sábado, 13 de agosto de 2011

MEMÓRIAS DA ILHA - CRÓNICAS


POPULACIONAMENTO

O “Correio da Semana último, em posição de merecido destaque, mostrava um patriarca vigoroso e benguelense que, por mares nunca antes navegados, produzira até ao presente minuto a módica ninhada de sessenta e dois filhos.

Em profundo grito de emoção, clamei orgulhoso por esta ditosa pátria que tal protonauta gerou. Quisera ter engenho e arte, para em verso fino e pleno de verve, conclamar os cidadãos a colecta pública que, de maneira impoluta, permitisse o erguer, na praça citadina maior, de reveladora estátua através da qual a pátria, tão falha de filhos, agradeceria o gesto disseminador e altruísta

Poder-me-ão chamar de cínico, brincalhão, o que quiserem, todavia juro-vos que nunca estive tão sério.

O nosso país é, e sê-lo-á por algum tempo, potencialmente rico pelo simples facto de sermos apenas cerca dez milhões de habitantes. E se considerarmos a bordoada que de momento mutuamente nos distribuímos, só me posso sentir feliz por tão baixa população.

Imagine-se, utilizando a matemática do patriarca, um homem para três mulheres, como ele fez, daria dois milhões e meio de machos garanhões e permanentemente em cio, a fazerem filhos como em linha de montagem, a sete milhões e meio de fêmeas reprodutoras, e digam lá, se a sessenta e dois filhos por tríade paridos, não haveria agora infinitamente muitos mais sopapos distribuídos, uma Jamba muito mais vasta com milhões de prisioneiros de guerra, e não só, e todo um mar por aí fora?...

Assim, sinto-me angustiosamente ambivalente quanto a louvar o feito heróico do nosso valoroso patriarca, um pouco como aquele meu amigo lá da Ilha que, odiando doentia e proverbialmente a sogra, viu-a precipitar-se pelo morro do Mbinda abaixo conduzindo o seu Mercedes novinho e de recente importação. Analisados e pesados devidamente os prós e os contras, ficamos como que engasgados e sem palavras.

As variantes são inúmeras, vejamos.

Se me considerar machista com prerrogativas ancestrais e consolidadas, a atracção certamente existe. Sem escrúpulos! É só uma questão de sabedoria e bom senso no repartir das tarefas e carinhos conjugais, três vezes divididos ou multiplicados conforme o caso. Tiram-se os dias do paludismo e outras doenças em que se é atendido pela santíssima e carinhosa tríade em conjunto, fica-se com a impressão de que até vale a pena.

Como homem liberto e emancipado, é evidente que só posso estar em desacordo com tamanha tacanhez cultural, e tentar esconder a inveja, o ciúme, o despeito e, sobretudo a curiosidade permanente e atiçada, na eterna dúvida do “como realmente será ir para a cama com três mulheres”?

Como homem racionalista, tiro os azimutes, faço as contas à vida e fico na indecisão entre a cópula racional bi ou trissemanal, e a possibilidade de uma luxúria animalesca e irracional, um pouco do estilo benguelense.

Como funcionário público, aceito de imediato. Temos é que converter a impotência sindical para que, revigorada talvez com uma gemada, transforme os míseros e caducos trezentos kwanzas/filho de abono de família do tempo da outra senhora (pré independência), em moeda sonante que permita adaptação aos padrões actuais de vida. Isto conseguido, aposentar-nos-íamos para fazer mais filhos e aumentar o rendimento.

Talvez esteja aí a resolução dos problemas, porém que o Estado não me acuse de o ter levado à falência.

Quanto ao patriarca, que nem é de Cabinda, terra de miraculosa madeira afrodisíaca, incito-o a estabelecer um recorde que coloque Angola no Guiness Book of Records e, do alto de toda a minha admiração e inveja por vida tão prolífera, clamo altissonante:

Bem-haja ó trepadeira de cepa forte!...

12/07/92

sábado, 9 de julho de 2011

LANÇAMENTO DE "O FANTÁSTICO NA PROSA ANGOLANA", EM LISBOA





Quando me veio a ideia de elaborar a presente antologia, de imediato se me colocou a grandeza e delicadeza da tarefa, face à vasta gama de escritores nacionais, e sobre o que eu poderia considerar de imaginário, de fantástico, de real e ou de irreal, entre muitas outras considerações, numa sociedade em que as fronteiras entre o mundo visível e aquele invisivel sempre estiveram tão intimamente ligadas.

