sempre se arranja um espaço.
O Augusto pede-me para te perguntar que regime político têm agora? Sabíamos que eram comunistas, porque o Dr. Agostinho Neto foi retirado da cadeia pelo nosso Partido.
Mas desde a nova situação mundial, diz-se por aqui que são cristão democratas. Ele jura a pés juntos que isso é mentira, nunca fariam uma coisa dessas, sim senhor que poderiam ter mudado mas não tanto assim, já que fizeram uma luta de libertação nacional contra um sistema que oprimia as massas. E aí há o Benfica? Também para o que está a jogar, se não houver não faz falta nenhuma! Desculpa lá, mas nas minhas cartas irás sempre encontrar um pouco de política e futebol.
Talvez tenhas orgulho em saber que esse nosso bisavô foi um garanhão, pois com a minha bisavó, fez ainda cinco filhos. Por hoje é tudo. Cumprimentos ao Mário.
Tua Ana Rita

“Com que então angolanos genuínos, heim?”, riu Mário Maldonado.
“Mal sabem eles o que isso aqui quer dizer!...”, riu Genoveva igualmente.
“Agora que descobriste parentes brancos lá se foi a tua genuinidade, passas a ser extra angolana.” provocou-a.
“Muito me preocupa! Olha para o Hitler e os seus genuínos. Isso são teses de atrasados mentais, mentecaptos.”
“Eh lá!... o problema não é teu, não vale a pena exaltares-te.”
“Já sabes que me aborreces quando me provocas com esse tipo de argumento.”
“Tá bom, tá bom, não vale a pena guerrearmo-nos por causa disso.
“E que tal essa de sermos cristãos-democratas?”..., riu Mário.
“Eu cá disso não quero saber, já me bastaram os anos do PT, embora, em abono da verdade, estivéssemos muito melhor do que agora.”, respondeu a esposa.
“Cinco filhos, é?!... faço ideia a cambada de primos que por lá deves ter, alguns até talvez aqui sem ninguém saber.”
“E se lhe mandássemos um PTA para ela vir?”
Dias após, escreveu à prima.

Querida Ana Rita,
Sou novamente a agradecer-te a carta recebida há tempos. É sempre uma alegria ter notícias tuas e dos teus. Nós bem graças a Deus.
Então vocês são comunas? Eu e o meu marido não somos nada, na época do partido único tínhamos que ser do MPLA, até votamos nele e no presidente, mas hoje, se queres que te seja franca, não somos nada, incluso duvido muito que nos próximos vinte anos tenhamos eleições. Tudo aqui vai de mal a pior, cada vez mais pobreza, não é nada aquela riqueza que por aí se fala, isso é para muito poucos. Dentes de diamantes?!... A miséria aumenta a olhos vistos e, por consequência, a criminalidade, a prostituição infantil, os deslocados, os mutilados, enfim um horror de nunca mais acaba, para além desse criminoso que não pára de fazer a guerra porque sonhou ser presidente a todo o custo. Puxa, e não há quem acabe com essa peste!
Quanto ao sermos cristãos democratas, olha, estou fora da política, só sei que houve mudanças quando a União Soviética faleceu, mas os que lá estavam antes continuam a ser quase todos os mesmos. Julga por ti própria, não me quero aborrecer com essas coisas, até porque tenho um projecto que está quase a arrancar, à custa de muitos anos de sacrifícios e negócios.
Podes falar de política e futebol à vontade, ambos são jogados muito com os pés e pouco com a cabeça.
Eu e o Mário vamos abrir um pequeno restaurante na Ilha. A Ilha de Cabo é uma extensa língua de areia ligada ao continente por uma ponte, e um ponto de turismo e recreação luandense. Será um restaurante especializado em pratos típicos angolanos e, talvez mais tarde, em de outros países africanos.
Estamos seriamente a pensar em convidar-te a vires passar uma temporada connosco, infelizmente não temos kitadi (dinheiro) para vos convidar aos dois, mas talvez só lá para o fim do ano. Depois confirmamos, mas vai-te preparando psicologicamente, isto aqui é muito quente, com mosquitos e moscas mil..
Quanto ao Benfica, em Angola não existe mas muita gente continua a ser dele, por incrível que te possa parecer. Até o meu marido!
Tua Genoveva.

