domingo, 4 de outubro de 2009

XICA DA SILVA

A criança teria uns doze anos se tanto. Seus passos incertos mostravam que estava ébria ou drogada, e pela cercania do lugar a última suposição seria a mais acertada. Não muito longe, num beco imundo, porém afamado em determinados círculos luandenses da malandragem ou dos poderosos, residia uma senhora cujo negócio era o das bebidas alcoólicas não ortodoxas e da liamba.
Xica da Silva, seu nome de guerra, soava flagrante desonraria à histórica brasileira de quem tomara de empréstimo o homónimo.
De há algum tempo que a polícia mantinha o local sob vigilância, após várias denúncias de mães da vizinhança reclamando que liamba estava a ser vendida a crianças.
Se houvesse quem comprasse a droga, o problema era dos que o faziam, justificava-se Xica da Silva, sobretudo porque entre os seus clientes se encontrava gente afamada.
“Não me façam falar, vão lá à merda ó pá!...”, respondia a quem a criticava.
E como contra factos não há argumentos, o negócio ia de vento em popa. Só que ultimamente a Xica da Silva, talvez para olvidar ou amenizar os enrascanços da conjuntura, dera para iniciar-se, ela própria, nos caminhos enganadores da liamba.
“Grande ganza, meu!...”, dizia, em galhofa.
Junto ao local de venda, no quintalão escuso e sombrio, com uma porta de emergência que dava para o beco de trás, mandou construir três pequenos quartos onde colocou uma cama e uma mesa de cabeceira, um armário e duas cadeiras. Nesses quartos, suas excelências despejavam nas várias catorzinhas, que Xica da Silva mantinha em permanente rotação, as respectivas frustrações e tomates.
Naquela noite, sentados numa mesa, num pequeno alpendre, o senhor coronel Silva, o senhor vice-ministro Trancredo, os senhores deputados Beltrano e Feltrano, três ilustres empresários nacionais e dois libaneses, os verdadeiros donos das empresas. O quintalão fora fechado a qualquer outro visitante, e o pequeno exército de quatorzinhas, sob a batuta da madama, esmeravam-se para que nada faltasse às ilustres individualidades.
“Tragam mais gelo”, comandou o coronel, homem de barba bem cortada, antigo comando das forças portuguesas passado para as FAPLA no alvor da Independência.
Xica da Silva fez um gesto e prontamente o gelo apareceu, trazido por uma das ninfas, a bela Luzia.
À medida que os charros iam sendo acesos e fumados, a conversa ia-se tornando pastosa e suas excelências riam muito mais. Xica da Silva, juntou-se a eles. Começara a misturar negócios com promiscuidades sociais desde que entrara na ervanária confraria.
“Ó Xica de onde é que veio esta erva?, não é nada má!...”
“Do Bengo, senhor deputado. Esta é da que cresce mesmo ali junto ao rio, por isso é boa.”
“Muita boa, mas eu prreferrirre haxixe.”, disse um dos libaneses, com uma ponta de saudosismo.
“Uma pena, uma pena, nós não temos cá isso.”, retorquiu um dos empresários, sócio minoritário do libanês que falara.
“Sejam nacionalistas meus senhores.” Disse, a rir, o outro empresário, tragando em longo.
“A mim isto dá-me uma fome danada.”, falou novamente o coronel, dono de afamado restaurante luandense.
Xica da Silva, ao ouvir a reclamação, pronto mencionou o menu do dia, confeccionado especialmente para a ocasião.
“Temos gambas grelhadas com alho, caril de camarão, garopa grelhada com batatas cozidas e salada, funji de carne seca, cacusso com feijão de óleo de palma e cabrito, tudo à moda da casa. Há vinho branco e tinto e cerveja.
Os convivas concordaram em abanando a cabeça e cada um solicitou o prato que desejava, as beldades servindo-os individualmente. Todas trajavam tópes brancos bastante exíguos, calçõezinhos que mais desnudavam do que tapavam e, nos pés, uns ténis brancos e meias curtas igualmente brancas condizendo com o bom gosto e apurado senso sexo-empresarial da madama.
O jantar foi servido, Xica da Silva comeu com eles e a alegria era evidente. Se as coisas continuassem assim, em breve teria dinheiro para mudar de vida e de bairro, talvez também comprar uma casa em Portugal ou na África do Sul, ou aliar-se ao libanês e passar a comercializar o tal de haxixe, que ela desconhecia.
“Ó Xica, explica lá como é que consegues fazer uma muamba de camarão tão boa!”, solicitou um dos representantes da casa das leis.
“Muamba, senhor deputado?”, perguntou, surpresa.
“Sim, muamba. Esta muamba que comi estava uma maravilha, nem a minha esposa consegue fazê-la assim!”, repetiu.
Xica da Silva largou uma gargalhada e cobriu a boca com o guardanapo, para não mostrar os dentes cariados.
“Não é muamba, senhor deputado. É caril, o caril de camarão que o senhor pediu.”
Desataram a rir e o assunto foi motivo de pilhéria por muito tempo, o senhor deputado achando que a liamba era mesmo da boa, afinal comera caril a pensar que saboreara uma deliciosa muamba. Louvado fosse o quintalão da Xica da Silva.
“Posso-lhe ensinar como se faz, mas não dá para comer lá em casa.”, propôs Xica da Silva.
“Pois diga, que venha lá a tal receita!”, pediu o coronel, dono de restaurante afamado. Talvez organizasse ele próprio umas patuscadas para uns dois amigos e umas tantas fulanas seleccionadas.
“Num tacho põem-se duas colheres de sopa de azeite, duas de chá de caril, uma colher de sopa de sementes torradas de liamba, meia chávena de folhas de liamba e meia chávena de chá de coco ralado ou leite de coco. Leva-se ao fogo, sempre mexendo com uma colher de pau e junta-se as gambas ou o camarão, deixando a cozinhar a fogo brando. Uns minutos antes do fim, colocam-se umas duas rodelas de ananás em cima e pronto. Foi isso o que o senhor comeu.”, finalizou a Xica da Silva.
O libanês, satisfeito com o cabrito que manjara, agarrou na sobremesa, uma das beldades, e desapareceu com ela pelo primeiro quarto à sua frente, entre a chalaça dos outros.
“Olha que isso logo a seguir ao jantar dá congestão!...”, anunciou um dos deputados, não conhecedor do estômago de camelo do libanês, curtido com o leite azedo e queijos de ovelha dos rebanhos da família, nas montanhas e cedros da sua bela terra.
Mal o libanês desaparecera, ouviu-se um bater surdo e seco na porta, como se alguém a pretendesse deitar abaixo.
“Polícia, abre!”
Foi um ver se te avias.
Fugiram pela porta dos fundos, e dirigiram-se para os seus carros, duas ruas mais abaixo. O único a ser apanhado foi o coitado do fenício, calças na mão e sem saber o que acontecera, tão emaranhado estava nos afazeres da carne e da liamba com a quatorzinha.
Xica da Silva, algemada, dava instruções em voz alta e de última da hora, a uma ou várias das meninas certamente escondidas, porque ninguém as via.
“Amanhã volto. Fechem tudo e não abram para ninguém. Estes gajos não sabem com quem se estão a meter!...”, disse, ciente de que quem fala verdade não merece castigo.

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