Face à oralidade das sociedades africanas, da qual Angola não teria como escapar, este universo de ambiguidade não poderia deixar de ter residência visível nas diversas obras dos escritores angolanos que, ao longo dos séculos XIX e XX, foram férteis na produção de textos em que diversos mundos se interligavam com acontecimentos estranhos, acontecimentos que com muita frequência fugiam ao entendimento de serem ou não reais face à percepção do aceitável e ou do credivel.

Óscar Ribas, um dos mais conceituados nomes da etnografia nacional, nascido em 1909 e já falecido, autor de vasta obra em que recolheu a extremamente valiosa literatura oral africana na zona de Luanda, afirmara que os contos ordinariamente reflectem aspectos da vida real. Neles figuram as mais variadas personagens: homens, animais, monstros, divindades, almas. Se por vezes, a acção decorre entre elementos da mesma espécie, outras no entanto desenrolam-se misteriosamnete, numa participação de seres diferentes.

Confrontei-me, deste modo, com a questão do fantástico, algo que não pode ser explicado via racionalidade, e com as possibilidades do verosimil versus o inverosimil, o real e o sonho, o natural e o sobrenatural. O que procurar, o que e como inserir? Seria o fantástico, o estranho, o maravilhoso e a fantasia contidos na panóplia de obras de escritores angolanos a mesma coisa? Quedar-me-ia unicamente com o texto, vamos chamá-lo por contraposição adulto, ou igualmente com o tradicional, o juvenil e o infantil? Na oralidade africana, contar, o sunguilar, é parte intrinseca da vida. É às noites, sob o agasalhar dos fogos, que as tradições, os usos e costumes são propagados de geração em geração, através dos contos, das estórias, das adivinhas, dos provérbios. Contar, relatar, gravar na memória colectiva é uma das acções mais antigas da história da humanidade, reflectidas em testemunho nas grutas espalhadas pelo mundo inteiro.

Acho que me preocupei mais com os aspectos do estranho, do maravilhoso, talvez mesmo até do insólito, na recolha que levei a cabo, deixando o fantástico maioritariamente para a literatura tradicional e para a literartura infantil, narrativas em que o narrador ou o escritor mais se preocupa com a mensagem, com a valorização moral e com um fim que transmita uma postura considerada de funcional na sociedade.

Tzvetan Todorov, um filosófo e linguista búlgaro desde 1963 a viver em Paris, no seu livro “Introdução à Literatura Fantástica”, estabelece normas a respeito do fantástico na literatura, diferenciando entre o fantástico, o estranho e o maravilhoso. Segundo ele, em um mundo que é o nosso, que conhecemos (infira-se ocidental e moderno), sem diabos, sílfides, nem vampiros se produz um acontecimento impossível de explicar pelas leis desse mesmo mundo familiar.

Quem percebe o acontecimento deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto de imaginação, e as leis do mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte integrante da realidade, e então essa realidade está regida por leis que desconhecemos. O fantástico ocupa o tempo dessa incerteza. Assim que se escolhe uma das duas respostas, deixa-se o terreno do fantástico para entrar em um género vizinho: o estranho ou o maravilhoso. O fantástico é a vacilação experimentada por um ser que não conhece mais as leis naturais, frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural.

Não irei referir nesta apresentação o que me levou a incluir um e não outro escritor, até porque a linha divisória não me permitiu estabelecer fronteiras entre o estranho, o maravilhoso sempre existindo um subgénero transitivo entre eles. Segundo Todorov, seja como for, não é possível excluir de uma análise do fantástico, o maravilhoso e o estranho, géneros aos quais se sobrepõe. Acho que os contos e os excertos de textos mais largos que me serviram de base, englobam-se largamente no objectivo a que me propuz.

Fragata de Morais

Coordenador



Este acontecimento decorreu, no dia 30 de Junho, na Feira Internacional do Artesanato, no Pavilhão de Angola", sob os auspícios da Casa de Angola em Portugal.

O livro será, igualmente e muito em breve, lançado aqui em Luanda, pela Editora Mayamba.

Prefácio

Para mim, que raras ou nenhumas incursões tenho no domínio do ensaio ou da crítica literária, foi uma agradável surpresa ser convidado a prefaciar a presente obra.

Não o farei na forma convencional, rebuscando teorias e pontos de vista, sem me furtar a elas no entanto, mas sim ancorando-me no lado simbólico do convite e no apreço que me merece a iniciativa.