Quando Mário Maldonado regressou a casa para o almoço, encontrou a mulher em prantos e rodeada por umas tantas vizinhas. Ao vê-lo, desatou aos gritos.
“Meu Deus, quem morreu?”, inquiriu apavorado.
“Calma vizinho, ninguém morreu.”, tranquilizou-o uma das mulheres presentes.
Mais aliviado, suspirou fundo e recompôs-se, já com Genoveva agarrada a ele aos soluços.
“Assaltaram-me e roubaram-me o carro.”
“Acalma-te filha. O carro recupera-se, o principal é que não te aconteceu nada.”
“Dois homens, um com uma pistola. Nunca tive tanto medo na minha vida.”
“Já deste participação à polícia?”
“Deves estar a brincar, felizmente que o Antunes passou e deu-me uma boleia para casa.”
“Então compõe-te para lá irmos.”
Foram à polícia e deram participação do roubo, sem grandes esperanças na recuperação da viatura.
Três semanas após este incidente, Genoveva recebeu nova carta da prima.

Querida Genovena,
Espero que não estejas a brincar quando dizes que me convidam a ir a Angola. Quase que morri de emoção porque, salvo uma muito breve ida a Espanha, numa excursão do Partido, não conheço mais país nenhum. Esse acontecimento, a ter lugar, certamente que será o maior da minha vida e relembrado para sempre.
Olha, o idiota do Augusto agora só diz kitadi em vez de dinheiro. Fartaram-se de rir, chamando-o de parvo, porque esse kitadi não vale nada. É verdade? Disseram-lhe que vocês são todos milionários, porque nada se compra com uma nota de um milhão. Claro que não acreditei, como se isso fosse possível! Qual é o país que tem notas de um milhão?
Ficámos muito felizes por saber que vão abrir um restaurante de pratos típicos do vosso país. Nós nunca comemos nada de Angola. Será que dá para mandares uma receita de um prato que se possa fazer com facilidade? Nada dos muito complicados, tá?
Então deixaram de ser comunista e dizes que não sabes o que são? E que continuam os mesmos que já lá estavam? Francamente, não entendo nada!
No nosso PCP a única coisa que mudou foi o camarada Álvaro Cunhal por ter que se reformar, temos agora o camarada Carlos Carvalhas, mas o Partido continua a ser o mesmo, a nossa bandeira contínua a ter a foice e o martelo e a ser vermelha, os nossos estatutos e objectivos os de sempre. Mas enfim, o mundo muda e esse assunto é vosso.
Hoje estou fraca de notícias, por isso fico por aqui.
Tua, como sempre, Ana Rita.

O tempo passou e Genoveva foi-se habituando ao facto de não mais ter viatura. Descria que alguma vez a recuperasse, ou se tal acontecesse, certamente que metade das peças teriam sido roubadas. O marido prometera que em breve comprariam outra, em segunda mão. Quanto mais velha, menos probabilidades de ser roubada.
O fosso da distância que separava as primas foi encurtado com a troca consistente de correspondência, iam-se conhecendo aos poucos. Na última, Ana Rita solicitava mais uma vez que Genoveva lhe enviasse uma receita de um prato angolano.
Esta nunca lhe falara do roubo do carro, não desejara projectar essa imagem do país, onde se roubam carros à mão armada como quem troca de camisa.

