quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A DANÇA DA CHUVA

A Dança da Chuva, de Fragata de Morais
Ana T. Rocha
Fundação Dr. António Agostinho Neto


A dança da chuva (Menção Honrosa – Prémio Sonangol de Literatura/PALOP) é o mais recente livro (2016) de Fragata de Morais, publicado pela União dos Escritores Angolanos. Neste romance conhecemos Fernando, um sujeito-narrador solitário, autocentrado, arrogante e orgulhoso da sua racionalidade e ceticismo. Contudo, ao longo da história, a personalidade, que Fernando pensa ter terminada e inabalável, vai sofrer alguns abalos, enchendo-se de contradições. Apesar de alguma secura nas suas relações sociais e humanas, Fernando é sensível e suscetível, pelo menos, em relação à arte (literatura, pintura, música e cinema) e é esta sensibilidade e vulnerabilidade, afinal, que o vai trair e coloca-lo em conflito consigo próprio, devido aos acontecimentos paranormais e outros, simplesmente humanos, que vai experienciando. Se no início Fernando parece, na sua altivez e isolamento, carecer de empatia em relação aos que com ele se cruzam e o procuram, mais tarde, a sua quase-crise identitária vai, se assim o pudermos dizer, humanizando-o, pois, a verdade é que, no começo do romance, Fernando chega a inquietar o leitor devido ao seu desdém pelos outros, seus preconceitos, machismo, homofobia e egoísmo. Ironicamente, as suas características voltam-se sempre contra ele: renitente ao comprometimento com os outros, termina envolvido na vida privada de Selina, Sessenta e Elisandra; o seu ceticismo converte-se em reza quando dele se aproxima um gato que teme de maneira irracional; o seu machismo e homofobia são atacados numa cena (repleta de estigmas) de sexo no Brasil. Nestes sete capítulos, antecedidos, cada um, por uma epígrafe sempre muito bem escolhida, o estilo de Fragata denota o trabalho de lima na linguagem cuidada escolhida (mesmo para as falas das personagens!) e uma busca de envolvimento com outras artes nas descrições de alguns ambientes e cenários (música e um visualismo cinematográfico). Merece, contudo, uma revisão para próximas edições, pois não foi difícil encontrar-lhe várias gralhas.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

PROCLAMAÇÃO DA ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS




DISCURSO DA MINISTRA DA CULTURA NA CERIMÓNIA DE PROCLAMAÇÃO DA ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS
(Luanda, 15 de Setembro de 2016)

Excelência, Sr. Presidente da Academia Angolana de Letras, Dignos membros da Academia Angolana de Letras, Ilustres Deputados, Caros Membros do Executivo angolano, Senhores Embaixadores, Minhas Senhoras e meus Senhores, Foi com enorme prazer que aceitei o convite para proferir algumas palavras no acto de proclamação da Academia Angolana de Letras, que marca ao mesmo tempo a tomada de posse dos seus primeiros órgãos sociais. O prazer e a honra são ainda maiores, porque se trata da primeira Academia Angolana, enquanto associação que reúne intelectuais de elevado gabarito – neste caso, representando as Letras angolanas. Trata-se de um reduzido grupo de intelectuais (apenas 43), indigitados para aqui representarem a Literatura e os Estudos Sociais angolanos. São pessoas de reconhecido mérito, intelectuais de craveira, que para além de possuírem obra publicada, essa mesma obra é estudada em conceituadas universidades do nosso país e do estrangeiro. E estão também incluídos em Antologias e outros trabalhos colectivos, que são estudados em várias partes do mundo. Graças a vós, Angola passa a partir de hoje a ombrear com outros países, possuindo uma Academia de Letras que se vai ocupar da difusão das Letras Angolanas, dentro e fora de portas. A recém-proclamada Academia Angolana de Letras surge na sequência da instituição, a 10 de Dezembro de 1975, da União dos Escritores Angolanos, e do crescimento dos Estudos Sociais Angolanos, graças ao impulso dado pelos sucessivos governos ao Ensino Superior e à Investigação Científica, após a proclamação da independência do nosso país. Mas a novel Academia Angolana de Letras possui uma tradição académica, jornalística e literária antiga, cujas origens remontam a meados do século XIX. Como percursores e impulsionadores da Literatura Angolana e dos Estudos Sociais Angolanos, podemos mencionar os nomes de José de Fontes Pereira e Joaquim Dias Cordeiro da Matta, os de António de Assis Júnior, Arsénio do Carpo, Francisco das Necessidades Ribeiro Castelbranco, Manuel Alves de Castro Francina, Pedro da Paixão Franco e Pedro Félix Machado, bem como Agostinho Neto, António Jacinto, Mário António Fernandes de Oliveira, Mário Pinto de Andrade e Viriato da Cruz. A resistência à colonização e a necessidade de retorno aos valores da Cultura Africana marcaram por mais de um século, quer a Literatura, quer os Estudos Sociais Angolanos. A preservação escrita das línguas nacionais ocorre desde longa data, assinalando-se a publicação dos “Elementos Gramaticais da Língua Mbundu” no ano de 1864, para além de uma série de textos em língua nacional, publicados em jornais. A Literatura Angolana e os Estudos Sociais Angolanos marcaram também a sua presença indelével no período de luta armada de libertação nacional. Essa contribuição tem a ver não apenas com a libertação do jugo colonial, mas também com a união dos angolanos no quadro dessa mesma luta pela obtenção da auto-determinação e da independência política. A contribuição dessas áreas tem ainda maior valor, se considerarmos a importância destes dois vectores no quadro da materialização do ideal nacionalista de consolidação da Nação Angolana. Caros Membros da Academia Angolana de Letras, Distintos convidados, A tradição das Academias de Letras remonta ao século XVII, com a criação da Académie Française, no ano de 1635. A mais antiga Academia de Letras do mundo possui 40 membros, conhecidos pelas designações “Os Quarenta” ou “Os Imortais”. A Academia Angolana de Letras vai certamente recorrer à tradição das suas congéneres espalhadas pelo mundo, fazendo juz à importante presença deste nosso grupo restrito de intelectuais (o “Grupo dos 43”) na análise dos fenómenos sociais e das questões ligadas à Cultura, à Literatura, à Linguística e às Artes angolanas. Caros Membros da Academia Angolana de Letras, Tenho plena consciência dos enormes desafios que tendes pela frente, enquanto intelectuais ligados às Letras Angolanas. Apesar disso, pretendo apresentar-vos algumas sugestões que nos inquietam, enquanto Estado e enquanto Sociedade angolanos. O factor cultural é fundamental, quando nos referimos à Angolanidade. Por isso, o primeiro desafio que aqui vos deixo tem a ver exactamente com a identificação (para posterior preservação) daquelas características que fazem de nós seres humanos, mas que nos colocam em África e, mais ainda, que fazem de nós Angolanos. Será determinante a vossa contribuição para definição dos contornos da Angolanidade e para encontrarmos todos em conjunto os passos que conduzirão à real consolidação da Nação Angolana. Em segundo lugar, gostaria de deixar convosco o importante desafio da contribuição para salvaguarda dos valores morais, num momento em que registamos a sua quebra acentuada e precisamos por isso de reflectir acerca do rumo a tomar no processo educativo e no processo de socialização que as famílias devem continuar a liderar. Um terceiro desafio tem a ver com a introdução das Línguas Nacionais no sistema de educação e ensino, que o Executivo angolano começou já a implementar e os intelectuais são chamados a contribuir nessa direcção. Como se sabe, os resultados são mais animadores quando as crianças têm acesso à educação na sua língua materna. Não posso deixar de mencionar um quarto importante desafio, na sequência da tradição da Académie Française. Refiro-me à necessidade que temos de elaborar o Padrão Angolano da Língua Portuguesa , pelo que a Academia Angolana de Letras pode contribuir activamente para a definição da gramática e do léxico do Padrão Angolano da Língua Portuguesa. São quatro importantes desafios, que podeis certamente agendar no vosso programa de trabalhos. Caros Membros da Academia Angolana de Letras, Gostaria de sublinhar aqui o facto de a proclamação da Academia Angolana de Letras ocorrer exactamente no Dia Internacional da Democracia, que este ano se celebra segundo o lema “Fortalecer a Democracia é condição essencial para alcançar o desenvolvimento sustentável até 2030”. É indiscutível o papel das Letras Angolanas na promoção e preservação das conquistas democráticas. Os membros desta Academia podem contribuir para o processo de democratização em curso no nosso país, fazendo ouvir a sua voz em prol das políticas públicas de inclusão social e na mobilização dos cidadãos para a acção cívica. Enquanto parceira do Executivo angolano, a Academia deverá ser mais um local de debate acerca da participação dos cidadãos na concepção e execução de políticas públicas, bem como da sua contribuição para a melhoria das condições de vida e de trabalho dos angolanos. Caros Membros da Academia Angolana de Letras, Distintos convidados, Foi com incontida emoção que tomámos conhecimento da indigitação do Dr. António Agostinho Neto como Patrono da Academia Angolana de Letras. Para além de ter sido quem proclamou a independência do nosso país, enquanto Primeiro Presidente de Angola, trata-se realmente de uma figura ímpar nas Letras Angolanas, que deixou obra literária e amplas reflexões acerca da Sociedade e da Cultura angolanas. Estou convencida que o “Grupo dos 43” saberá honrar a memória dos percursores e impulsionadores da Literatura Angolana e dos Estudos Literários Angolanos, bem como a memória do Patrono da Academia. Da parte que nos toca, posso garantir o apoio institucional que o Ministério da Cultura prestará à Academia Angolana de Letras. Hoje, 15 de Setembro dia Internacional gostaríamos de ressaltar que aos intelectuais que se reúnem nesta Academia cabe igualmente o dever de fazer ouvir as suas vozes para mobilizar os cidadãos para o reforço da democracia e garantir o progresso de me sociedade inclusiva prospera e socialmente justa. Caros Membros da Academia, O Executivo angolano lidera por Sua Excelência José Eduardo dos Santos, Presidente da República de Angola congratula-se com a proclamação da Academia Angolana de Letras e augura os maiores sucessos a esta associação, que reúne alguns dos nomes mais sonantes da intelectualidade angolana contemporânea. Bem haja a Academia Angolana de Letras. Muito obrigada.