Como se sabe, desde o alvor da Independência Nacional e mesmo no período imediatamente anterior, assistimos a um grande movimento em torno da ideia de recuperação e valorização do imaginário ou dos imaginários angolanos através da literatura. Muitos títulos foram publicados com esta perspectiva, porém, até à saída da presente obra, não se tinha uma ideia de conjunto sobre o que efectivamente havia acontecido no domínio do fantástico na Literatura Angolana, isto desde Cordeiro da Matta aos nossos dias. Com efeito, até à edição desta Antologia, a questão do fantástico que, no nosso ver, não se limita apenas às práticas mágicas, mas estende-se também à aparição de factos inexplicados e teoricamente inexplicáveis não foi tratado, quer de forma sincrónica, quer de forma diacrónica.Vem pois

esta Antologia suprimir aquela lacuna e dar-nos uma panorâmica do fantástico na literatura angolana, este delicado género que no dizer de Jean Bellemin – Noél, vive da ambiguidade e no qual o real e o imaginário se devem reencontrar e até se contaminar. Isto mesmo poderá levar-nos a compreender o critério de escolha dos textos que compõem a presente obra de Fragata de Morais. Escreveu o crítico francês Jacques Chevrier que durante muito tempo a África “foi uma reserva de exotismo onde os autores de sucesso vinham buscar sem vergonha o pitoresco e a cor local reclamados pelo público Europeu ávido de sensações”. Cremos que, felizmente, tal situação se encontra ultrapassada como se pode comprovar por muitas obras africanas e, neste caso angolanas, que descrevendo a irrupção do sobrenatural na realidade, como a definição do Todorov mencionada pelo autor desta antologia, permite-nos fruir destes valores de maneira autónoma e dar um contributo ao universo simbólico e ao imaginário da língua portuguesa, no nosso caso. Por tal facto ganha notoriedade a presente obra, assim como pela circunstância da mesma vir demonstrar que o fantástico não é um género menor nem só reservado a crianças e jovens mas, pelo contrário, é um terreno muito vasto e rico que de resto revelou grandes nomes da literatura universal como Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo), Théophile Gautier (A Cafeteira), Guy de Maupassant (Le Horla et la Chevelure), Merimée (La Vénus d’Ille), etc. Estas referências servem-nos para realçar a importância desta obra e do trabalho dos autores que deram e dão corpo à Literatura Fantástica Angolana, seguramente um percurso a explorar por muitos dos nossos autores que fazem o orgulho das letras angolanas.

António Antunes Fonseca

ALGUNS MOMENTOS DA MEMÓRIA




sexta-feira, 8 de julho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O FANTÁSTICO NA PROSA ANGOLANA



Dia 30 em Lisboa, no Parque das Nações, sob os auspícios da Casa de Angola em Lisboa, acto celebrativo dos seus 40 anos de criação, será lançada a antologia

"O Fantástico na Prosa Angolana", de Fragata de Morais.

Formato: 15,5 x 23,0 cm
Número de páginas: 382
ISBN 978-989-8370-02-0
Preço: Kz 3.500,00 (em Angola)
Euros: 27,00

LITERATURA ORAL - PROVÉRBIOS














FUNGA MESU; KULUTFU IUMA IRIKU

Guarda (bem teus) olhos(porque à tua)
frente ainda há muitas coisas.

(Aqui chama-se a atenção das pessoas sobre a limitação do conhecimento de cada um)

Provérbio Cokwe

MEMÓRIAS DA ILHA - CRÓNICAS


AMIGOS PARA SEMPRE

A amizade, quando sincera, desinteressada e duradoura, é uma coisa linda e que só faz bem, passe o desentendimento ocasional. Na maior parte das vezes, é bem-vinda para os outros, fortalece a confiança no semelhante, descarboniza o motor, como diria o meu amigo Manbeto, mecânico de longa data. A amizade, quando forte, não sucumbe aos abanões das vicissitudes, das intrigas ou do afastamento. Ela perdura, é farol que se vê ao longe. Não é matéria que se encontre em supermercado, para onde nos dirigiríamos e, com a pessoa amiga, se pedisse:

“Por favor, venda-me aí três quilos de amizade, bem pesadinhos e sem gordura!”.

“Só três? Pela cara do(a) companheiro(a), eu levaria uns cinco...”

“Talvez, talvez mais tarde. Agora só desejamos mesmo três, não é?

Efectivamente há que ter cuidado, amizades são assuntos que se devem construir com cuidado, paulatinamente, sem pressas. Há que amanhar e adubar o terreno, plantar-se com carinho e respeito e utilizar-se em pequenas doses.

“Olha, sabes, o Serafim morreu de overdose...”