Querida prima,
Há algum tempo que não te escrevo, são preocupações da nossa vida que o impediram, mas nada de sério. Estou em falta para contigo, de facto já deveria ter-te enviado a receita de um prato nosso, se queres que te diga, nem sei de quê. Como aí é fácil adquirir carapau, vou-te ensinar um prato típico luandense. É o mufete, que às vezes comemos com feijão de óleo de palma, outras com pirão.
Arranja uns carapaus, segundo o número de pessoas, e farinha de mandioca torrada. Aí talvez encontres a brasileira, mais fina e de menor qualidade que a nossa. A essa farinha, nós chamamos farinha musseque, sendo o musseque a terra batida e encarnada africana. Foi nessas terras, portanto não asfaltadas, que a colonização criou os bairros periféricos dos negros, e daí esses bairros passaram a chamar-se, por extensão, musseques (este parênteses é para o Augusto)
Também precisarás de cebola, tomate, azeite doce, vinagre, jindungo (piri-piri), sal e água.
Lava o peixe e coloca-o a secar, sem ser escamado ou retiradas as vísceras (faço ideia da cara que deves estar a fazer, mas acredita que dá melhor gosto). Deves assá-lo em poucas brasas, para ser lento e sem ser queimado. Vais voltando os lados a fim de que fique assado homogeneamente. Quando estiver pronto retira das brasas e serve quente, colocando só então o sal. Faz acompanhar com pirão, bastante fácil de preparar.
Enquanto o peixe é assado, pica a cebola e coloca-a numa tigela com os outros ingredientes, salvo a farinha musseque, que é adicionada aos poucos e com cuidado para que não fique molhada, mas sim leve e solta. Bom apetite.
Espero que te saia bem a experiência, se não gostares, não desanimes.
Para tua informação, já que aí em casa se deve ter passado a mesma coisa, o meu marido teve um ataque de nervos quando o Benfica perdeu com o Farense, o lanterna vermelha do vosso campeonato. Essa noite não dormi e acredita que isso eu não entendo. Primeiro, porque não ligo nenhuma ao futebol, segundo, porque não entendo como é que alguém pode sofrer por um clube que nem é da terra dele, mas como se diz, cada maluco com sua mania. Eu que aguente.
Tua prima que muito te preza.
Genoveva

O dia amanhecera solarento mas abafado e a ameaçar chuva. Genoveva encontrava-se em casa quando o carteiro trouxe a correspondência, uma única carta, com o carimbo de Luanda. Sentou-se à mesa, sorveu o chá que tomava e, com a faca, abriu o subscrito. Retirou a carta e leu, no fim largando uma enorme gargalha. Partiu a correr para o telefone.
“És tu, Maldonado? Não acreditarás no que te vou contar!...”
“O que foi?”
“Vou ler-te uma carta que recebemos esta manhã.”
“Outra carta da Ana Rita?”
“Não, dá bem atenção.”
“Diz lá...”
“Vou ler!... Meus caros, sou muito vosso amigo e por gostar muito de vocês é que vos tirei o carro, porque se vos pedisse, não nos dariam.
“Estás a brincar!...”, cortou o marido.
“Deixa-me acabar. Arranjei a avaria no disco da embraiagem e meti novos faróis . O carro encontra-se neste momento à frente da escola Nzinga Mbandi”
“Certamente que é brincadeira, já lá foste?”
“Claro que não.”
“Estou a caminho, prepara-te.”
“Aguenta aí, isso não é tudo. Diz ainda: quero desculpar-me de todos os problemas e do susto que vos preguei, por isso, no dia 23 convido-vos a vir jantar comigo, às 20.30, no Ponto Final, onde desejo redimir-me do pecado, contando com o vosso sentido de humor.”
Feliz ficou o casal ao chegar à escola Nzinga Mbandi e ver estacionado o seu carro. Genoveva, que o conduzia no regresso, verificou que de facto a embraiagem estava reparada, para além dos novos faróis. Nessa noite caprichou no jantar, até velas colocou na mesa e um arranjo floral.
“Quem será o engraçado, ou os engraçados?”, perguntou Maldonado.
“Passei o dia inteiro a pensar nisso... nossos amigos ou conhecidos, terão que ser.”, disse Genoveva.
“De qualquer dos modos mesmo com as reparações, é uma partida de mau gosto...”
“Hoje são dezoito, não é? No dia 23 logo saberemos quem são, e então veremos o que faremos.”
“E vamos mesmo ao tal jantar?”, quis saber Maldonado.
“E porque não?”, respondeu Genoveva.
E ao jantar foram. Chegaram quinze minutos mais tarde para não parecer mal e esperavam há meia hora, quando mandaram chamar o gerente. Apareceu o dono do restaurante e confirmou que sim, um senhor havia reservado por telefone aquela mesa para eles, eram o casal Maldonado, não eram?, e que caso se atrasasse lhes oferecesse uma garrafa de champanhe pelo incómodo da espera, mas que vinha certamente.
Às dez horas quando decidiram ir-se embora, com um problema dos diabos, pois o restaurante queria saber quem iria cobrir a garrafa de champanhe bebida. Por fim chegaram a um acordo, em que Maldonado prontificou-se a pagar meia garrafa, pois, segundo o dono, quem sabe se aquilo não era uma tramóia para lhe mamarem uma garrafa de champanhe, sendo cúmplices de quem telefonara?
Ao longo do caminho, mal falaram e todas as dúvidas que tinham sobre o brincalhão se esvaneceram. Se o apanhassem, fariam dele carne picada.
Subiram em silêncio e quando Genoveva abriu a porta do apartamento e olhou para dentro, caiu desmaiada.
Nem uma carpete restara!
O apartamento tinha sido esvaziado de tudo que continha, excepto a papelada que jazia amontoada no chão.
Maldonado olhou à volta, descrente, e deixou os olhos pousar no amontoado de papeis, no cimo do qual jazia uma carta aberta.