DISCURSO DO PRESIDENTE DA ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS BOAVENTURA CARDOSO

Excelências, Vimos hoje aqui testemunhar a proclamação da Academia Angolana de Letras. A escolha deste mês e deste emblemático monumento como local da fundação desta instituição não foi fruto do acaso. Foi, deliberadamente, uma clara intenção de lembrar e evocar Agostinho Neto, fundador da Nação Angolana, primeiro Presidente de Angola e insigne homem das letras angolanas. Recordar NETO é, necessariamente, evocar parte significativa da história recente do povo angolano, pois a vida do poeta confunde-se com a do político e do estadista. Evocar NETO é, implicitamente, falar da gesta que foi a luta de libertação nacional e de todos quantos com ele trilharam os sinuosos caminhos que nos conduziram à Independência Nacional. Homenagear NETO é falar do universalismo do seu percurso como político e da sua obra como homem de cultura. No seu pensamento e obra facilmente apreendemos que ele foi um homem não só preocupado com o futuro do seu povo, como também com o mundo. Deste modo, como homenagem à sua elevada distinção como escritor e homem de cultura, os Membros Fundadores da Academia Angolana de Letras decidiram plasmar no seu Estatuto que António Agostinho Neto é o seu Patrono, ao qual é atribuída a Cadeira Perpétua N. 1. Excelências, Ilustres Convidados, A 10 de Dezembro de 1975, uma plêiade de escritores angolanos, liderados por Agostinho Neto, declarava constituída a primeira associação cultural após a proclamação da Independência Nacional - a União dos Escritores Angolanos. Decorridos quarenta anos, a Literatura Angolana é, hoje, uma referência incontornável do percurso glorioso da Nação Angolana. Os escritores, como é consabido, narrativizam a Nação, dando sentido ao projecto da sua construção simbólica. Com as suas obras, os escritores concebem, reconfiguram e actualizam constantemente a ideia de pátria e de nação. Ontem, foram os escritores os impulsionadores de uma certa consciência nacionalista, apesar do contexto colonial que predominava na antiga província ultramarina. Foram eles que, mesmo sabendo que a utopia era inalcançável, agiram como se tal fosse historicamente possível. Hoje, os escritores continuam a construir uma Nação literária, em demanda de uma Nação em processo de cria- ção, mesmo que às vezes tal possa não parecer tão evidente e linear. É que a literatura nem sempre se conforma com a vida; às vezes, ou se atrasa ou se avança em relação à realidade social, política e histórica em que estamos ancorados; às vezes - diríamos mesmo muitas vezes – a realidade do escritor pode dissentir da realidade em que estamos inseridos. De qualquer modo, nunca a literatura será cópia fiel da realidade, porque esse nunca foi, aliás, o seu propósito. Seja como for, os escritores angolanos reconhecem-se e identificam-se pela sua matriz cultural, numa palavra, pela sua angolanidade, relevando, é claro, que mesmo essa tem a sua dinâmica interna caracterizada pela diversidade cultural. Por outras palavras, a angolanidade literária não deve conflituar com os diversos modos de ser e de estar dos angolanos, enquanto filhos de uma mesma Pátria e Nação em construção. Nos nossos dias, Angola é projectada a nível internacional não só pelas suas realizações nos campos político, económico e social, como também pelo alto ní- vel estético e literário das obras dos seus escritores. São disso prova bastante o número de estudos sobre a Literatura Angolana, em teses de licenciatura, de pós-graduação, de mestrado e de doutoramento, em renomadas e prestigiadas universidades no mundo. Deixamos aqui, a esse propósito, o nosso preito e homenagem a alguns dos mais destacados pioneiros de estudos sobre a nossa escrita literária, nomeadamente, os angolanos Carlos Ervedosa e Mário António Fernandes de Oliveira; os portugueses Manuel Ferreira e Alfredo Margarido; a brasileira Maria Aparecida Santilli; os norte-americanos Gerald Moser e Russel Hamilton, e os franceses Jean - Michel Massa e Michel Laban. Uma trajectória igualmente frutuosa, podemos assinalar no domínio das Ciências Sociais mercê ,não só da criação de várias faculdades especializadas nesse ramo, mas sobretudo pelo rigor metodológico de aturadas investigações realizadas por sociólogos, antropólogos, historiadores, filósofos, linguistas, sociolinguistas e outros no vastíssimo campo das Humanidades. Graças a esses estudiosos das Ciências Sociais e Humanas vamos conhecendo, compreendendo e interpretando cada vez melhor a nossa sociedade, em particular os processos e fenómenos que são reflexo de comportamentos e de atitudes dos membros das diversas comunidades sócio-históricas de Angola. Por isso, a Academia acolhe-os no seu seio como membros de pleno direito, homenageando, assim, por seu intermédio, todos os investigadores sociais angolanos. A Academia Angolana de Letras pretende ser reconhecida como uma autoridade em matéria do estudo e da investigação da literatura angolana, da língua portuguesa, das línguas nacionais e das disciplinas correlatas, seja como parceira do Executivo ou de quaisquer instituições científicas sempre que for chamada a emitir a sua opinião, seja por iniciativa própria sobre matérias da sua competência. Não queremos perder tempo com discursos cristalizadores e perlengas academicistas, mas antes promover debates, colóquios e conferências profícuos, de indiscutível rigor científico. Gostaríamos que a Academia Angolana de Letras, sem demagogia, se abrisse à sociedade. Nesse sentido, ela pode e deve, por exemplo, interagindo com as escolas do nível secundário e as universidades, induzir a que se passe do "grau zero da recepção" a uma cada vez mais elevada e melhorada estética da recepção do que há de excelente na literatura angolana e dos clássicos da literatura universal. Do ambicioso Plano de Acção 2016-2020, da Academia, destacamos os seguintes projectos: 1) Estudos sobre a Variedade Angolana do Português; 2) História da Literatura Angolana; 3) Vocabulários Temáticos e Terminologia das Línguas Nacionais. A Academia propõe-se ainda desenvolver as seguintes actividades culturais no quadriénio: 1) Palestras e conferências em colaboração com escolas do ensino secundá- rio e universidades; 2) Um Colóquio Internacional sobre o Ensino da Literatura Angolana e a Formação do Cânone Literário em Angola. No plano de Publicações e Comunicação vai instituir prémios e concursos para a divulgação da Literatura Angolana, das Línguas Nacionais e Estudos Sociais angolanos. No capítulo das Relações Internacionais a Academia pretende desenvolver acções de cooperação com Academias de Letras de outros países e diligenciar filiar-se na União Académica Internacional. Agradecemos a todos quantos votaram a favor da lista única levada a escrutí- nio no passado dia 3 de Setembro, e aqui afirmamos a nossa inteira disponibilidade em agir em prol do prestígio a nível nacional e internacional da Academia Angolana de Letras. O simples surgimento da ideia da criação de uma academia suscitou alguns rumores no seio da nossa comunidade de escritores. Queremos aqui assegurar que a Academia não foi criada para neutralizar o espaço de quem quer que seja, muito em particular o da nossa Casa-Mãe – a União dos Escritores Angolanos. A Academia tem como Membros Fundadores quase todos os membros que fundaram a União, para além de integrar também alguns membros da sua actual Direcção. Do nosso conhecimento, nenhum dos escritores membros da Academia renunciou ao seu estatuto de membro da União. A União dos Escritores Angolanos e a Academia Angolana de Letras podem, pois, coexistir em estreita cooperação. A grande diferença entre as duas associações, é que a Academia é um órgão vocacionado para a investigação, para além de ser muito selectivo. A Academia Angolana de Letras, seguindo a tradição de outras academias do mundo, tem um numerus clausus: é constituída por apenas 43 membros, dos quais 42 são efectivos e um é o seu Patrono. Podem, pois, imaginar a dificuldade que a Comissão Instaladora da Academia teve para decidir quem deveria ocupar aquelas limitadas vagas. De qualquer modo, na melhor oportunidade e de acordo com o seu Estatuto, a Academia criará uma Comissão Ad-Hoc para analisar as eventuais candidaturas a Membros Efectivos, visando preencher as poucas vagas ainda disponíveis, para o que dará a devida publicidade. Como acontece ainda hoje nas academias centenárias, há-de se questionar sempre sobre que critérios foram observados para admitir este e não aquele como membro da Academia. Entretanto, temos a plena consciência de que ficaram de fora da Academia muitos escritores com créditos firmados e cientistas sociais com obra de alto nível científico. Fica, pelo menos, a perspectiva de que alguns desses intelectuais possam vir a ser chamados a colaborar com a Academia em projectos específicos. A Academia será sempre um espaço de diálogo e de partilha. Nesta ocasião solene a Academia Angolana de Letras presta tributo aos precursores da Literatura Angolana e dos Estudos Sociais Angolanos e aos membros fundadores da União dos Escritores Angolanos que partiram para uma outra dimensão da vida. Agradecemos a todos quantos contribuíram para que esta cerimónia pudesse ser realizada como previsto, nomeadamente ao MAAN, à UEA, ao artista plástico Horácio da Mesquita por, com toda a sua mestria, ter concebido o emblema, a sigla, o brasão e a bandeira da Academia; e ao jurista Aguinaldo Cristóvão por laboriosamente ter dispensado muitas horas na redacção do Estatuto desta instituição. Finalmente, deixamos aqui o nosso apreço à Orquestra Kaposoka e aos seus virtuosos integrantes, que aqui estiveram a deleitar-nos com as suas excelentes interpretações, e a recordar-nos que a excelência nas artes – e não o puro divertimento – só se alcança com muito trabalho e dedicação. Bem haja a Academia Angolana de Letras. Luanda, 15 de Setembro de 2016

ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS PROCLAMAÇÃO
Atradição literária angolana, nas suas manifestações modernas, remonta ao século XIX e prossegue através das gerações subsequentes que emergem durante o século XX, traduzindo a consagração da prática criativa e da investigação social sistemática nas suas dimensões normativa e analítica com expressão sublime fundada na obra de eminentes intelectuais e pensadores angolanos, dentre os quais António Agostinho Neto, o patrono da Academia Angolana de Letras. No dealbar do novo milénio, a Academia Angolana de Letras representa a projecção de aspirações colectivas que as primeiras elites intelectuais veicularam por força de uma acção vibrante, tendo em vista o registo indelével de uma literatura a que subjaz uma soberania epistemológica, à luz das temporalidades históricas seculares. Por essa razão, a constituição da Academia Angolana de Letras vem imortalizar o magistério intelectual dos precursores e fundadores que, na sua gloriosa acção, lançaram as bases convencionais para a definição da Literatura Angolana e dos Estudos Sociais Angolanos, englobando a produção literária oral e escrita, em línguas nacionais e em língua portuguesa. Desse modo, a autoridade da Academia Angolana de Letras legitima-se no sistema literário e nos estudos sociais como uma emanação da tradição cultural endógena que encontra a sua forma mais representativa no conhecimento avançado sobre as realidades social e cultural que contribuem para a formação histórica de Angola. Assim, considerando que a missão e a vocação principal da Academia Angolana de Letras consiste na realização profícua de programas e acções de promoção, valorização e divulgação dos estudos sociais avançados sobre a tradi- ção oral, a criação literária, as línguas, as literaturas e as comunidades humanas. Os abaixo-assinados proclamam a ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS. Adriano Botelho de Vasconcelos Alexandre do Nascimento Almerindo Jaka Jamba Aníbal Simões Antero Abreu António Fernandes da Costa António Fonseca António Quino 6 | PROCLAMAÇÃO 26 de Setembro a 9 de Outubro de 2016 | Cultura Cultura |26 de Setembro a 9 de Outubro de 2016 PROCLAMAÇÃO | 7 Carlos Alberto Van-Dúnem Carlos Pimentel Carmo Neto Emílio de Carvalho (Bispo Emérito) Arlindo Barbeitos Arnaldo Santos Artur Pestana (Pepetela) Boaventura Cardoso Fonseca Wochay Fragata de Morais Garcia Bires Henrique Guerra Irene Guerra Marques João Maiomona João Melo Jofre Rocha 8 | PROCLAMAÇÃO 26 de Setembro a 9 de Outubro de 2016 | Cultura José Luandino Vieira José Luís Mendonça José Mena Abrantes José Octávio Serra Van-Dúnem Lopito Feijó Luís Kandjimbo Manuel dos Santos Lima Maria Eugénia Neto Octaviano Correia Paulo de Carvalho Roderick Nehone Rosário Marcelino Vatomene Kukanda Victor Kajibanga Virgílio Coelho


ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO PLANO DE ACÇÃO 2016-2020 • Administração, Finanças e Património 1.Elaborar a proposta de orçamento para o biénio 2016-2017 a ser submetida à aprovação da Assembleia Geral Extraordinária da AAL. 2.Criar condições materiais para a instalação da AAL na sua sede provisória. 2.Encetar contactos com institui- ções públicas e privadas tendo em vista a obtenção de apoios para aquisição de um imóvel destinado a sede da AAL. 3.Criar a Comissão Ad-Hoc que se ocupará da atribuição de nomes às cadeiras vitalícias e definição dos crité- rios para a sua ocupação. 4.Negociar com empresas públicas e privadas que venham a ser propostas como membros beneméritos da AAL. 5.Iniciar diligências com instituições competentes do Executivo para aquisi- ção do estatuto de utilidade pública. 6. Elaborar Regulamentos de Funcionamento da AAL. • Investigação Científica 1.Criar a Comissão Ad-Hoc que se vai encarregar da abertura do concurso curricular para a composição do Conselho Científico da AAL. 2.Designar os candidatos admitidos no âmbito do concurso realizado para a composição do Conselho Científico da AAL. 3. Elaborar o plano de investigação científica da AAL 4.Criar Comissões de Trabalho tendo em vista a realização dos seguintes projectos: a)Estudos sobre a Variedade Angolana do Português; b)História da Literatura Angolana; c)Vocabulários Temáticos e Terminologia das Línguas Nacionais. 5. Apresentar a posição da AAL sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. • Actividades Culturais 1.Assinar acordos de colaboração com os Ministérios da Educação e Ensino Superior. 2.Promover palestras e conferências em colaboração com escolas do ensino secundário e universidades. 3.Promover cursos de Introdução ao Conhecimento da Cultura Angolana destinado a estrangeiros e público interessado. 4.Realizar um colóquio internacional sobre o Ensino da Literatura Angolana e a Formação do Cânone Literário em Angola. • Publicações e Comunicação 1.Editar obras fac-similadas e reeditar obras clássicas de autores do sé- culo XIX e XX. 2.Instituir prémios e concursos para a divulgação da Literatura Angolana, das Línguas Nacionais e Estudos Sociais angolanos. 3.Publicar o boletim da AAL. 4.Negociar com as estações de rádio e televisão para a criação de programas específicos de divulgação e abordagem científica da Literatura Angolana, das Línguas Nacionais, da Língua Portuguesa e dos Estudos Sociais angolanos. • Relações Internacionais 1.Realizar diligências junto das Embaixadas e Missões Diplomáticas acreditadas em Angola tendo em conta necessidade de divulgar a visão e objectivos da AAL. 2.Desenvolver acções de coopera- ção internacional com Academias de Letras de outros países. 3.Estabelecer contactos com a Academia de Ciências de Lisboa, a Academia Sul-Africana para Ciência e Arte e a Academia Ganense de Artes e Ciências de modo a interceder a favor da AAL para efeitos de admissão na União Académica Internacional (UAI) como membro efectivo. 4.Integrar a AAL na União Académica Internacional (UAI), por ocasião da sua 89ª Assembleia Geral, que terá lugar no Japão em Outubro de 2017.
ÓRGÃOS SOCIAIS DA AAL ASSEMBLEIA GERAL
1- Presidente da Mesa da Assembleia Geral - Pepetela 2- Vice - Presidente da Mesa da Assembleia Geral - João Melo 3- Secretário da Mesa da Assembleia Geral - José Luís Mendonça

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO 1 - Presidente - Boaventura Cardoso 2 - Vice-Presidente - Luís Kandjimbo 3 - Vogal - Rosário Marcelino

CONSELHO CIENTÍFICO 1 - Presidente - Paulo de Carvalho CONSELHO FISCAL 1 - Presidente - Henrique Guerra 2 - Secretário - Almerindo Jaka Jamba 3 - Relator - António Quino Tomada de posse de Almerindo Jaka Jamba a membro do Conselho de Administração da AAL António Quino, Jaka Jamba, Henrique Guerra, Paulo de Carvalho, Rosário Marcelino, Luís Kandjimbo, Boaventura Cardoso, João Melo, J. L. Mendonça


ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS ESTATUTO (Extractos)
10| PERFIL E MISSÃO 26 de Setembro a 9 de Outubro de 2016 | Cultura

CAPÍTULO I Disposições Gerais
ARTIGO 1.o (Denominação e natureza jurídica) 1. A associação denomina-se Academia Angolana de Letras, abreviadamente A.A.L.. 2. A AAL é uma associação privada sem fins lucrativos, de carácter cultural e científico, que goza de personalidade jurídica e autonomia administrativa e financeira.

ARTIGO 2.o (Âmbito e sede) A AAL é uma associação de âmbito nacional e tem a sua sede em Luanda, no Município da Ingombota, na Avenida Ho-Chi-Min, Largo das Escolas, 1.º de Maio, caixa postal n.º 2767, podendo abrir representações dentro e fora do território angolano.

ARTIGO 3.o (Duração) A AAL tem a sua duração por tempo indeterminado.

ARTIGO 4.o (Fim social) A AAL visa o interesse público e tem por finalidade o estudo e a investiga- ção da literatura angolana, da língua portuguesa, das línguas nacionais, e das disciplinas correlatas.

ARTIGO 5.º (Objectivos) A Academia Angolana de Letras tem os seguintes objectivos: a) Promover e divulgar o estudo da literatura e das letras angolanas; b) Promover o estudo da língua portuguesa e das línguas nacionais; c) Constituir colectâneas, antologias e promover edições de obra completa; d) Promover o estudo das obras de escritores e investigadores angolanos nas universidades, bem como nos centros de estudos especializados; e) Promover conferências nacionais e internacionais sobre a literatura, livro, línguas, património cultural, conhecimento tradicional e demais assuntos de interesse cultural; f) Assegurar o respeito pelos direitos autorais.

ARTIGO 6.º (Modo de representação) A AAL é representada perante terceiros pelo seu Presidente ou por quem este delegar, nos termos do artigo 167.º do Código Civil e da Lei das Associa- ções Privadas.

ARTIGO 7.º (Patrono da Academia Angolana de Letras) O primeiro Presidente da República de Angola, Dr. António Agostinho Neto, é o patrono da Academia Angolana de Letras ao qual, nos termos do presente Estatuto, é atribuída a Cadeira Perpétua n.º 1, bem como a gravação do seu nome na referida cadeira, como homenagem à sua elevada distinção como escritor e homem de cultura.

ARTIGO 8.º (Presidente de Honra) A Academia Angolana de Letras pode, por deliberação da Assembleia Geral, designar um Presidente de Honra. Foto de família dos membros da Academia Angolana de Letras e convidados à gala de proclamação Cultura | 26 de Setembro a 9 de Outubro de 2016 PERFIL E MISSÃO | 11 CAPÍTULO II Dos membros

ARTIGO 9.º (Categorias de Membros) 1. A Academia admite, com reserva, as seguintes categorias de membros: fundadores, efectivos e beneméritos. 2. São membros fundadores os escritores e investigadores angolanos que subscrevam o acto constitutivo da AAL. 3. São membros efectivos da Academia Angolana de Letras os escritores e investigadores angolanos que preencham os requisitos previstos no presente estatuto. 4. São membros beneméritos as personalidades, organismos ou entidades, públicas ou privadas, nacionais ou estrangeiras, que apoiem ou prestem serviços relevantes à AAL. 5. A Academia admite colaboradores com a categoria de correspondentes. 6. Aos correspondentes aplicam-se os requisitos dos membros efectivos, à excepção da nacionalidade.