“Mas não sabia que se drogava!...”

“Não, foi pior que isso. Morreu de overdose de amizade, a Xiquinha deu-lhe tanta de uma só vez que o coração do coitado não aguentou. Puff, lá foi. Eu bem o avisara, olha que em excesso pode causar-te danos sérios, mas sabes como são esses universitários. Sabem tudo.”

“É verdade, sempre juntos, até pareciam que namoravam.”

“Qual quê, aquilo era só mesmo amizade, a Xiquinha até nem gostava de homem, era daquelas que dizia que homem era só para amizade, e olha no que deu. Quem diria!... Overdose de amizade...”

Há amizades assim, que não se contentam em ser edificadas em doses homeopáticas, os seus arquitectos traçam planos imediatos para arranha-céus de oitenta andares de amizade. Que edifício imponente. Mas será que aguentará o primeiro sopro de um vento mais forte?

Conheci dois amigos assim, sempre juntos, estou seguro que se um tivesse sido mulher, aquele casamento seria eternamente abençoado, tal a dedicação mútua. Segundo o registo histórico oral, nasceram quase no mesmo dia do mesmo ano, filhos de duas casas contíguas. Engatinharam juntos, comeram as mesmas caganitas dos ratos no mesmo buraco onde as encontraram, frequentaram o ensino primário como companheiros de carteira, jogaram no mesmo time com a mesma bola de trapos, namoraram as mesmas namoradas no liceu e assim viveram a vida toda, um ao lado do outro, na mesma rua, casados com duas irmãs, também da mesma rua.

E sabem o que solidificou desde cedo essa amizade? O futebol. Se houvesse, naquela altura, uma enciclopédia de futebol, seriam eles. Conheciam toda a história do desporto rei, desde a sua invenção na Inglaterra, segundo uns. Na Mongólia, onde o Gengis Khan usara as cabeças do inimigo para grandes desafios nas estepes ou no deserto, segundo outros. Jogaram juntos em todas as equipes da escola, do liceu, do bairro, e participaram de todos os campeonatos que organizaram e que foram organizados. Eram conhecidos como a dupla da mata e esfola, já que era isso que acontecia. Quando um caía sobre o adversário para o esfolar, logo o outro aparecia para complementar o estrago, para matar. Só no primeiro campeonato escolar, já no liceu, quebraram mais canelas na primeira volta, do que o Justino Fernandes em todos os seus desafios. E naquelas épocas ainda não tinha sido elaborado o conceito de “futebol viril”, para justificar o amace e as luxações infligidas sobre os outros.

Quando oiço o Mateus Gonçalves da LAC, a perorar ou a xinguilar sobre o futebol e os seus (do futebol) ídolos, sinto uma imensa pena. Será que nunca ouviu falar nesses dois, nas suas proezas, na sua eterna amizade? Edificada sobre milhões de bolas de futebol, a começar com as de meia, depois as de borracha, seguidas daquelas que eram de couro e se atavam como se ata um sapato? Porque não os menciona? Algum desafecto bairro-clubista?

Quando Deus chamou um deles, o outro logo ficou a estiolar na sua solidão de órfão. Nada mais o animava, todos diziam que em breve também se iria juntar ao amigo. Amizade tão longa, tão bonita e tão forte, não perduraria por muito mais tempo só com um dos integrantes. Mas foi vivendo. Naquele ar apagado, olhos sempre no vago, ao longe, e com os lábios formando o ocasional sorriso, talvez no momento onírico em que lá se ia mais uma canela adversária, ou se formava aquela dúvida que só para si guardava.

O momento chegado, ao cair da tarde, chamou um dos netos preferidos e informou-o que se preparassem, não iria durar muito mais.

“Que é isso, avô? O senhor ainda tem muitos anos de vida.”

“A minha hora chegou, vai já avisando todos, não quero confusões, e no meu caixão deve ir aquela bola de couro com atacador, a que tem uma fotografia do Peiroteu colada.”

“Mas avô, lá no céu nem há campos de futebol!...” disse o neto, para o alentar.

“Não digas disparates, o que sabes tu? Não só há campos, como grandes campeonatos entre os católicos e os outros, os protestantes.”

“Mas como é que o avô tem a certeza? Quem lho contou?”

“O meu velho amigo de sempre. Ontem apareceu-me num sonho e contou-me isso precisamente. Grandes e renhidos campeonatos!... E mais, informou-me que estou escalado para jogar no próximo domingo.”

O neto olhou para ele e, sem mais palavras, foi informar a família.

05/09/04