“Querida Genovena.
Espero que não estejas a brincar quando dizes que me convidam a ir a Angola.”, começou, distraído, a ler.

O IMAGINÁRIO NO TEXTO ANGOLANO (No Prelo)

Quando me veio a ideia de elaborar a presente antologia, de imediato se me colocou a grandeza e delicadeza da tarefa face à vasta gama de escritores nacionais, e sobre o que eu poderia antever como imaginário, fantástico, real e ou irreal, entre muitas outras perspectivas, numa sociedade em que as fronteiras entre o mundo visível e aquele invisivel sempre estiveram tão intimamente ligadas.

Face à oralidade das sociedades africanas, da qual Angola não teria como escapar, este universo de ambiguidade não poderia deixar de ter residência visível nas diversas obras dos escritores angolanos que, ao longo dos séculos XIX e XX, foram férteis na produção de textos em que diversos mundos se interligavam com acontecimentos estranhos, acontecimentos que com muita frequência fugiam ao entendimento de serem ou não reais perante a percepção do aceitável e ou do credivel.

Óscar Ribas, um dos mais conceituados nomes da etnografia nacional, nascido em 1909 e já falecido, autor de vasta obra em que recolheu a extremamente valiosa literatura oral africana na zona de Luanda, afirmara que os contos ordinariamente reflectem aspectos da vida real. Neles figuram as mais variadas personagens: homens, animais, monstros, divindades, almas. Se por vezes, a acção decorre entre elementos da mesma espécie, outras no entanto desenrolam-se misteriosamnete, numa participação de seres diferentes.

Confrontei-me, deste modo, com a questão do fantástico, algo que não pode ser explicado via racionalidade, e com as possibilidades do verosimil versus o inverosimil, o real e o sonho, o natural e o sobrenatural. O que procurar, o que e como inserir? Seria o fantástico, o estranho, o maravilhoso e a fantasia contidos na panóplia de obras de escritores angolanos a mesma coisa? Quedar-me-ia unicamente com o texto, vamos chamá-lo por contraposição adulto, ou igualmente com o tradicional, o juvenil e o infantil? Na oralidade africana, contar, o sunguilar, é parte intrinseca da vida. É às noites, sob o agasalhar dos fogos, que as tradições, os usos e costumes são propagados de geração em geração, através dos contos, das estórias, das adivinhas, dos provérbios. Contar, relatar, gravar na memória colectiva é uma das acções mais antigas da história da humanidade, reflectidas em testemunho nas grutas espalhadas pelo mundo inteiro.

Acho que me preocupei mais com os aspectos do estranho, do maravilhoso, talvez mesmo até do insólito, na recolha que levei a cabo, deixando o fantástico maioritariamente para a literatura tradicional e para a literartura infantil, narrativas em que o narrador ou o escritor mais se preocupa com a mensagem, com a valorização moral e com um fim que transmita uma postura considerada de funcional na sociedade.