ARTIGO 9.º (Requisitos de admissão de membros efectivos) 1. São admitidos como membros efectivos da Academia Angolana de Letras, os escritores e investigadores angolanos que preencham pelo menos dois dos seguintes requisitos: a) Ter obra como objecto de estudo em universidades angolanas e estrangeiras; b) Ter ganho prémios literários ou de investigação em Angola ou no estrangeiro; c) Ter obras que tenham sido objecto de ensaios por especialistas em literaturas africanas de língua portuguesa. 2. Os candidatos a membros devem ser cidadãos com idoneidade comprovada, responsáveis e capazes de contribuírem para a realização dos objectivos da AAL e para a execução dos seus programas. 3. A admissão de membros obedece ao regime de apresentação de candidatura do interessado, que é analisada pela Comissão Ad-Hoc e aprovada pela Assembleia Geral. 4. Os candidatos a membros da AAL devem instruir o pedido de admissão com, pelo menos, cinco (5) subscrições de membros. 5. A avaliação e admissão ou recusa são fundamentados em critérios definidos no n.º1 do presente Artigo, e nos demais ligados à carreira científica, literária, perfil profissional, idoneidade e prestígio. 6. As vagas existentes obedecem ao princípio do numerus clausus e são preenchidas por eleição, mediante escrutínio secreto e directo. 7. O Presidente do Conselho de Administração designa, após consulta ao Presidente da Mesa de Assembleia-Geral, a Comissão Ad-hoc encarregue de analisar as propostas de admissão de membros. 8. A AAL é constituída por 43 membros, dos quais 42 membros são efectivos e um é o Patrono da Academia.

ARTIGO 10.º (Direitos dos membros) 1. Os membros da AAL têm direito: a) A tomar parte ou fazerem-se representar nas Assembleias Gerais, com direito a voto; b) A ser eleitos para os cargos sociais e a fazer parte das Comissões de Trabalho; c) A participar em todas as actividades organizadas pela AAL, de acordo com as modalidades e critérios estabelecidos pelo Conselho de Administra- ção , no âmbito das suas atribuições e competências; d) A solicitar informações sobre todas as actividades da Academia, bem como o acesso a toda a documentação; e) A usufruir de todas as regalias, benefícios e incentivos que a AAL conceda aos seus membros. 2. Aos membros fundadores e aos membros efectivos é assegurado o direito de vínculo perpétuo com a AAL, o qual só é extinto por resignação ou por morte do membro.

ARTIGO 11.º (Deveres dos membros) Os membros da Academia devem: a) Assumir plenamente a sua condição de intelectuais, intervindo na produção literária e investigação científica, bem como na participação noutras actividades de carácter cultural ou científico; b) Respeitar os Estatutos e Regulamentos, elevando o prestígio e progresso da Academia; c) Desempenhar os cargos sociais para os quais forem eleitos na AAL; d) Pagar pontualmente as quotas devidas; e) Contribuir para o prestígio da Academia com estudos e publicações e conferências.

ARTIGO 12.º (Atribuição de cadeiras da AAL) 1. Cada cadeira da Academia Angolana de Letras tem inscrito, com carácter perpétuo, o nome de um escritor ou investigador com obra eminente e reconhecida pelo contributo dado à criação e desenvolvimento da literatura, ciência e cultura angolanas. 2. Os nomes para as cadeiras e a definição de critérios para a ocupação e substituição de cadeiras vitalícias são escolhidos por uma Comissão Ad-Hoc constituída pelos membros eleitos da Mesa da Assembleia Geral, Conselho de Administração e Conselho Fiscal. 3. As cadeiras são ocupadas pelos membros de modo permanente, caso não se verifique nenhuma das situações de extinção da relação jurídica, sendo este direito intransmissível e imprescritível. 4. Os nomes são dados às cadeiras em função do número de membros que forem integrando a AAL, até se completarem os 43 nomes de membros efectivos. 5. As cadeiras destinadas aos membros efectivos da Academia de Angolana de Letras têm inscritos os números dois até ao número 43, de acordo as vagas existentes.

CAPÍTULO III Dos Órgãos Sociais

ARTIGO 13.º (Estrutura) 1. São órgãos sociais da AAL: a) Assembleia Geral; b) Conselho de Administração; c) Conselho Fiscal. 2. Os membros dos órgãos sociais da AAL devem observar o dever de lealdade no cumprimento dos seus deveres, devendo agir com diligência e assegurar o cumprimento da lei e dos Estatutos. 3. Os membros da Assembleia Geral exercem as suas tarefas nos termos do Regulamento Interno da AAL, não sendo remunerados pela sua actividade. 4. O exercício de cargos no Conselho de Administração e Conselho Fiscal da Academia é remunerado, de acordo com subsídio aprovado pela Assembleia Geral. ARTIGO

14.º Mandatos 1. Os titulares dos órgãos da AAL são eleitos para mandatos com a dura- ção de quatro anos, a contar da data da tomada de posse. 2. Os titulares dos órgãos sociais da AAL não podem ser eleitos para o mesmo órgão por mais de dois mandatos consecutivos.

(...) ARTIGO 34.º (Dos símbolos) A AAL tem um emblema, uma sigla, um brasão, indumentária e uma bandeira aprovados pela Assembleia Geral.

ARTIGO 35.º (Transformação e alteração da natureza jurídica) 1. A AAL pode alterar a sua natureza jurídica para um modelo de funda- ção se esta forma de organização institucional se revelar a mais consentânea para a prossecução do seu fim social e objectivos. 2. A deliberação de transformação da AAL deve ser aprovada por mais de dois terços dos membros reunidos em Assembleia Geral.

ARTIGO 36.º (Disposições transitórias) O regime de admissão de membro obedece ao seguinte processo: a) Com a proclamação da AAL são admitidos os membros fundadores; b) Com a tomada de posse dos órgãos sociais são admitidas novas candidaturas a membros. (...)

UM PROCESSO PENSADO CONSENSUAL E TRANSPARENTE
Aos 2 de Julho de 2013, na sede da União dos Escritores Angolanos, teve lugar a primeira Reunião Alargada para apresentação e discussão da ideia de criação de uma academia angolana de letras, sob a iniciativa dos escritores Adriano Botelho de Vasconcelos, Boaventura Cardoso e João Melo. A reunião contou com a presença de membros fundadores da U.E.A., de alguns escritores convidados e do jurista Aguinaldo Cristóvão. Após apresentação da ideia pelo confrade Boaventura Cardoso, foram abordadas as seguintes questões: . Designação da instituição: ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS, abreviadamente A.A.L; . Objectivos; . Patrono da Academia; . Critérios de admissão; . Ingressos a título póstumo; . Número de Cadeiras; . Estrutura da Direcção; . Número de mandatos; . Processo eleitoral; . Estatuto da Academia; . Acto de fundação da Academia. Na referida reunião foi decidido, entre outros: 1) que António Agostinho Neto seria o Patrono da Academia; 2) que seriam convidados para membros fundadores da Academia todos os membros fundadores da União dos Escritores Angolanos, assim como os escritores angolanos cujas obras sejam objecto de estudos sistemá- ticos em universidades ou que tenham sido distinguidos com prémios nacionais ou internacionais; 3) que a Academia teria 42 membros, podendo ter correspondentes no estrangeiro; e 4) que a Academia deveria consagrar-se, para além das letras angolanas, ao estudo da língua portuguesa e à promoção e preservação das línguas nacionais. Finalmente, os escritores presentes concordaram com a proposta de composição da Comissão Instaladora da Academia, integrada pelos confrades Adriano Botelho de Vasconcelos, Boaventura Cardoso e João Melo. Mais tarde, a 17 de Junho de 2014, o escritor Pepetela foi integrado igualmente à Comissão Instaladora, devido à ausência prolongada do país do escritor João Melo, por motivos de força maior. Tratando-se da primeira reunião, foi consenso que todas as questões abordadas deverão ser amadurecidas. Assim, foram realizadas, de 2013 até este ano, 24 reuniões da Comissão Instaladora e 22 reuniões alargadas de membros, cujo resultado está reflectido e expresso nos termos a subscrever na cerimónia de hoje. Entre as inúmeras decisões ao longo do processo constitutivo da Academia Angolana de Letras, destacam-se as seguintes: 1. Alguns investigadores das Ciências Humanas e Sociais deveriam integrar a Academia como subscritores da sua Proclamação; 2. A Cadeira de António Agostinho Neto deverá permanecer sempre vaga, pelo que a Academia passaria a abranger 43 Cadeiras, em vez das 42 sugeridas inicialmente; 3. Em relação às Cadeiras, exceptuando o caso de Agostinho Neto, a sua distribuição deverá ser oportunamente analisada pelos órgãos competentes da Academia, estudando-se a possibilidade de atribuição de Cadeiras a precursores da Literatura Angolana, como Cordeiro da Mata e António de Assis Júnior, bem como a outras figuras de gerações posteriores, como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz e António Jacinto. A Comissão Instaladora convidou todos os membros fundadores da União de Escritores Angolanos, assim como os autores angolanos premiados e estudados nas diferentes universidades, a fazerem parte da Academia Angolana de Letras. Alguns deles declinaram o convite que lhes foi formulado, decisão estritamente pessoal que nos cumpre respeitar, embora com pena. No dia 28 de Março de 2016, o Estatuto da Academia Angolana de Letras foi publicado em Diário da República. No dia 23 de Junho de 2016, foram aprovados, em Reunião Alargada, o texto da Proclamação e o Manifesto da Academia Angolana de Letras. No dia 3 de Setembro de 2016, foram eleitos os órgãos sociais da Academia Angolana de Letras, que deverão tomar posse nesta data. A Comissão Instaladora dirigiu correspondência ao Senhor Presidente da República; a todos os futuros Membros da Academia; aos Ministérios da Educação, da Cultura, do Ensino Superior e ao da Justiça e dos Direitos Humanos; a várias empresas, tendo encetado contactos directos com as Direcções de algumas delas; às Embaixadas de Portugal, do Brasil, de Cabo-Verde, de Cuba e de Espanha. As dificuldades encontradas decorreram todas da falta de verbas. Escuso de dizer, entretanto, que nenhuma dificuldade impedirá os criadores angolanos de continuarem a sonhar. Estamos confiantes que melhores dias virão para todos. Afinal, e como nos ensinou o Poeta, é preciso “criar / criar com os olhos secos”. A Comissão Instaladora agradece, penhoradamente, à U. E. A., por todo o apoio material e financeiro dispensado ao projecto de constituição da A.A.L., sem o qual não teria sido possível, sequer, o funcionamento do seu Secretariado Executivo. Agradecemos igualmente, ao Dr. Aguinaldo Cristóvão pela total disponibilidade, empenho e dedicação à elaboração dos Termos de Referência e dos Estatutos, assim como ao artista plástico Horácio Dá Mesquita, pela elaboração do logotipo e de outro material gráfico da nossa Academia. Uma palavra final – profundamente agradecida e comovida – para o Memorial Agostinho Neto, que gentilmente acedeu em realizar este acto simbólico nas suas instalações, erguidas em memória do Fundador da Nação, primeiro presidente da República Popular de Angola e Patrono da Academia Angolana de Letras. Feito em Luanda, aos 15 de Setembro de 2016 João Melo


MENSAGEM DE SAUDAÇÃO DO SECRETÁRIO-GERAL DA UNIÃO DOS ESCRITORES ANGOLANOS À PROCLAMAÇÃO DA ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS MENSAGEM DA ACADEMIA DELLA CRUSCA LIDA PELO EMBAIXADOR CLAÚDIO MISCIA

Em 1948, um grupo de intelectuais que viria a integrar a chamada Gera- ção de 50, criam o primeiro movimento literário dos naturais da terra, o Movimento dos Jovens Intelectuais, enquadrados na Associação dos Naturais de Angola, e fundam o jornal MENSAGEM com o intuito de "marcar o início de uma nova cultura, de e para Angola, fundamentalmente angolana". O sonho destes escritores, dentre os quais se destacaram Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto e Mário Pinto de Andrade foi decepado dois anos depois pelo regime colonial vigente. Em 1975, após uma luta sem tré- guas contra o colonialismo, Angola alcançava a Independência e, em 10 de Dezembro de 1975, era proclamada a União dos Escritores Angolanos. Sessenta anos depois do encontro dos Novos Intelectuais e quarenta e um anos desde a fundação da UEA, reúnem-se hoje no Memorial António Agostinho Neto os representantes da geração da guerrilha e das gerações que deles herdaram os ideais de emancipação e afirmação cultural da Geração de 50, à sombra libertária da nossa bandeira para fundar a Academia Angolana de Letras. É nosso desejo que a Academia Angolana de Letras continue a representar o símbolo da dignidade e do prestí- gio das mulheres e dos homens das Letras angolanas. Perante a África e o Mundo como uma emanação histórica e uma concretização diferida do sonho dos precursores da Literatura e dos Estudos Sociais Angolanos, dentre os quais se destacaram José da Silva Maia Ferreira, António de Assis Júnior, Cordeiro da Mata, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Alda Lara, Mário Pinto de Andrade, António Jacinto, Mário Antó- nio e muitos outros. Nesta hora sublime, na qualidade de secretário-geral da União dos Escritores Angolanos saúdo hoje o surgimento deste organismo sócio-cultural, com o qual já criou laços de estreita cooperação, num espírito de franca ajuda mútua. Reitero o meu incondicional apoio à missão que a Academia Angolana de Letras se propôs e auguro êxitos no seu esforço intelectual com vista a fortalecer o papel do patrimó- nio literário nacional na promoção da paz e da reconciliação nacional. Cordiais saudações. Luanda, aos 14 de Setembro de 2016 O Secretário-geral António Francisco Luís do Carmo Neto