Tzvetan Todorov, um filosófo e linguista búlgaro desde 1963 a viver em Paris, no seu livro “Introdução à Literatura Fantástica”, estabelece normas a respeito do fantástico na literatura, diferenciando entre o fantástico, o estranho e o maravilhoso. Segundo ele, em um mundo que é o nosso, que conhecemos (infira-se ocidental e moderno), sem diabos, sílfides, nem vampiros se produz um acontecimento impossível de explicar pelas leis desse mesmo mundo familiar. Quem percebe o acontecimento deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto de imaginação, e as leis do mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte integrante da realidade, e então essa realidade está regida por leis que desconhecemos… O fantástico ocupa o tempo dessa incerteza. Assim que se escolhe uma das duas respostas, deixa-se o terreno do fantástico para entrar em um género vizinho: o estranho ou o maravilhoso. O fantástico é a vacilação experimentada por um ser que não conhece mais as leis naturais, frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural.

Não irei referir nesta apresentação o que me levou a incluir um e não outro escritor, até porque a linha divisória não me permitiu estabelecer fronteiras entre o estranho, o maravilhoso sempre existindo um subgénero transitivo entre eles. Segundo Todorov, seja como for,não é possível excluir de uma análise do fantástico, o maravilhoso e o estranho, géneros aos quais se sobrepõe. Acho que os contos e os excertos de textos mais largos que me serviram de base, englobam-se largamente no objectivo a que me propuz.

Fragata de Morais

Coordenador


A PRECE DOS MAL AMADOS - IN SEMANÁRIO AGORA


Das mãos do director do Semanário AGORA recebi o exemplar autografado do excelente livro "A Prece dos Mal Ama­dos", com a incumbência de o comentar nesta página, tendo-me eu comprometido em fazê-lo na edição que antecedeu o seu lançamento, que teve lugar no dia 17/08/ 2006, sob os auspícios da Associação e Editora Chá de Caxinde. Agradeço, de todo o coração, a deferência dispensada à minha pessoa. Da minha parte, tratou-se infelizmente de uma promessa feita de ânimo leve; e só quando - após um amá­vel telefonema do escritor Jacques dos Santos, dando-me a conhecer a temática da obra em apreço, aliás muito do meu agrado abordar, como toda a gente sabe e é verdade, - tomei consciência de que me seria inteiramente impossível honrar o compromisso, em tão curto espaço de tempo. Precisava de, pelo menos, 1-2 me­ses para fazer a apreciação literária que me era pedida, considerando por um lado que me encontrava em vésperas das pro­vas ou exames de frequência e, por ou­tro e sobretudo, porque um livro de 343 páginas, como é "A Prece dos Mal Ama­dos" de Fragata de Morais, ainda que ro­mance, não se analisa nem comenta "so­bre o joelho". Ou seja, requer necessaria­mente uma prévia e pausada leitura gótica, atenta e cuidadosamente anotada, tais são a dimensão e os contornos polí­tico-filosóficos, sociológicos e sociais das teses subjacentes ao seu enredo e con­teúdo. Na verdade, está-se perante ques­tões abordadas de forma muito corajosa e frontal, em tomo da problemática da "mestiçagem ou, mais especificamente ­como refere na sua apreciação o Profes­sor Doutor Carlos Venâncio – a do lugar do mestiço (ideológico) na sociedade an­golana em transição". Transição, de quê e para quê? Nos perguntamos desde logo!

Todos sabemos, perfeitamente, quan­to a este respeito se afastou e distanciou a política do Estado angolano indepen­dente, daquilo que seria - e ainda é - o mínimo ético ou de mera justiça, quando não foi só em 1975 e anos seguintes da guerra civil, que os mulatos/as e mestiços! deste país tiveram de entoar "preces de mal amados". Há dias, retorquiu assim um meu amigo de infância, camionista, quando numa conversa amena daquelas de "matar saudades" daqueles tempos, o informei, autocriticando-me do facto, de que estou há precisamente trinta anos sem voltar à Gabela e Porto Amboim. "Mas ir lá fazer o quê, Pinto? Do nosso tempo, já todos morreram e os descendentes, se ainda vivos, não estão lá, nem se sabe já quem são. Só te deparas com pessoas des­conhecidas, que ainda por cima olham para ti como se fosses estrangeiro!... “ (Ri­sos e gargalhadas) Vistos como estran­geiros, na sua própria tem!!! Para onde caminhamos, afinal?

Relevo: personagens principais e secundários do Romance

Nazamba, a heroína do roman­ce, uma bonita jovem mulata, filha de pai português, de raça branca, natural da Beira Alta, comerciante radicado em An­gola até 1975, e de mãe angolana, de ra­ça negra, filha de soba grande, natural do centro-sul do país, da aldeia de Ualali; 2.2 - Nataniel, jovem médico revolucio­nário, formado em Cuba entre 1975 e 1990, negro, general do exército angola­no, também natural de Ualali e neto do soba grande; 2.3 -Juba de Leão, octogenário soba grande de Ualali, avô paterno de Nazamba e de Nataniel; 2.4 - Balan­ta, uma das filhas do soba grande Juba de Leão e mãe da mulata Nazamba; 2.5 ­Marcelo, pai de Nazamba, comerciante branco estabelecido em Ualali, a quem Juba de Leão deu em casamento a filha Balanta, de cuja união nasceram quatro filhos mulatos, dois rapazes e duas rapa­rigas; 2.6 - Tomás, mulato, filho de Mar­celo e de Balanta, irmão mais novo de Nazamba, e general das forças militares da UNlTA, formado em Marrocos; 2.7 ­Comandante Pablo, general cubano, des­tacado em Angola em 1975 em missão revolucionária e internacionalista das for­ças armadas de Cuba; 2.8 - Nehone, ir­mão mais novo e assistente do soba gran­de Juba de Leão; 2.9 - Mestre Tuluka, grande adivinho e curandeiro de Ualali; 2.10 -Lucinda e Tadeu, casal amigo e compadres de Nataniel e Nazamba, resi­dentes em Luanda; 2.11-Padre Celesti­no, missionário católico da Missão de Ualali; 2.12 - Natália, linda enfermeira mulata e secretária do médico Nataniel, no Hospital Militar de Luanda; e 2.13 -Samukongo, o mensageiro enviado por Nehone a Luanda, para se encontrar com Nazamba na qualidade de escolhi­da pelos espíritos dos antepassados e pela assembleia de anciãos de Ualali, pa­ra suceder a Juba de Leão como soba grande da região.

Estrutura da obra. Caracterização e resumo do enredo/acção

Com 343 páginas, "A Prece dos Mal Amados" compõe-se de 11 capítulos ou partes, sugestivamente bem intituladas, a saber: 1 - O início do mundo; 2. - Os sem rumo; 3 - Os que vieram pelo mar afora; 4 - O fusco do espelho; 5 - A re­dondeza da vida; 6 - As preces dos mal amados; 7 - O voo sinuoso dos medos; 8 - O regresso impródigo; 9 - Espelhos da alma; 10 - Lágrimas e risos; e 11 ­Quando o rio desagua sobre a terra.

Cada um dos capítulos ou partes, tal como aliás é hoje uma prática corrente entre os escritores modernos de literatura de ficção (e não só), abre com uma cita­ção, um pensamento ilustre, provérbio ou adágio popular, a servir-lhe de mote ou suporte temático-literário, destacan­do-se entre os demais o provérbio kim­bundu "Ua-mu-mona mu luanha u - mu - ijiia uê m'suku" ("A pessoa conhecida de dia, à noite não deve ser esquecida"), capítulo 5, p 129, e o pensamento de An­tónio Cardoso, que Deus tenha, "Peque­na dúvida, pequeno espinho, tão de leve cravado na minha carne: Qual o caminho? Qual a estrada do meu Destino?", capí­tulo 11, p.305.