MENSAGEM DA ACADEMIA DELLA CRUSCA LIDA PELO EMBAIXADOR CLAÚDIO MISCIA

Em 1948, um grupo de intelectuais que viria a integrar a chamada Geração de 50, criam o primeiro movimento literário dos naturais da terra, o Movimento dos Jovens Intelectuais, enquadrados na Associação dos Naturais de Angola, e fundam o jornal MENSAGEM com o intuito de "marcar o início de uma nova cultura, de e para Angola, fundamentalmente angolana". O sonho destes escritores, dentre os quais se destacaram Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto e Mário Pinto de Andrade foi decepado dois anos depois pelo regime colonial vigente. Em 1975, após uma luta sem tré- guas contra o colonialismo, Angola alcançava a Independência e, em 10 de Dezembro de 1975, era proclamada a União dos Escritores Angolanos. Sessenta anos depois do encontro dos Novos Intelectuais e quarenta e um anos desde a fundação da UEA, reúnem-se hoje no Memorial António Agostinho Neto os representantes da geração da guerrilha e das gerações que deles herdaram os ideais de emancipação e afirmação cultural da Geração de 50, à sombra libertária da nossa bandeira para fundar a Academia Angolana de Letras. É nosso desejo que a Academia Angolana de Letras continue a representar o símbolo da dignidade e do prestí- gio das mulheres e dos homens das Letras angolanas. Perante a África e o Mundo como uma emanação histórica e uma concretização diferida do sonho dos precursores da Literatura e dos Estudos Sociais Angolanos, dentre os quais se destacaram José da Silva Maia Ferreira, António de Assis Júnior, Cordeiro da Mata, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Alda Lara, Mário Pinto de Andrade, António Jacinto, Mário Antó- nio e muitos outros. Nesta hora sublime, na qualidade de secretário-geral da União dos Escritores Angolanos saúdo hoje o surgimento deste organismo sócio-cultural, com o qual já criou laços de estreita cooperação, num espírito de franca ajuda mútua. Reitero o meu incondicional apoio à missão que a Academia Angolana de Letras se propôs e auguro êxitos no seu esforço intelectual com vista a fortalecer o papel do patrimó- nio literário nacional na promoção da paz e da reconciliação nacional. Cordiais saudações. Luanda, aos 14 de Setembro de 2016 O Secretário-geral António Francisco Luís do Carmo Neto Muito obrigado! Cumpro o dever de dirigir-me a vocês com a mensagem que foi escrita pelo presidente da Accademia della Crusca, que em português pode ser entendida como a “academia do farelo”, interpretando deste modo a ideia de dividir o farelo ou o trigo bom do mau, no sentido de quer dizer manter a língua pura, esclarece o embaixador de Itália em Angola, que em seguida lê a mensagem de Cláudio Marazzini, presidente da referida academia: “Ilustre doutor Boaventura Cardoso, estimo em nome da Accademia della Crusca e no meu pessoal, os mais calorosos agradecimentos e felicitações pela inauguração da Academia Angolana de Letras. Estou certo que não faltarão ocasiões de profícua colaboração cultural entre as nossas academias, e considero que a Itália possa e deve encarar com agradado a abertura da vossa prestigiosa academia”.

CORSINO TOLENTINO TROUXE UM ABRAÇO DA ACADEMIA DE LETRAS DE CABO-VERDE

Magníficos membros da Academia Angolana de Letras e distinta ministra da Cultura, Carolina Cerqueira. Foi-me pedido pela Academia Cabo-verdiana de Letras de vos transmitir um abraço cabo-verdiano de todos aqueles que vos têm no coração. Além disso, queria sublinhar a coincidência de estarmos a participar em Angola num congresso organizado pela Universidade Católica de Angola, sobre a Língua Portuguesa e a Internacionalização do Ensino. É uma linda coincidência, dado que termina no dia da proclamação da Academia Angolana de Letras, 15 de Setembro", sublinha o escritor e nacionalista cabo-verdiano. Nas sucinta mas calorosa intervenção, fez também saber: "Como saberão, daquilo que se ouviu no manifesto sobre a missão da Academia Angolana de Letras, ela desempenhará um papel muito importante, não apenas enquanto organização da sociedade civil mas também como parceira do governo e das universidades e de todas entidades interessadas no desenvolvimento da cultura e do uso da língua portuguesa. Devo dizer, e muito rapidamente, que tenho muito prazer e honra de estar aqui e encontra-vos. Saibam que influenciaram muito, e continuam a influenciar a minha atitude, o meu comportamento e a minha capacidade de trabalhar. Porquê? Porque sonham. Sonham os nossos países. Sonham na língua comum: a Língua Portuguesa, com as particularidades necessá- rias. E fazem da realidade este encontro entre o sonho e o dia-a-dia. É por isso que farei chegar a mensagem à Academia Cabo-verdiana de Letras, a ser sabido pela doutora Vera Duarte, que é a presidente, que sucedeu uma pessoa que vos foi muito querida, que é Corsino Fortes. Então director geral da Fundação Calouste Gulbenkian e membro fundador da Academia das Ciências e Humanidades de Cabo-Verde, Corsino Tolentino terminou agradecendo pela oportunidade de partilhar e assistir a este acto, e desejou igualmente muita felicidade na realização dos sonhos e objectivos desta academia que seguramente defenderá os mais profundos interesses das línguas e culturas angolanas e africanas, em geral.

INSTITUTO INTERNACIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA ABERTO À COOPERAÇÃO COM A ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS

Presente no acto de proclamação da Academia Angolana de Letras, Marisa Mendonça, directora executiva do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, reagiu ao nascimento desta importante instituição mostrando-se interessada em colaborar com a Academia Angolana de Letras, tal como o seu instituto tem vindo a fazer com a Academia de Letras de Cabo-Verde, reforçando que o Instituto Internacional da Língua Portuguesa está sediado na cidade da Praia, ao que fortalece mais ainda os laços culturais entre os dois países e se estende uma ponte para melhor percepção do pacote cultural, a nível da língua e literatura, dos países africanos de língua portuguesa. "Penso que juntos, no que toca a trabalhos, tornar-nos-á muito mais forte e poderemos levantar com maior assiduidade casos que se levantam em cada região falante da língua portuguesa. Somos uma instituição absolutamente abertas à cooperação. As academias de Letras têm missões muito específicas, e complementam aquilo que é o trabalho e objecto de estudo do Instituto Internacional de Língua Portuguesa. As academias de Letras atingem também públicos diferenciados que muitas vezes nós como instituto não conseguimos, de maneira que - para a promoção da língua portuguesa, que é a todos os níveis uma entidade diversa, dado que temos uma língua mas de várias vozes - é um passo muito importante. Cada um destes paí- ses tem uma variedade diferente da Língua Portuguesa. Por estes motivos, estamos totalmente abertos em trabalhar com a Academia Angolana de Letras, que pode dar contribuições incontornáveis a ver com questões de fundo sobre os estudos da Língua Portuguesa e em língua portuguesa". Do desenvolvimento gradual da língua e a da presença/interferência das línguas nacionais, garante estar certa de que a língua, do ponto de vista sociolinguístico, acompanha e sofre as transformações das sociedades, sendo que a ní- vel lexical, que são as entidades que mais mudam numa língua, mereceu um projecto que contempla já os vocabulários de Moçambique, Brasil e Cabo-verde. analisa a directora: "Verificamos que em diferentes países o empréstimo é verificado com frequência. As línguas nacionais emprestam, de acordo com a realidade linguística das localidades, palavras ao português, como em alguns casos vemos também línguas nacionais pulverizadas de palavras em português. Em Moçambique como em Angola são maioria linguística bantu, e estes termos funcionam na língua com acentuado pragmatismo. Não podemos crer que a língua que se falava há um século seja a mesmíssima que se fale agora, para além de que temos nos PALOP esta apropriação das línguas, entre a Língua Portuguesa e as línguas bantu, como processo natural da evolução sociolinguística". 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

FUNDAÇÃO DA ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS

DECORREU ONTEM, DIA 15 DE SETEMBRO DE 2016, ÀS 16.00 HORAS, NO MEMORIAL AGOSTINHO NETO, A PROCLAMAÇÃO DA ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS E A TOMADA DE POSSE DOS SEUS CORPOS GERENTES E DOS ACADÉMICOS, ESTES PERFAZENDO UM TOTAL DE 43, SENDO A CADEIRA NÚMERO UM DEDICADA AO SEU PATRONO À PERPETUIDADE, O DR. ANTÓNIO AGOSTINHO NETO, POETA E FUNDADOR DA NAÇÃO.


quinta-feira, 12 de maio de 2016

LITERATURA NACIONAL


 MANIFESTO DO MOVIMENTO
“VAMOS DESCOBRIR ANGOLA”

1. Em 1948, alguns escritores angolanos, tendo como figuras de proa Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto e Mário Pinto de Andrade criam o primeiro movimento literário dos naturais da terra, o Movimento dos Jovens Intelectuais. Esse grupo de intelectuais que viria a integrar a chamada Geração de 50, enquadrados na Associação dos Naturais de Angola, publica a primeira colectânea de poesia angolana, o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Também editaram o jornal MENSAGEM (Luanda, 1951-1952), com o intuito de "marcar o início de uma nova cultura, de e para Angola, fundamentalmente angolana". Este primeiro movimento cultural que surgiu em Angola adoptou o lema: “VAMOS DESCOBRIR ANGOLA”, que “incitava os jovens a redescobrir Angola em todos os seus aspectos através de um trabalho colectivo e organizado; solicitava o estudo das correntes culturais estrangeiras, mas com a finalidade de reflectir e nacionalizar suas criações positivas; exigia a expressão dos interesses populares e da autêntica natureza africana, mas sem que se fizesse nenhuma concessão a avidez do exotismo colonialista. Tudo isto deveria basear-se no sentido estético, na inteligência, na vontade e na razão africanas".

2. Apesar da coragem e determinação deste grupo de intelectuais, sob o domínio da potência colonial portuguesa, MENSAGEM contou apenas com dois números, pois recebeu um veto do Governo-Geral de então, constituindo este revés um profundo golpe no iluminado propósito da Geração de 50.

3. No dia 11 de Novembro de 1975, após uma luta sem tréguas contra o colonialismo, Angola alcançava a Independência. Em 10 de Dezembro de 1975, era proclamada a UEA, com os objectivos de, nomeadamente, “Promover a defesa da cultura angolana como património da Nação; Estimular os trabalhos tendentes a aprofundar o estudo das tradições culturais do povo angolano; Fortalecer os laços com a literatura e as artes dos outros Povos Africanos;
Promoção dos valores culturais nacionais e de todas as conquistas universais”.

4. No 8 de Janeiro de 1979, considerado "Dia da Cultura Nacional", no acto de posse dos novos membros da União dos Escritores Angolanos, Agostinho Neto, sempre imbuído dos pressupostos da Geração de 50, defendia: “(...)  Do ponto de vista cultural, há que analisar. Não adaptar mecanicamente. Há que analisar profundamente a realidade e utilizar os benefícios da técnica estranha, só quando estivermos de posse do património cultural angolano. Desenvolver a cultura não significa submetê-la a outras.”

5. O curso da História da África Contemporânea veio provar que o slogan “Vamos Descobrir Angola” lançado em Luanda, em 1948, era já um prelúdio nacionalista do Renascimento Africano promulgado em 2013, pela União Africana, por ocasião do seu Jubileu de Ouro. Nos dias 22 e 23 de Agosto de 2013, foi lançada, na República do Congo, a Campanha do Renascimento Cultural Africano para os Estados Membros da África Central. A Campanha visou sensibilizar os Estados-Membros da União Africana a ratificar a Carta do Renascimento Cultural Africano e a promover o renascimento cultural africano e o espírito do Pan-Africanismo.
A Carta do Renascimento Cultural Africano, no seu artigo 3º, coloca como um dos objectivos cruciais: “l) dotar os povos africanos de recursos que lhes permitam fazer face à globalização.”

6. É consabido  que as nações mais desenvolvidas conservam sempre um pano de fundo residual cultural, prioritariamente determinado pela língua, mesmo que essas nações sejam feitas de vários povos e nações misturados. Já entre nós, aqui na África Austral, o substrato bantu está a diluir-se a cada década que passa, está a tornar-se obsoleto, e um elemento desse substrato, as línguas locais, está em desuso paulatino.

7. Com a expansão das Tecnologia de Informação e Comunicação (TICs), hoje, no século XXI, o Mundo deixou de ser uma Aldeia Global (numa aldeia, há espaços largos de mobilidade) para se tornar um Apartamento Global, onde a privacidade perde as fronteiras e tudo se sabe sobre todos (Big Brother global).
Se a imediata universalização das tendências da Arte Universal, nos domínios da Literatura, da Música, da Pintura, do Cinema, do Teatro, da Dança, etc., constitui um factor positivo a ter em conta no uso generalizado das TICs, há um aspecto negativo que consiste no facto de que a Globalização, com o apoio das TICs, criou a miragem de que a uniformidade artística pelo padrão ocidental significa modernização. Portanto, há uma desconsideração do fenómeno da Diversidade a favor de uma polarização universal. A cultura dominante anglo-saxónica ampliou a paleta comercial e hoteleira da nossa arquitectura social urbana com denominações inglesas.

8. Como está definido nos princípios fundamentais da política cultural da Carta, no seu Artigo 21º: Os Estados africanos deverão: a) assegurar que as tecnologias de informação e comunicação são utilizadas para promover a cultura africana.”
Foi este precisamente o legado que nos deixou a geração da revista Mensagem para quem “A nova poesia de Angola teria de encarar o ritmo-emoção característico do homem africano; ritmo-emoção esse que lhe era transmitido pela própria natureza em que ele se integrava e com quem vivia em contacto directo e em plena comunhão.”

9. Hoje, a Cultura Angolana apresenta uma diversidade de manifestações muito ricas nos domínios das Artes e das Letras, manifestações essas que representam a síntese estética dos sentimentos e emoções colectivos de todo o Povo, da Alma de uma Nação.

10. Neste contexto, e porque os ideais de emancipação e afirmação cultural da Geração de 50 ficaram cristalizados no crisol da História de Angola, apesar dos seus mentores desaparecerem na curva do tempo, a UEA entende que a sombra protectora e libertária da nossa bandeira confere-nos a mais lídima oportunidade para recuperamos esse rico e inextinguível legado que as gerações dos nacionalistas não puderam concretizar, dada a incontornável repressão colonial.

11. Neste momento de grande transcendência histórica, num contexto de profunda transformação material da sociedade e de modernização do Estado Angolano, a UEA propõe-se resgatar alguns esses valores essenciais do nosso património ancestral, com vista a valorizar o produto cultural e o estatuto do escritor deste tempo.

12. A total liberdade conferida pela Independência de Angola constitui uma oportunidade para o resgate pleno de vários instrumentos ideológicos culturais que nos foram legados pelos nossos ancestrais. A UEA, enquanto legítima herdeira dessa tradição literária, mantém firme a ideia de que a independência de Angola não significa uma ruptura com os ideais do Pan-Africanismo e do Movimento de Libertação. Dentre eles, os que orientaram a fundação do movimento dos Novos Intelectuais de Angola, particularmente o slogan cultural "Vamos Descobrir Angola!", como expressão da nossa maneira africana de sentir, e que Agostinho Neto condensou de forma magistral na sua ode ‘A Voz Igual’, com esta frase lapidar “Reencontrar a África”, e, nos versos sublimes: “a forma e o âmago/ do estilo africano de vida”.