Enredo/Resumo

Tudo acontece entre 1975 (data da assinatura dos acordos de Alvor entre o MPLA, FNLA e UNlTA com Portugal para a descolonização de Angola) e 1992 (data da realização das primeiras eleições ge­rais decorrentes dos acordos de Bicesse, entre o MPLA e a UNlTA, sob a égide de Portugal e da ONU, para o fim da guerra civil). Toda a acção da narrativa tem co­mo ponto de partida e de chegada a su­posta aldeia ou povoação de Ualali, si­tuada algures na província do Huambo ou Bié, numa zona de influência da UNl­TA

Elementos míticos e sobrenaturais na literatura angolana de ficção, relevante ou redutor?

A Prece dos Mal Amados" é um ro­mance que se embrenha com mestria no imaginário animista, lendas fantásticas, crenças e mitologias dos povos africa­nos em geral, onde vai buscar todo um conjunto de cenários que se confrontam hoje (século XXI) com a modernidade e com o desenvolvimento do mundo (p.p. 23, 78, 86, 180, 181,213,214,215 e 216). Neste aspecto, a sua leitura impressiona-nos profundamente quando retrata os poderes sobrenaturais do grande soba de Ualali, Juba de Leão (p.p. 20, 21 e 36), os poderes do curandeiro/adivinho Tuluka (p.p. 213, 214, 262, 263, 264, 265, 267 e 268), as bruscas transformações operadas em Nazamba por força da mediação do curandeiro e dos espíritos dos antepassa­dos (p.p. 272,273, 277, 293, 294, 295, 296,297,298,303,304,314,315,316, 317,318,319,320,321,340,341 e 342) e os rituais da tradição africana/angolana a que ela teve de sujeitar-se para poder ser empossada como soba grande de Ualali (p.p. 309, 310, 311, 312 e 314). Pode afirmar-se, sem qualquer receio de erro nem de exagero, que "A Prece dos Mal Amados" faz ressurgir na literatura angolana de ficção – ainda que sem esse propósito e se é que em algum caso iso­lado não marcou presença – a coexistên­cia ou coabitação do real e do mítico, do obscurantismo ancestral e da modernida­de, do empirismo e da ciência, do atraso e do progresso. Não sei se é de continuar a incentivar uma tal tendência ou propen­são da generalidade dos nossos escrito­res, nem se enveredando pelos caminhos do imaginário tradicional e do maravilho­so animista, não se correrá o risco de fa­zer retrogradar a nossa literatura, regio­nalizando-a ou reduzindo-a na dimensão que desejamos que ela tenha.

Com efeito, sem de forma alguma lhe retirar os grandes méritos literários a se­rem referidos mais adiante, jogam nesta obra um papel de grande relevo, senão mesmo decisivo, as crenças, tradições e rituais que já não se compadecem com a época em que vivemos. Pessoalmente, sou de opinião e defendo que a literatura angolana seja, cada vez mais, "universal", "aberta", "progressista", e não o contrário. Porque continuar a escrever hoje sobre coisas ou de coisas em que a humanida­de desenvolvida já não acredita?

Apreciação literária e linguística

Uma particularidade, entre muitas outras, nos chama especialmente a aten­ção no decurso, desde logo, dos primei­ros capítulos: é que está muito bem es­crito em português, constituindo-se nu­ma importante referência da literatura angolana contemporânea. Trata-se de um romance e, como tal, possuindo um nar­rador, temática, enredo, herói, persona­gens (principais, secundários e meros fi­gurantes), um fio condutor de pensamen­to, princípio, meio e fim. O primeiro ca­pítulo é, digamos, a introdução, seguindo-se-lhe a acção ou a história que se es­tende pelos capítulos 2 a 11. Como nar­rativa aberta que é, o seu desenlace ou conclusão não vem expresso pelo autor/ narrador, que os remete para o leitor. Reú­ne, por conseguinte, as principais carac­terísticas que definem a natureza do gé­nero literário narrativo/descritivo, na mo­dalidade do romance, que no caso presen­te tem inclusivamente um sabor a histó­rico.

"A Prece dos Mal Amados" não é, seguramente, um livro qualquer ou sim­plesmente mais um livro, pelas questões do romance, que no caso presen­te tem inclusivamente um sabor a histó­rico. Mesmo admitindo que Nazamba seja uma pura criação do autor, não ten­do existido na realidade como filha de Marcelo e de Balanta, neta de um soba do centro-sul de Angola chamado Juba de Leão, quantos mulatos/mulatas (Os Mal Amados Filhos da Cobra), como Nazamba e Tomás, não tiveram um des­tino trágico ou dramático idêntico, entre 1974 e 1990, pelo menos na forma bru­tal como terão sido chacinados ou força­dos a deixar a sua terra natal (Angola) a caminho de uma qualquer diáspora, donde poderão não ter jamais regressa­do... "A Prece dos Mal Amados" não é, seguramente, um livro qualquer ou sim­plesmente mais um livro, pelas questões que inventaria (em forma de autênticas teses) – para cima de vinte – por mim contabilizadas (p.p. 49, 50, 51, 55, 59, 61, 62,63,65,81,156,212,216,220,222, 223,224,243,270,271,298 e 320) e que fazem dele um precioso acervo de mate­rial de estudo e reflexão "em tempo de g]obalização e de desterritoralizaçôes culturais na procura de uma pátria ou mátria", como escreveu o Doutor José Carlos Venâncio, "em tempo de desterri­torialiiações étnico/raciais dos mulatos/ mulatas", diria eu. Mas, não se restringe apenas às questões inerentes à mestiça­gem o riquíssimo conteúdo temático-li­terário desta obra, fulcradas sem dúvida a páginas 270, 271, 298 e 320. Há muito mais: história recente de Angola, teorias, filosofia existencial, carga política, dia­bolizações, realidades e utopias, tradições, costumes e linhagens, direito natural e costumeiro, simbolismo, provérbios, so­nhos, críticas, preces, enfim, o cruzamen­to extraordinário de todo um manancial de ideias que fazem do autor de "A Prece dos Mal Amados" um homem de filoso­fia política e pensador profundo. Parabéns e bem-haja, pois, pelo seu valioso contri­buto!

Considerações finais e comentários

Porquê "A Prece dos Mal Amados"? Qual é a razão ou o sustentáculo do títu­lo dado a um dos capítulos do livro (o ca­pítulo 6) e que, afinal, deu o nome à obra? A sua leitura atenta leva-nos a identifi­car aquilo que, saindo da boca da heroí­na do romance - desculpem-me os pre­zados leitores se estou errado - constitui, de facto, na verdade e ainda hoje, a pre­ce ou súplica maior dos mulatos/mulatas de Angola, e que passo a transcrever in­tegralmente: 1 - "Rogo a Deus que este­ja vivo (o meu avô Juba de Leão) e possa falar com ele. Amaldiçoou a vida do meu pai, da filha dele e a nossa, o meu irmão não sei se vive"(p. 155); 2 - "Esta maldita guerra nunca mais acaba, só porque há um facínora que sonhou ser presidente. Há-de acabar um dia, esse monstro não poderá viver para sempre" (p. 163); 3 ­"Ai, Tomás, leva-me lá, já hoje, já agora (p.235); 4 - "Então não continuamos a ser filhos da cobra? Continuamos mula­tos como éramos em 1975, ou agora já somos pretos... e podemos regressar?" (p. 243) 5 - "Tenho uma missão...É uma farsa, há sim racismo, racismo bran­co, racismo negro, racismo económico e por aí fora...

Não pretendo salvar mun­do nenhum, pretendo participar na cons­trução de uma nação mais honesta para os meus filhos (mulatos). Isso de raças é biologia e cientificamente inexistente, a raça a existir só poderá ser a humana" (p. 320); 6 - "Achas que desejo mais al­guma vez na minha vida ouvir dizerem­-me que tenho de me ir embora, nem sa­beria para onde, por ser mulata? Ou que possam vir a dizer isso aos meus filhos? Nunca!" (p.321).

Por António Pinto

Discente da Faculdade de Direito da Universidade Independente de Angola (UNIA).