13. Com este ideário histórico-cultural, é possível aos membros da UEA iniciarem um movimento de renascimento artístico-cultural e congregarem em torno dele outros Artistas Angolanos, sob o lema ‘VAMOS DESCOBRIR ANGOLA’ que procurará, com meios e capacidades intelectuais dos seus membros, e por meio da cooperação com o Executivo Angolano e as instituições e organizações angolanas, a União Africana, a UNESCO e os artistas e intelectuais de todo o planeta, iniciar acções com vista a:

a) Retomar e promover os postulados teórico-culturais do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, de 1948, e do seu slogan apócrifo VAMOS DESCOBRIR ANGOLA, no sentido de ‘combater o respeito exagerado pelos valores culturais do Ocidente (muitos dos quais caducos); incitar os jovens artistas e escritores a redescobrir Angola em todos os seus aspectos; estudar as modernas correntes culturais estrangeiras, mas com o fim de repensar e nacionalizar as suas criações positivas e válidas; pautar-se, na obra de arte, por privilegiar a expressão da autêntica natureza africana, com base no senso estético, na inteligência, na vontade e na razão africanas’;
b) fortalecer o papel do património cultural e natural na promoção da paz e da reconciliação nacional;
c) estudar e divulgar os recursos para lidar com a globalização, em particular, o conceito de crescimento qualitativo dos valores éticos e estéticos, dos padrões de convivência, que enriquecem a vida humana e que constituem a esfera ampla da Cultura e dos outros elementos que constituem a ‘ARTE DE VIVER’.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

INKUNA MINHA TERRA



LIVRO PRIMEIRO


JOGO DE XADREZ
Joaquim Katú e Francisco Chindende viram passar um corpo em retorcidaqueda livre. Pareceu-lhes ser o do colega José Benvindo. Aterrados, esperando ouvir a todo instante o baque surdo do corpo a encontrar esfarelado alcatrão, curvaram-se no parapeito da janela. António Keta, sentado à sua secretária, quase foi derrubado pelos colegas que, atordoados, deitaram a correr para o rés- do-chão. Ao perguntarem aos guardas se não tinha caído do quinto andar um corpo, mais precisamente o de José Benvindo, entreolharam se, produzindo um lustroso sorriso cínico e afirmaram não ter visto nem ouvido coisa alguma. Abasbacados, já que tinham sido objecto da mesma alucinação, encetaram soturnamente o caminho de volta, pelas escadas.
“O que foi, o que vos deu?”, indagou Teta, que os aguardava perplexo.
“Nada, não foi nada.”, disse Katú, tentando esconder a ansiedade e a vergonha dos dois. “Não foi nada e saíram daqui a correr, depois de quase me terem atirado para o chão?”,  insistiu Teta.
“O Chindende pensou estarem-lhe a roubar o carro.”, retorquiu Katú para fugir ao assunto.
Pressentindo que mentiam, mas não desejando incomodar-se, com um encolher de ombros, António teta tamborilou oi tampo da secretária.
Chindende e Katú olharam-se, via-se que ainda se interrogavam a eles próprios.
“Bem, já que não é nada, continuem o que estavam a dizer.”, adiantou Teta.
O pequeno gabinete empestava a tabaco. Na parede, por trás da secretaria de António Teta, director para uma das áreas geopolíticas do Ministério do Exterior, a fotografia do presidente da República. Não obstante a larga janela aberta, o calor tornara-se insuportável, porém as pequenas gotas de suor que fluíam pelas faces de Joaquim Katú e de Francisco Chindende, feitas manhã de cacimbo, eram sobretudo de tensão. Pretendiam sondar António Teta sobre melindrosa questão.
O momento político fermentava em expectativas e movimentações de toda a ordem, o partido único havia realizado há pouco o seu congresso, apresentando tanto uma direcção regenerada, quanto uma política reordenada. O facto implicava uma fase de intrigas intestinais visando a promoção pessoal e a ascensão. As lutas desenvolver-se-iam pelos gabinetes do funcionalismo público e da nomenclatura partidária, com o ajuste de contas que houvesse a ajustar. Redondamente quanto possível, política, rácica, tribalmente, de outro modo.
Chindende e Katú apareciam, por opção própria, como afiado gume de catana desbravadora de ínvias picadas, com abnegado ardor e juventude, dado a ascensão pretendida só assim ser alcançada mais de imediato.
Nesta gesta, ninguém quereria ser visto como tendo pertencido a um passado imediato ora comprometido, as ratazanas abandonariam o barco aos então timoneiros para navegarem, doravante, ao leme da jangada, num tortuoso rio chamado deserto.
A lealdade, onde pudesse existir, tingia-se no esmalte da tribo e da família.
Primeira era-se nação, no conceito clássico do clã, e só depois se era país no sentido desejado. O problema é, por isso, não só enxergado como situação essencialmente política, mas, pior ainda, assim vivido.
Joaquim Katú há momentos que girava um cigarro nos dedos, demonstrando um nervosismo inconsciente a António Teta, o mais velho dos três, sentia-se pouco à vontade. Indagava-se sobre o que os ruminantes colegas desejariam.
Coisa boa não devia ser, tanta cautela e conversa branda só era prenúncio de patifaria ou tempestade.
Originário da capital do país, nascera num dos bairros mais populares de Katola, filho de pequeno funcionário dos Correios e Telégrafos e de senhora que frequentara a escola pública até à quarta classe, ambos tementes a Deus.
Graças a este pano de fundo, tivera uma educação esmerada para a época.

Katola de então era um burgo acanhado suando provincianismo, onde a pequena burguesia negra e mestiça formava uma classe,conquanto incipiente.
Foi nessa camada que o nacionalismo fez sobressair os expoentes que, mais tarde, conduziriam a luta de emancipação nacional.
Nas matas, e comissário político, tivera que se impor como nacionalista, ciente de que o factor tribo jamais poderia insinuar-se. Aprendera as línguas locais das diversas regiões político-militares em que actuara, assimilara e respeitara os costumes que não eram os seus.
Décadas depois, tentava-se articular no seu gabinete patifaria que contradizia toda uma filosofia própria, e sentia-se agastado. Já nem recordava as vezes que presenciara casos similares, estigmas que sempre existiram como apelo à emoção, fartando-se de ouvir que os brancos não gostam dos pretos, os pretos não gostam dos mulatos, os Ilungos detestam os Murongos, os Ungos isto, os Ussas aqueloutro.
“Mas nós somos um país africano.”, disse enfático Joaquim Katú, segurando na mão direita o cachimbo apagado e dando continuidade à conversa interrompida há pouco.
“Certo. Agora dá-me é uma definição objectiva do que é ser-se africano. É africano um branco que já é inkunino há gerações, mesmo sem ser daqueles que nasceram e cresceram no mato feitos um qualquer outro preto e que de europeu só tem a cor? E um mulato o que é ele então, euro-africano ou vice- versa? É africano um negro nascido e crescido na Europa, ou Ásia?”
“Quando o Chindende disse que a nossa diplomacia não devia ter um branco à frente, foi uma afirmação geográfica, foi sob esse ponto de vista que concordei.”, soou um pouco em falso, Joaquim Katú.
António Teta acendeu um outro cigarro e atirou o fósforo para o cesto do lixo, falhando o alvo.
“Ao pretender-se que na nossa diplomacia não devam estar, em postos chave, pessoas de epiderme mais clara do que a nossa, é não só um absurdo, uma aberração, como perigoso e uma faca de dois gumes.”, disse, convicto.

Os outros entreolharam-se. Contavam com este tipo de argumentação. Sentiam que Teta não percebera ainda o coração do ser humano e a tendência instintiva para a posse, para a acumulação a qualquer preço, mesmo o da dignidade. Não o interromperam, deixaram-no continuar, já agora desejavam conhecer até onde iria.
Havia alturas em que cogitava sobre o que em realidade germinaria nas mentes dos seus camaradas mais novos? Os valores feneciam num mar de lama? Assim a ser, num futuro não muito distante, o país entraria em crise por se ver esvaziado da autoridade. Sem moralidade não se governa, não se alcança justificar o bem-estar de poucos através da corrupção cada vez mais abrangente. E, em última instância, acreditava que no mais recôndito da indecência, esconder-se-ia, intrinsecamente anichado o reconhecimento e o amor à pátria, que venderiam os caminhos à auto-castração de ego nacional.
Observou Katú a acender o cachimbo e aspirou a nuvem aromática que seespalhara no ar. Pensou que faria bem em deixar de fumar.
“Tudo poderá estar muito certo, mas quando os ministros africanos reúnem e aparece no seio deles um branco a representar um país de África negra, o que sentem?”, insistiu Francisco Chindende.
É uma infantilidade o que acabas de dizer. Essa África nunca existiu na realidade, foi uma África desejada pelos pais das independências, cheia de armadilhas com negritudes e autenticidades. Onde foi parar o pan-africanismo face aos interesses nacionais imediatos dos vários países africanos? Não sei se sabem, no início da luta armada, os brancos inkuninos foram tachados de portugueses progressistas, ou qualquer coisa assim parecida. Pode-se compreender essa análise. O início da luta armada exigia-o. Tu Chindende, embora te consideres um ser evoluído, não te libertas do preconceito social ao qual dás uma matiz rácica. Como camponeses, era mais do que natural que os teus pais sentissem o branco como o sentiam. Branco era branco e ponto final.
Toda via a tua experiência não é essa na sua totalidade. Serás por seres dono de terras, possível e futuro latifundiário?”, retorquiu António Teta alfinetando-o.
De facto, Francisco Chindende era filho de camponeses. Nascera em Kala-Hanga na província de Angulo, conseguira uma bolsa de estudos das igrejas evangélicas e formara-se em ciências políticas. Regressara ao país em 1976,integrando nas fileiras da juventude do movimento de libertação, na área das relações externas, passando mais tarde para o Ministério do Exterior.
Nunca rejeitara a origem nem o passado, todavia sentia-se menos à vontade quando face a urbanos. A ascendência fazia-o sentir-se dono de uma mancha oculta, que em situações específicas, tornava-se visível e incomodativa, como agora, sofria por ter que apresentar a noiva a seus pais. Lucinda era de Katola, de família destribalizada bem enquistada na pequena burguesia administrativa, e estudante universitária. Sentia as pressões por ser sulino, pressões essas muito maiores, pelo motivo inverso, quando a levasse à terra. Sua gente teria extrema dificuldade em aceitar uma jovem do Norte e não uma camponesa, já que as meninas da cidade não representavam os padrões adequados a toda uma vivência rural mais arreigada à tradição, à identidade cultural.
“Eu latifundiário? Deves estar a brincar certamente. A pequena chitaca do meu velho nem deve produzir três sacos de milho!... E o que tem isso a ver com o facto de termos um branco à frente da nossa diplomacia? Aliás, não é só o ministro, e não vale a pena acusar-me de racista.”, contra-atacou, a apalpar terreno escorregadio.
Teta olhou para Katú pensando que Chindende brincasse. O à vontade da afirmação, a irreverência proposita da levaram-no a ver que não. Havia ali uma provocação intencional, esperava-se uma reacção qualquer da sua parte e, de preferência, emocional.
“Mas ó meu caro, se pões a questão nesses parâmetros, é precisamente o que te poderão chamar, por muito de acordo que possam estar contigo”, interrompeu Katú, admirado.
“Certo.”, respondeu Teta, “por muito pouco que tenham sido, quando seguraram a arma na mão para defender o ideal comum, não disseste nada, pois não? Talvez até tenhas pensado, aqui está um desses gajos bem fixe, portanto este, e só este, poderá ter acesso à nossa nacionalidade, quanto à cidadania. Agora que desejas ascender, desejo esse natural, quem não quer ascender, gritas que está no teu caminho e há que removê-lo? E se não estivesse, estarias a gritar que por seres Ungo não vais a sítio nenhum num governo dominado por Ilungos, e sei que não te faria impressão, e até acharias justo, não obstante serem uma minoria, veres um negro presidente dos Estados Unidos. Enquanto os homens não se tratarem por iguais, não haverá harmonia, porque entre o que dizem e o que fazem, existe um mundo de obstáculos medonhos e falsos.”, disse António Teta , atendendo o telefone que tocava.
Aproveitaram a breve pausa para reacenderem cigarros.
Francisco Chindende, que mantivera um sorriso enigmático durante todo este tempo, tornou-se sério e intencionado. Esperou que Teta desligasse o telefone.
“Parece-me que ao quereres ver a árvore, acabas por perder a noção da floresta. E olha que a floresta somos nós.”, disse tão logo que pôde.
A afirmação confirmou a Teta que Chindende tinha um objectivo delineado e que estava a tentá-lo transmitir. O que fazer, abrir o jogo forçando-o de imediato a pôr as cartas na mesa, ou dar-se por desentendido e esperar que fizesse o passe?
“Certo, talvez até assim seja, mas diz-me uma coisa Chindende, será que na floresta todas as árvores são iguais, da mesma família, do mesmo porte, dão os mesmo frutos? Se me disseres que sim, estarei de acordo contigo, ponha-se um ministro negro só pelo facto.”
Joaquim Katúa chava-se sem saber como intervir, tinha que ter cuidado com a atitude. Também considerava haver muitos mulatos e Ilungos no Governo, embora reconhecesse que, no primeiro caso, era uma consequência directa do colonialismo. Quem tivera pai branco acedera com mais facilidade a uma educação formal, portanto, dentro de duas gerações, no máximo, a actual maioria mestiça educada tornar-se-ia numa minoria mestiça educada, pelo simples facto dos números. Todavia, cedo aprendera na vida que a posição mais cómoda, e proveitosa, é a de se esperar e ver para que lado o vento sopra.
O pai fora bola de pingue-pongue às mãos da vida, exactamente por ter tomado sempre posições contra os mais fortes, numa atitude algo missionária e mística. Sem ser político ou politicamente envolvido, deu por si deportado como terrorista, denominação com que se afastava qualquer um.

Katú jurara que nunca lhe aconteceria o mesmo, seria flexível, passaria a bola para onde tivesse que a passar, sem tibieza e com desenvoltura, mas só nessa altura e quando servisse seus interesses. Via no momento uma oportunidade de singrar, de subir de terceiro secretário para segundo, quem sabe até primeiro, caso houvesse a troca de ministros como se tinha por certo.
Adoptaria então uma posição imediata e consequente.
Em Ikuna, quando se toca num branco ou num mulato, os outros gritam logo que é por racismo. Vivem nessa susceptibilidade permanente, não obstante o forte peso económico que comandam, conscientes da sua deficiência política em termos de poder real. Em autocomiseração, lambem então as supostas mutilações e isolam-se em castas.
Talvez fosse aconselhável não se mostrar ainda.
“Ambos argumentos são convincentes, talvez se devesse é deixar o novo possível ministro declarar suas intenções.”, disse por fim para participar.
“Declarar suas intenções?”. Indagou surpreso Chindende. “Claro que não vai declarar intenção alguma. Se não nos aviarmos, vai é deixar tudo na mesma e agarrar-se aos mais velhos aí!”, afirmou, apontando o dedo para António Teta, e rindo como se o que dissera tivesse sido em jeito de brincadeira.
Teta tomou uma decisão quase instintiva, já lhe descobrira o jogo e não desejava ouvir mais.
“Já dei a minha opinião sobre tudo isto, não concordo e não vou meter-me em tramoias seja contra quem for. Mas se saírem-se mal, não me venham contar nada que não vos ajudarei. E aliás, se o que acabo de ouvir não for mais do que uma ideia de mau gosto, avisarei o ministro, poderão ter a certeza.”
Os dois mais jovens entreolharam-se assustados. Teriam jogado pesado demais? Ambos sorriram para desanuviar o momento.
“São unicamente troca de ideias, de opiniões...”, disse Katú.
“Claro!”, afirmou Chindende. “É mera especulação, pressupondo-se que de facto haja a troca de chefias na pasta”. Levantou-se. “Bom, vou andando para a minha secção. Logo se verá...”
De imediato Katú se levantou. Não desejava ficar sozinho, não sabia o que iria sair da boca ou da cabeça de António Teta, não se queria comprometer.
José Benvindo olhava pela janela para o largo fronteiriço. Pela primeira vez sentia-se desprotegido, o facto de ser membro do partido já não lhe oferecia a certeza do agasalho comum. Ao longo dos últimos anos sentira que o que os unira se desintegrava paulatinamente, nos ares dos interesses pessoais. Já não havia tropas portuguesas a combater, o colonialismo fora irradiado. Por isso, talvez já não se sentisse a necessidade de conquistar terreno junto ao povo, neste caso através de uma política justa de distribuição de proventos que a independência trouxera, a cada um a sua parcela. Enfim, comer-se daquela panela que fora comum a muitos durante a longa luta de libertação. Paradoxalmente, nunca sentira o que agora sentia. Afinal, a morte física fora algo mais certo e aceitável, uma possibilidade ou condição nas escolha que fizera.
Pela primeira vez em sua vida olhou para a cor da pele e tomou consciência dela como algo concreto e impeditivo. Nunca lhe acontecera tal, acreditar que a pigmentação alguma vez pudesse ser denominador nos rumos que a vida lhe reservaria, ou na de qualquer outro ser, numa pátria independente e soberana.
José Benvindo nascera em Aíze, filho de um emigrante português, que arribara com seu pai a Inkuna em 1900. Seu avô paterno tornou-se comerciante na capital do país, até que a morte o tolheu em 1925, aos 75 anos. O pai, Filipe Benvindo, sem vocação para o comércio, cedo faliu e meteu-se à aventura rumando para o Congo, então colónia europeia. Sem grande sorte, regressou a Inkuna e instalou-se no norte do país, em Aíze, transportando madeira para a capital. Numa das localidades entre Aíze e Katola, conheceu Maria de Lurdes, uma jovem mulata filha da negra Rita Kauía com o comerciante, também mulato, Abreu Júnior, este por sua vez filho da negra Madia com o comerciante português Abreu. Foi um namoro rápido, as viagens eram longas e não assim tão frequentes, um noivado ainda mais célere e o casamento logo de seguida.
Durante uns anos, até 1943, permaneceu a semitrabalhar para o sogro, altura em que decidiu rumar para Ubanza, uma província cafeícola, e aceitar o cargo de gerente de uma vasta fazenda em Nvula, que pertencia ao Banco de Inkuna, onde permaneceu até à sua morte.
Por essa altura, já José Benvindo se encontrava no exílio. Com o advento da independência integrou o Ministério do Exterior, chefiando uma das áreas geo-políticas.
Bateram à porta e viu Malette Golpes entrar. Com um sorriso e um rápido aceno de mão, sentou-se .
“Oi, tudo bem?”, indagou, Sem esperar resposta, continuou. “Já ouviste as novas? Parece que vamos ter novo ministro, fala-se insistentemente no Tala Ngo. Estamos lixados se assim for.”
Malette Golpes funcionava há cerca de quatro anos na Repartição Consular. Era nativa de Bula-Bula,uma província sulina deInkuna e filha de pais mulatos.
Formara-se em Direito na ex-metrópole colonial e regressara, como a grande maioria, pela independência. Dotada de palavra, mais ou menos nova nas lides político-partidárias, esbanjava teses e teorias dos manuais da revolução.
“Estamos quem?”, perguntou cuidadosamente e fechando a revista que lia.
“Nós, ora quem mais?! A malta aqui vai ser marginalizada, podes apostar.”, disse apontando para a pele do braço.
Benvindo não acreditava que isso fosse acontecer. Sabia que não se podia fazer do mulato o ponteiro do conta quilómetros da viatura, pretendendo-se chegar mais ou menos rápido a este ou aquele ponto, no que toca os diferendos entre raças, o embrião dos mesmos residindo nas diferenças sociais, nos problemas económicos entre classes e não no factor epiderme.
“Até pode ser que tenhas razão, todavia não creio. Olha, o Tala Ngo é uma pessoa menos extrovertida e espontânea, cuidadoso, delicado mesmo e não é tipo para muitas iniciativas pessoais. Quanto à cor, só se deixar-se ser levado.
Já o conheço há muito e nunca o vi ser racista ou manifestar-se como tal. Aliás, com a quantidade de mulatos que tem na família, nunca o poderia ser.”
“Mas como interpretas tu então o que aconteceu no congresso do partido? Os sinais são evidentes, a esquerda foi varrida, a mulatada vai ser varrida.”, precisou, preocupada.
Depois de ligeira pausa, em que não tirou os olhos dos dela, disse: “Mas então vai-se marginalizar a esquerda, e não os mulatos. Poderá haver casos pontuais de ajustes de contas antigas, tudo é possível...”
“Mas é precisamente onde estou a tentar chegar!”, interrompeu Malette vivamente. “Não vês que é mesmo por aí que o gato vai às filhoses? Certamente não irão publicar que tu ou eu não temos por completo a cidadania por sermos mulatos. Vão inventar uma estória qualquer para justificar o gesto, aliás tu, pela tua proximidade e intimidade com o ministros, vais ser o primeiro a ser varrido. E acredita-me, não creio que o novo te vá segurar.”
Benvindo franziu o sobreolho. Também já ouvira esse insinuação.
“Olha Malette, que faz a política é o bureau político, quem a aplica como membro do governo é o ministro, que igualmente é membro do comité central do partido, não sou eu.”
“Isso seria bom se assim fosse. Por onde tens andado?... Doravante vamos ter uma política que nos vai embrenhar no continente, esse será o blá-blá-blá mais imediato e fácil para se justificar o passo dado. Que estávamos muito voltados para a Europa, para os latino-americanos e muito pouco para a África, podes crer que será uma política banto e terá que ter, portanto, um ministro banto à sua frente.”
José Benvindo riu da afirmação. Soara-lhe como uma piada.
“Ministro banto? Claro que vamos te rum ministro banto. O Tala Ngo não o é? Tu e eu não o somos, em matizes diversas? Sabes Malette, ao fazeres tal afirmação, tocas no grande dilema de muitos de nós mulatos. O problema de ser ou não ser banto, seja em que perspectiva se coloque a afirmação, não está presente.”
Malette impacientava-se, parecia querer interromper meneando vigorosamente a cabeça, todavia Benvindo fez que não percebeu e continuou.
“Para além disso, Inkuna é um país negro na sua vasta maioria, e se se fala muitos dos mulatos e da sua apetência pelo poder é por que, sinceramente, a sua presença em cargos a níveis nacionais ultrapassa de longe a sua representação demográfica.”

“Tudo isso é muito bonito, porém não te leva a sítio nenhum. Estás na cidade, e a urbe é a moradia de ratazanas, não de ratinhos campestres bem intencionados e líricos. Não estás farto de ver que, quando cai o ministro, caem os mais próximos?”
“Está bem, caem porque só lá estão para prestar serviços. Não têm nada a ver com função e saber, estão lá para cobrir as negociatas, os assuntos pessoais, fazer as requisições e organizar os cambalachos, ou porque são família ou tribo, não porque técnicos competentes e qualificados. E nos raros casos em que o são, se não encobrem as falcatruas ou começam a denunciar actos de imoralidade administrativa na gestão da coisa pública, ou ainda pelo simples silêncio reprovador ao não desejarem meter-se em determinadas coisas, tornam-se uns empecilhos, inventa-se uma estória e vão para a rua.”
“mas então qual é a diferença? Eu não vou esperar que me façam a cama.”
“É teu direito, desde que para isso não pises ninguém!...”, disse Benvindo, já um pouco agastado com o assunto.
Estava ciente de o que Malette afirmara poder ser uma possibilidade. Parte da argumentação que usara forma mais para se convencer a si próprio, uma espécie de exorcismo do mal. Nada mais restava que nos unisse uma década apenas após o erguer da chama da liberdade? Só os interesses pessoais, as manigâncias, as falcatruas, o aboletamento da coisa pública, o uso e o abuso do poder, só isso nos convergia num número cada vez menor mais ínfimo?
Recusava aceitar que assim fosse.
“Espero que não esteja a exagerar”, respondeu Malette Golpes, “mas caso assim venha a ser, não sentirei pena de ti. Enxerga-te antes que seja tarde, essa maralha não brinca, é real e voraz, se não os acompanhares serás devorado.
Levantou-se, e como entrara, saiu atirando-lhe careta de sorriso.
À noite, quando relatara à mulher, a primeira reacção fora de o querer levar a uma tulula para lhe darem uma lavagem e fecharem-lhe o corpo, impedir qualquer mau-olhado. Teria que ser benzido para que tudo se anulasse.
“Sabes muito bem que eu não acredito nessas coisas.”, disse, cansado.

“Não acreditas, ou finges não acreditar? De qualquer dos modos,não precisas de acreditar para lá ires. Vou falar com a dona Fifi, ela conhece uma velha de fama e depois digo-te qualquer coisa.”
“Por amor de Deus mulher, não me metas em mais assuntos. Já te disse que não quero ir e que nem vou, não se fala mais no assunto.”
A esposa olhou para ele contrita. Derramou-lhe uma lágrima como se pressentisse algum mal.
“Se há problemas, uma pessoa deve proteger-se, nada mais.”, disse semi-resignada.
Benvindo incomodava-se com a conversa, tinha uma posição de superstição que tentava esconder de si mesmo. Sabia que, dentro de um contexto determinado, estas manifestações nada mais eram do que paliativo, um alívio moral para aspectos da vida que de um momento para o outro se modificam sem causa aparente. Fartara-se de ver isso, aliás a mãe, sempre que podia, e às escondidas do marido, chamava ao casarão da fazenda a velha Lumba, para consultas e adivinhações. Ele ainda hoje suspeitava que o pai soubesse e fechasse os olhos.
Naqueles longínquos anos, europeu no mato acabava sempre por africanizar, quer quisesse ou não. Começavam os mulatos a nascer, as famílias negras a aparecer e a impor os usos e costumes, enfim, a cultura banto a contaminar.
Conhecera muitas dessas experiências, não obstante seu pai ser bastante rígido quanto à perda de valores ditos civilizados. Daí o sentir-se culpado, vacilante, quando a esposa, preocupada, no fundo só lhe estendia uma mão carinhosa e protectora.
“Está bem mulher, um desses dias vamos, mas agora não me fales mais no assunto.”, disse, para encontrar uma saída airosa.
Como se previra, efectivamente o ministro do Exterior mudara.
Semanas após, quando teve conhecimento que alguns dos colegas se articulavam para iniciar a caça às bruxas, António Teta achou por bem falar com Tala Ngo, para que não fosse apanhado desprevenido.
O novo ministro era um homem calmo, retraído e, como não podia deixar de ser, antigo na luta emancipalista. Entregara a sua juventude à causa da libertação, singrara dentro das estruturas partidárias, atingindo alto nível na nomenclatura. Era natural de Katola e provinha de família estritamente urbana.
Teta entrou no gabinete e cumprimentou-o. Sentaram-se à volta da mesa de trabalho, sem cinzeiros, já que não fumava.
“Como vão as coisas?”, perguntou Teta. “Trabalho não vai-te faltar...”
“Sabes que conto contigo... disseste-me que querias falar sobre movimentações?... não tenho intenção de mexer nos quadros e nas chefias, anão ser que alguém queria sair.”
“Pois, é sobre isso que te quero falar. Como é hábito na terra quando um ministro sai, quase todos os que trabalham de perto com ele vão à vida. Alegro- me de ver que assim não pensas, até porque mesmo antes da tua vinda, já havia por aí articulações para se varrerem uns tantos clarinhos.”
“ai é? Esta malta é tramada, mas parece não me conhecer, nunca fui racista, e se alguém tiver que ser movimentado não será pela pele. O que se diz por aí então?”, quis saber Tala Ngo.
“Que o ministro cessante caiu por ser mulato, isso já sabes certamente, que portanto os mulatos nas chefias devem ir igualmente, as coisas de sempre.”
Um longo penoso silêncio apossou-se dos dois. Tala Ngo sentiu-se preocupado, situações desta natureza tinham que ser analisadas com todo o cuidado porque, se não controladas, muito poderia acontecer, e logo no início do seu mandato. Na presente questão haveria posições ambíguas e irreconciliáveis, certamente. Uns puxariam para um lado, outros para outro. Levantou-se e circulou pelo gabinete várias vezes.
“E quem está por trás de tudo isso?”, quis saber.
“A coisa ainda é embriónica, não sei bem quem seja o principal articulador.
Uma vez o Katú e o Chindende vieram ao meu gabinete e levantaram a questão.
Estou seguro que o objectivo era sondarem-me, disse-lhes que não estava de acordo e que se fossem avante te avisaria, pensando que com isso deixassem cair o assunto, mas ao que parece assim não foi.”
“É bem possível, são gente nova e vão querer subir rápido. Crês que te contarão novamente?”, perguntou Tala Ngo.
“Não sei. Não te preocupes, manter-te-ei informado.”
O ministro sentiu-se um pouco mais apaziguado e mudaram de assunto.
Entretanto, na casa do Chindende, uns tantos dos novos diplomatas encontraram-se para definir o que fazer, tornava-se imperativo uma acção concreta e a muito curto prazo. A haver que agarrar o boi pelos cornos, teria que ser já, enquanto o ministro saboreava a vitória e elaborava os planos.
“Álea jacta est.”, disse Chindende rindo.
“Deixa-te lá de latinismos e diz-nos o que pensas.”, respondeu um deles.
“O novo ministro terá irremediavelmente que tomar uma decisão e para qualquer lado que se vire está à pega. Para já, há que contar com o factor psicológico e aproveitar-se o momento.”
“Está bem, já sabemos tudo isso...”
“O problema com o Benvindo é que ele também é amigo do novo ministro.
Haverá que gerar uma situação que, pelo menos, crie ou engendre dúvidas no Tala Ngo.”, disse Francisco Chindende, agora sem dúvida em controle dos outros, já relaxados. “José Benvindo não está ligado a família nenhuma influente, o que torna a coisa fácil. Meus senhores, qual é o ponto fraco do ministro?”
“Demasiadamente cauteloso, às vezes parece que têm que o empurrar.”, afirmou Chindende de imediato.
“Qual é o deficit mais evidente do Benvindo nesta conjuntura’”,continuouKibi.
“Ter sido apaniguado do ex-ministro.”, ripostou novamente Chindende.
“Pois então é por aí que se deve armar a ratoeira. Uma vez conseguido, teremos o apoio de todos.”
“Mas como?”, quis saber Chindende. “Nunca se viu ou percebeu o Benvindo como racista, antes pelo contrário, às vezes até parece um preto branco, se é que isso existe!”
“Surpreendes-me pelo desconhecimento da alma dos teus nobres concidadãos. Uma coisa é o que o Benvindo é, outra coisa é o que poderá parecer, e nesta nossa terra temos a vantagem única de sempre caber ao acusado o ónus de provar a sua inocência. Isto aqui não é a Suíça.”
O jovem diplomata que fizera a afirmação, Kibi, sabia do que falava. Anos antes, ele próprio fora acusado de ser contrarrevolucionário pelo simples facto de se recusar a participar nos Sábados Vermelhos. Tinha a certeza de que uma vez a semente da dúvida implantada, Benvindo teria os dias contados como Responsável. O objectivo estava ao alcance, desde que não houvesse traições no grupo, o que acreditava não acontecer.
“Olhem, há dias entendi a Malette Golpes contar à Sala Tirocínio qualquer coisa sobre o ministro, como foi de passagem, não deu para compreender, mas acho que se podia explorar o caso, e se for o que eu penso que seja, temos o nosso peixe fisgado. Quem se dá bem com a Malette?”, indagou Kibi.
“Mas então o que é que pensas?”
“Acho que a conversa teria a ver com um deles ter insinuado que o ministro era banto, ou algo assim parecido.”
Sorriram e acharam que seria bom demais para crer. Certamente que a conversa teria a ver com tudo menos isso, a sorte não poderia estar assim tão obviamente do lado deles. Haveria que ver, inquirir.
“Eu poderei sondar a Malette, temos um relacionamento cordial e, caso seja verdade o que acabas de informar, como é ambiciosa, talvez consiga fazer-lhe ver ganhos imediatos.”, respondeu Chindende.
“Porém é mulata, certamente que não vai deixar cair o parente.”, acautelou um outro.
“A questão não será a de defender o parente, mas sim o que lhe apresentarmos como possibilidade real. Acho que não será difícil, deixem comigo, incluso somos da mesma banda.”, afirmou Chindende.
Pouco mais havia a dizer. O encontro, entre cerveja e gargalhadas, verteu para outras futilidades das vidas banais e agastadas, que Katola permitia.
José Benvindo, em casa, era mais uma vez assediado pela esposa para que se protegesse.
Queria que o marido fosse a uma velha sua conhecida para uma lavagem contra o mau olhado, incluso já arranjara o vinho, a gasosa, a fuba, o amendoim, a mandioca, o milho, o dendém, a cana de açúcar e o pano vermelho para amarrar no braço ou, se por vergonha de revelar que fora ao tulula, no dedo grande do pé direito.
Constrangido, cedeu para evitar arrelias no lar.
No sábado imediato, logo pela manhãzinha, partiram para um dos bairros da periferia de Katola. Uma vez chegados à casa da tulula, compungido, encolheu- se no fundo do assento do carro.
Nunca se perdoaria se alguém o visse naquela situação. Às pressas entrou para o quintal e colocou-se atrás de uma grossa e velha figueira, enquanto a mulher falava com a mestra. Estava vestido de um calção curto e velho, o tronco nu, já que a roupa teria que ficar no chão onde seria lavado com o banho que a idosa mesclaria. A esposa, de igual modo seria tratada.
De longe viu a velha pisar algo num pilão os ingredientes que a esposa trouxera e, mais tarde, virá-los para dentro de um balde de lata. Benvindo viu-a ainda remexer tudo com uma vassoura de palmeira e fazer gestos e cantilenas que não conseguiu perceber, por o quarto onde ela estava se encontrar num semipenumbra e distante da árvore atrás da qual se protegia.
O estômago doía-lhe e só então deu conta do nervosismo que há muito o dominava. Comum olhar de imploração, tentou transmitir a angustia à esposa.
Achava que não se devia brincar com o fogo, todavia agora era tarde para recuar. Já que aquiescera, teria que se entregar. Acabou por sorrir e sentiu-se valente. Olhou pelo lado positivo do medo, consolou-se.
Quando a velha se dirigiu a eles, depois de os ter colocado num canto próprio do quintal onde não pudessem ser observados por estranhos ao ritual, Benvindo sentiu-se muito fraco e recorda-se de ouvir o galo, que escarafunchava no quintal, cantar três vezes antes de desmaiar de ansiedade.
Despertou uns cinco minutos mais tarde, a esposa envergonhada e a velha relutante em fazer-lhe a lavagem, insinuando que precisava de um outro tratamento por estar dominado pelo espírito de um antepassado insatisfeito com algo que ele teria que descobrir. Talvez algum pacto familiar tivesse sido inobservado ou quebrado. Ao ouvir isto, José Benvindo vestiu-se sem demoras, agarrou na esposa, agradeceu à velha e partiu, mais angustiado do que chegara.
“Não devias ter agido dessa maneira. A velha tem razão, o teres desmaiado foi um sinal.”, disse-lhe a esposa no carro.
“Se nos metemos nestas coisas, nunca mais de lá saímos, porque hoje é a lavagem, em seguida o espírito descontente, depois não sei mais o quê!...
Chega, por favor não insistas.”, respondeu meio amargurado.
“Zé, não temos nada a perder. Se pessoas na tua família mantiveram um pacto que não foi cumprido, ou foi quebrado, então como a velha falou, haverá que agir.”
“Minha querida, por favor não insistas. Vamos para casa., o que tive hoje foi uma quebra brusca de tensão, nada mais.”, disse Benvindo, sem muita convicção.
“Está bem, veremos mais tarde. Mas olha, por muito civilizado que querias ser, somos africanos, esta é a realidade que nos rege.”, insistiu a consorte.
“Eu sei que somos africanos, não precisas de mo dizer. Por amor de Deus, estamos a quinze anos do século vinte e um!...”
“E o que quer isso dizer?”
José Benvindo tentava não demonstrar a irritação que sentia. E, por ser abstracta, mais o roía, como o zumbido do mosquito que não larga o ouvido a noite toda. A esposa continuou.
“Somos natureza, plenos de vitalidade que o nosso intelecto embruma, porque a civilização nos ameaça com valores que embora nos sejam hoje próprios nos são alheios e, às vezes, incompreensíveis por fugirem ao ambiente particular da nossa cultura. Esta ideia da aldeia mundial é muito bonita, só que exige um preço elevado.”

Na esquina das ruas ex-Ferreira Nataniel e ex-Namora Santos, o sinaleiro deu prioridade à transversal. De um carro que passava, alguém acenou para eles.
“Por que é que o negro não pode mais ter carapinha”, continuou a esposa, “não mais pode usar panos, por que é que tu não mais podes usar ostensivamente a fita vermelha amarrada  no pulso, ou qualquer outro sinal de harmonia entre o corpo e a alma? Por que não podes aparecer no ministério trajado da África, sem que seja considerado atraso e boçalismo? Estás a tentar dominar o que não podes, a desintegrares-te?”
Desta vez José Benvindo não conseguiu controlar-se, interrompeu zangado.
“A desintegrar-me? Queres dizer que vamos ter que começar a sacrificar pessoas para que a chuva venha, para que o negocio prospere e por aí fora? É isso que referes quando falas da minha desintegração?”
A mulher passou-lhe a mão pela nuca para o acalmar, entendia o que sentia com o ocorrido na velha.
“Claro que não. Falo tão somente da perda do calor humano que todos sofremos com a inversão de valores que nos são alienígenas. As nossas culturas estão asfixiadas. Os contágios culturais não pode de maneira alguma deixar- nos sem raízes, a herança de qualquer povo, e se não as preservamos ou as transformamos de maneira saudável, acontece o que está a acontecer.”
De um contentor aberto, levantou-se uma revoada de moscas quando um maluco colocou a cabeça de fora.
“Quanto cidadão há por aí em Inkuna em que a única coisa que o identifica com o continente é a cor da pele? São considerados africanos por serem negros, nada mais, mesmo que venham da China. Sabes por que é que tu, não obstante seres africano de nascimento e de cultura, és considerado aos olhos de qualquer, de estrangeiro? Precisamente por nos faltar essa base tradicional. Assim, és sinónimo de caravela, algo que veio do mar e de fora.”, continuou a esposa.
Já mais apaziguado, moderou a condução. Afagou a mão da mulher que sorriu, feliz.
“Tens razão, fomos divididos desde o início, confundidos com assimilações e outras coisas, e assim esvaziados ao longo dos séculos.”, disse José Benvindo, afrouxando no semáforo.
“Estás farto de ver gente a relacionar-se, como se fossem negros “negros uns, e negros “pretos” outros, numa incompreensível aberração. É terrível observares esse eterno complexo de culpa, porque no fundo o que se pretende é o realce em termos de classe. Sou melhor do que tu, tenho mais escolaridade ou dinheiro!”
O carro virou para o largo Quilaba no qual desembocava a rua onde os Benvindo moravam. A mulher levantou o vidro da janela e continuou.
“O racismo é uma emoção que pode ser camuflada durante um certo tempo, mas nunca escondida por completo. Verás o racismo numa família observando o comportamento dos filhos e não o dos pais.”, respondeu Benvindo, vendo os filhos sentados no muro da casa, conversando com outras crianças.
“Por isso sentimo-nos Murongos-inkuninos, Ussas-inkuninos, euro- inkuninos,afro-euro-inkuninos, a não ser nos raros casos em que somos campeões africanos disto ou daquilo. Encontramos então a identificação cultural que nos converte imediatamente em nação e gera linguagem identificadora que nos consubstancia como Inkuninos e Africanos.”, rematou a esposa.
“De acordo, mas quem castra as manifestações espontâneas da busca da definição de uma cultura nacional? Os estigmatizados, porque julgam que o poder está na assimilação do que vem de fora. Se eu disser lá no ministérioque fui ver uma tulula, o que me vai acontecer? Por acaso até nem sou, mas se fosse religioso e desejasse ir à missa ou ao culto, que me aconteceria? Sabes que no outro dia uma colega minha ficou ofendida por lhe dizer que deveríamos ter orgulho de sermos bantos?”
“Não nos devemos conformar, Zé. Esses dirigentes que publicamente pretendem ter poucas raízes africanas, em nome de uma ideologia política nascida na Rússia, pensas que não vão aos tululas para protegerem o cargo, as mordomias e as benesses? Pensas que não rezam, que no íntimo não dizem
“Se Deus quiser”, “Graças a Deus”, “Que Deus me ajude ou acuda”, ou ainda “Ai minha Nossa Senhora, se me deres isto eu prometo-te aquilo”?”
“Sei que assim fazem, mas por favor mulher...
“Desculpa, está bem”; deu-lhe um beijo na face e abriu a porta para sair.
Seriam umas dez e meia da manhã quando Francisco Chindende cruzou com Malette Golpes, nos corredores do Ministério do Exterior.
“Olá Malette, como vão as coisas?”, deu uma certa intenção à pergunta e à voz.
“Olá, bom dia. Como vão as coisas? Acho que te caberia dizer, andas por aí todo agitado...”, disse Malette provocando-o.
“De facto, ainda bem que perguntas. Daqui a uns vinte minutos passa na minha secção para concertarmos umas coisitas, enfim, pormos a fofoca em dia”, continuou, no mesmo tom.
“Está bem, puseste-me curiosa. Até já, então.”, acenou com a mão.
Chindende agradeceu aos deuses a ocasião propiciada, tinha desejado não ir à repartição dela, procura-la especificamente. Haveria de ser como fora, ao acaso. A sinceridade que procuraria transmitir seria mais crível se parecesse espontânea. Malette teria que sentir que aparecia como um elemento natural, quase predestinada, uma peça sem a qual o jogo não poderia ser jogado. Conhecia a ambição dela, todavia não sabia até que limites iria. Malette não seria difícil de convencer, e só com a participação dela o estratagema ganharia toda a verosimilidade, com o testemunho dela quem iria duvidar da palavra de um pré-lavado contra outro pré-lavado? Esse seria o maior trunfo e, como tão bem sabia, quem conta um conto, sempre acrescenta um ponto...
O terramoto do Benvindo viria por inércia. Até porque, com dúvidas de poder ser acusado, o ministro refugiar-se-ia no contra-argumento de que se não faço isto ou aquilo é porque estou a proteger o “branco” e, ao desejar que não fosse apodado de racista, contribuiria para que efectivamente o fosse.
Chindende de igual modo estava ciente que logo os poucos brancos do ministério se insurgiriam e diriam que estavam a ser perseguidos, que a terra também era deles e que não tinham culpa de ter nascido com a cor que tinham. Que já tinham dado provas de serem inkuninos e um não se sabe mais o quê.
E,po rfim, igualmente tinha a certeza de que os mulatos não confessariam que muitos eram arrogantes e que se a alienação havia em relação a eles, alguma era derivada de si próprios, do seu complexo de superioridade em relação ao negro, tanto maior quanto fosse o de inferioridade em relação ao branco. Portanto, quem soubesse mover essas peças com denodo, antes de se esfolar eventualmente num tropeção escorregadela, poderia alcançar posições que de outra maneira levar-lhe-iam uma eternidade, porque no fundo, a luta não era racial, era de interesses, sobretudo de classe.
Malette apareceu, ar de desinteressada e à vontade. Chindende, que estava sozinho na secção, fechou a porta e ofereceu-lhe um cigarro.
“Então, cá nos vamos habituando ao novo ministro.”, disse, em forma de cumprimento.
“Vamos ver, ainda é cedo para dizer seja o que for, embora todos os conheçamos. Acho que se tiver o nosso apoio poderá fazer algo de bom.”
“Pois, é mais ou menos disse que te quero falar, o momento exige que pensemos em nós, se esta malta dos antigos ficar nos mesmos lugares ad eternum, onde é que iremos? Há que criar espaços para a nossa evolução natural, o topo tem que abrir ou criará uma pirâmide invertida muito em breve. Os embaixadores não saem do ministério. São políticos que o presidente nomeia, como todos sabemos e vemos. Portanto, minha amiga, há que se fazer algo enquanto é tempo.”, disse Chindende, iscando o anzol.
“A nosso nível, deves estar a gozar comigo?”, respondeu Malette curiosa.
“Não, não estou. Há malta que está nas chefias das direcções políticas há anos só porque lutaram no maquis, e colha como o nosso país está com essa política. Tu e eu somos licenciados.”
“Lá isso é verdade, mas se te apanham a falar assim estás frito, sabes não é?”
“Claro que sei, também não falo assim com qualquer. És alguém com quem me identifico, da nova geração, inteligente, com formação superior e acho que se juntarmos forças poderemos avançar.”, incitou Chindende.
“Mas por que eu?”, desconfiou Malette Golpes.
“Já te expliquei, não há outras razões. Somos uns tantos com a mesma ideia e intenção, e só nos faltava tu para a incorporar.”
“Não conseguirão nada sem mim? Por que sou tão importante no que planejaram?”, continuou, desconfiada.
“Só te posso revelar o plano quando tiver a certeza que podemos contar contigo, que és uma das nossas. Sabemos da tua coragem e ambição, aliás isso
é o que nos une, somos vencedores natos, o mundo é nosso se partirmos à sua conquista. Sei que entendes isso, daí perceber os teus receios, todavia a sorte só bafeja os que tentam e os que ousam...”
Malette perdeu parte da tensão que a dominava e relaxou na cadeira. Ficou silenciosa num longo período de reflexão. Se bem percebera, algo já estava na forja para desancar alguém, agora quantos, onde e quem, ela não sabia.
Igualmente não percebia onde entrava a sua participação e, sobretudo, a valia que imputavam. Feitas as contas, talvez não tivesse nada a perder.
“Ouve lá ó Chindende, põe-te no meu lugar e vê se avançavas às escuras.
Tens que me dizer mais, o que sei é pouco.”, disse Malette.
“Não é que eu pessoalmente duvide de ti Malette, mas prometi aos outros.
Há uns certos fulanos que podem ser retirados das chefias com relativa facilidade, três pelo menos. Agora, o problema está em tirar o primeiro. É aí que precisamos de ti, e não me peças mais porque não te posso contar para além do que já sabes, o que não é pouco.”
Malette tornou a ponderar. Decidiu que se a mosca que estava prestes a ser engolida por uma osga na parede, efectivamente o fosse, ela aceitaria. Seria o augúrio de que tudo correria bem.
“De acordo. Entro convosco, não tenho nada a perder.”, respondeu já aliviada e relaxada.
A osga cuspiu as asas da mosca para o chão e correu lesta a esconder-se atrás do quadro com a fotografia do presidente de Inkuna.
Chindende soube então que a tinha nas mãos; o passo a seguir teria que ser dado com cuidado e de maneira a fulminar. Nu fundo, nunca gostara de Malette Golpes, sobretudo pela mania de querer demonstrar que sabia mais do que os outros. Todo o Ministério do Exterior já tivera a oportunidade de, em uma ou outra ocasião, adormecer ao agreste som do parlapapiar da ilustre defensora da revolução e afins.
“Fico feliz dever que te juntas anós. Contava que o fizesses, por ter e conhecer inteligente e perspicaz. Sendo assim vou directo ao assunto. Já deste conta que nunca evoluiremos se as chefias antigas se mantiverem. Os embaixadores são nomeados pelo presidente da república e não abandonam a vida diplomática anão ser que morram, e só mudará quando nós, os jovens e formados, lutarmos para tal. Teremos que criar espaço próprio, impormo-nos e dar mostras de competência. O resto será um pouco como a selecção natural das espécies...”
“Soa muito bonito, porém como chegar até aí, se a política externa é pelouro da presidência, e ministro algum conseguiu indicar fosse quem fosse para as embaixadas? Os embaixadores quando estão em Inkuna nem se dignam a vir ao ministério...”, disse Malette.
“É assim, porque os directores são antigos e acomodaram-se, amedrontaram- se, é malta que está no posto só porque lutou. Isso tem que acabar., se quisermos ter uma diplomacia profissional. Não nos licenciámos para ficar aqui por baixo eternamente. E quando dermos prova da nossa competência, terão que nos ouvir. Olha para as nossas embaixadas, algumas não são mais do que escritórios de interesses comerciais pessoais, onde casualmente se faz diplomacia. Mas passando ao assunto principal, a nível das nossas direcções, há três directores que podem bazar. O problema é conseguir-se pôr o primeiro a andar. Os outros irão por apatia. É a propósito disso que te queríamos falar, ouvi dizer que o Benvindo chamou ao Tala Ngo ministro banto numa conversa que teve contigo.”
“Não foi bem assim como dizes, ele não chamou e muito menos no contexto que insinuas...”
“Bom, muito bom. Confirmas assim que efectivamente a conversa teve lugar, resta saber quem, como e porquê chamou banto ao ministro. Se não foi ele, quem terá sito então?...”
Malette Golpes sentiu um frémito até ao mais fundo da alma. Fora agarrada, percebeu a jogada e no logro em que caíra. Estava num beco sem saída. Esperou que Chindende não a tivesse visto corar.
“Bem, não tinha analisado o problema sob esse ponto de vista...”, calou- se porque ofegava, e tentou acender um cigarro, sem o conseguir, para não revelar que tremia.
Chindende disse para consigo mesmo: “Já estás minha linda e desta não escapas.” Sorriu e deu-lhe tempo para se recompor. Lento e cavalheiro, acendeu-lhe o cigarro.
“Mas como, Malette? Só pode ter uma interpretação, a afirmação é rácica, sem sombra de dúvidas, e se não foi ele...”, apertou o cerco.
“Olha Chindende, quando o Benvindo afirmou que se íamos ter um ministro banto e as nossa política ia ser, por consequência, banto, interpretei que doravante estaríamos voltados para o nosso continente...”, afirmou, procurando uma saída airosa.
“Nada disso, se o Benvindo disse que o ministro era banto, fê-lo num contexto rácico e depreciativo. Portanto, não tem moral para dirigir uma área política. Agradeço-te a informação. Como imaginas, vou ter que relatar o acontecido ao Tala Ngo.”
“Filho duma cadela”, pensou Malette, “afinal era isso que querias de mim.
Estou tramada, se não entrego o Benvindo, é a minha vida que se complica. Se o entrego, não sei como vou poder encará-lo!...”
“Quando o ministro me chamar, contar-lhe-ei tudo como te contei a ti. Agora não esqueças que nos encontramos no mesmo barco e tu numa posição muito mais perigosa. Certamente se as coisas correrem mal, tudo desabará sobre ti.”
“Macte animo, generose puer, sic itur ad astra.”, disse gozão.
“Deixa-te lá dos latinismos, que não tens graça nenhuma.”, respondeu
Malette, agastada.
Dois colegas que repartiam a secção entraram e Malette aproveitou para sair, ainda não se senti bem. Chindende acenou-lhe a despedida com a mão, um sorriso de matreira cumplicidade nos lábios.
Dias depois, António teta foi ao gabinete do ministro, após um telefonema em que o informara que teria que o ver de imediato.

* Coragem valente criança, é assim que se vai aos céus.
“Não te trago notícias muito boas, esses filhos da mãe foram avante com o projecto, e já tens uma batata quente nas mãos...”, disse, sem cumprimentar o amigo.
“Calma, senta-te primeira e conta-me tudo depois. Não poderá ser tão grave assim.”
 “Perdoa-me, mas até é. Há pouco, o Chindende esteve no meu gabinete e informou-me que tinha provas de que o José Benvindo te havia chamado ministro banto e que, por consequência, doravante iríamos ter uma política externa banto.”, respondeu Teta.
“Acreditas nisso?”
“A questão não é acreditar ou não.”
“Claro que o Benvindo, mesmo que o tenha afirmado, vai negar.”, disse Tala Ngo, igualmente na dúvida.
“Aí é que está o problema, nunca conseguirás provar nada. E mesmo que te tenha chamado de banto, não é crime nem deverás fazer grande questão, projectar-te-ás como mais um negro complexado e com vergonha das suas raízes. Não é à toa que a questão aparece por esse prisma, quem organizou isto está plenamente consciente das nossas divisões. Agora, podes é ter a certeza que essa corja vai movimentar-se e deixar-te num beco sem saída. Seja o que fizeres, vais ser criticado, qualquer variante que escolhas, vai ser contrati.Não sei se devas ir dando tempo ao tempo e deixar a questão morrer. Se, depois, as suspeitas apontarem para que a acusação seja verídica, o que sinceramente duvido, nas calmas poderás decidir o que fazer em termos de diálogo, doutro modo só irás alimentar o monstro.”
Tala Ngo parou para pensar. Sentiu-se aborrecido por estarem a criar-lhe problemas. Sabia que as jogadas, para ganho de espaços e influências, se manifestariam num futuro curto, mas nunca pensou que fosse tão de imediato.
O primeiro passo a dar seria ouvir Chindende e Malette, para verificar o grau de solidez da acusação que fizeram, depois falar com o José Benvindo e, por último, aconselhar-se com os amigos. Estava ciente que, qualquer que fosse a decisão, não seria fácil. Se pendesse para o Benvindo, é porque estaria a proteger um “branco”; se o punisse é porque estaria a discriminar, a atacar sem provas um minoria só por esta se encontrar supostamente desprotegida.
Se não fizesse nada, é porque seria frouxo, lerdo. E por último, o que António
Teta lhe dissera era bem verdade.
Dias depois, tala Ngo chamou Francisco Chindende ao gabinete, de imediato antipatizou com ele, e sem rodeios foi directo à questão.
“Sente-se. Ouvi dizer que fez umas afirmações ao director António teta sobre a minha pessoa. O que se passa de concreto?”, falou de modo seco.
“Camarada ministro, a situação é delicada e não sei muito bem como começar...”, respondeu Chindende, preocupado com a frieza.
“Comece pelo princípio, como começou com o director Teta. Parece não tersido esse problema.”
“Mau, já meti o pé na argola”, disse para consigo mesmo, Chindende. “Vai com calma, fala-lhe directo e olha-o nos olhos”, aconselhou-se.
“Camarada ministro, no outro dia em conversa com a Malette Golpes, veio a caso uma troca de opiniões sobre a nossa política externa, ou seja, os novos rumos que ela certamente seguirá, quando foi-me dado a entender que um colega, o director José Benvindo, teria afirmado que doravante iríamos ter uma política banto, já que o ministro era banto. Queira-me desculpar a franqueza, mas foi assim mesmo que ela me pôs a questão.
Tala Ngo enervou-se, coisa rara com ele, todavia escondeu.
“Em primeiro lugar, gostaria de entender como sabe quais os rumos que a política externa nacional vai seguir e, em segundo, estimar o que significa para si ministro banto e política externa banto?”, indagou, sereno.
“Camarada ministro, não fui eu quem fez tal afirmação, não sei o que ele quis significar com isso.”
“Certo, não estou a perguntar-lhe o que o camarada Benvindo quis significar com isso. Mas pela importância que você deu, quero saber o que para si poderá significar essa afirmação.”, insistiu Tala Ngo.

Francisco Chindende compreendeu que poderia cair numa armadilha e parou para reflectir. Mas teria que ser rápido, não podia permitir que Tala Ngo sentisse nele a mínima hesitação. Mais uma vez olhou-o directamente nos olhos quando retorquiu.
“É uma questão difícil de responder, camarada ministro. Dei importância por que pareceu-me que se estava a tentar denegrir não só um dirigente, como sua actuação futura e, por extensão, o país.”
“De que modo se está a denegrir um dirigente ao chamar-se-lhe banto, o que na grande maioria somos, e porque haveria Benvindo de denegrir o pais do qual é nativo, e pelo qual lutou?”
“O termo banto é aqui aplicado depreciativamente, camarada ministro, foi dito para inferiorizar uma pessoa e sua acção. Foi assim que senti, e daí ter contado ao director Teta. Achei meu dever informar.”
“Primeiro, colocar-me num plano inferior em relação a quê e a quem? Segundo, você estava presente quando tal afirmação foi supostamente feita, para poder apreender ou não a intenção e o significado?”, disse deveras aborrecido Tala Ngo, que começava a adivinhar o que por ali vinha.
“Não, camarada ministro, mas a Malette Golpes poderá melhor do que eu confirmar se falo verdade ou não. Foi com ela que o assunto se passou, não comigo. Só que,sabendo que ela ficaria calada, resolvi alertar quem de direito.”
Tala Ngo viu que dali já não extrairia mais nada. A jogada estava clara e evidente, restar-lhe-ia ficar com a batata quente na mão e ver como actuar de seguida. Teta tinha razão, Benvindo não teria sido tão desajeitado, tão inábil, para formular tal afirmação e dentro do contexto em que a inseriam, concluiu.
“Está bem, pode retirar-se.”
Francisco Chindende, inadvertidamente, suspirou de alívio. Nunca supusera que Tala Ngo reagisse desse modo, tornava-se imperativo alastrar a acusação o mais possível, e da maneira mais rápida. Só assim evitaria que Benvindo se safasse. Quanto mais gente soubesse melhor, quanto mais se falasse a nível de Katola, mais Tala Ngo estaria amarrado ao inevitável.
Dois dias depois, o ministro convocou Malette Golpes e deu-lhe o mesmo tratamento. Esta confirmou categoricamente que Benvindo o tinha chamado de banto de maneira depreciativa, o que achara impróprio não só por saber que ele era amigo de longa data do ministro, mas porque devia respeitar um dirigente não só partidário, como governamental. Notara que Benvindo tinha um sentimento de lealdade muito forte para com o ministro cessante e não medira bem as palavras, talvez pensando que por ela ser mulata como ele, a coisa passasse despercebida. Para ela, ser-se banto era motivo de orgulho, por que todos nós o éramos mais ou menos, referiu.
Como Chindende, Malette saiu preocupada e insegura se tinha feito a coisa certa. Não esperara, de igual modo, pela reacção de Tala Ngo. De imediato dirigiu-se à secção de Chindende que a acalmou e fez ver que Benvindo nunca poderia safar-se da enrascada em que se encontrava enfiado. Talvez que o ministro não decidisse de imediato, mas desde que a chama fosse mantida viva, mais cedo ou mais tarde, teria que tomar uma decisão, até por que não era homem para ir contra ventos ou correntes.
Passados três meses do encontro do ministro com Chindende e Malette, na casa de José Benvindo registava-se um ambiente de óbito. Na sala, cheia de vizinhas, sua mulher gritava insultos a Tala Ngo e à falta de justiça no país.
Culpava, sobretudo, o marido por não se ter protegido, por não ter continuado o tratamento. O resultado estava ali á vista, fora exonerado da carreira diplomática, perdera o emprego e o que iria ser deles agora com dois filhos pequenos? E quem lhe ia dar trabalho, nessa situação?
Para sua consolação, muita gente do bairro, ofendida e revoltada, incluindo parentes do ministro, dirigiu-se a casa deste na vã tentativa de o obrigar a rever sua posição. Todavia não aquiesceu.

O que estava feito, estava feito.