terça-feira, 2 de março de 2010



Este quadro é um dos quatro que integram a peça "Humanidades", que refere toda ela a um tempo de partido único como forma de governo em Angola e , por esse facto, nunca foi levada a cena na altura. Hoje, talvez seja inócua.







PERSONAGENS PRINCIPAIS

KATERÇA – Pai.

MABUNDA – Mãe

CHISOLA – Filha

MUNTU – Filho

BITOLAS – Bebé

MOCHO, CÃES, LENHADOR, CORVO E PICAPAU

No palco encontram-se duas árvores frondosas, com raízes externas, móveis e destacáveis, e dois ou mais ramos. Dentro de cada árvore, bem como de cada raiz, um personagem. Katerça e Mabunda, nas raízes os filhos.

As personagens secundárias (bonecos, telefone, gira discos, etc.) como sempre, são exageradas e coloridas.

A cena está totalmente escura. Aos poucos a iluminação dá a entende o nascer do dia, revelando timidamente o cenário. Numa das árvores, ou qualquer outro sítio visível, um cartaz como os dizeres: “ANOS DO DITO CUJO ÚNICO”.

Ouve-se um ressonar roufenho e sonoro. Um pouco depois, Bitolas desperta faminto e chora estridente.

MUNTU

(Grita) “Papá, papá, quero fazer xixi!...

CHISOLA

(Logo de seguida) “Mamã, dá-me um copo de água quando puseres o mano a fazer xixi!”

Ouvem-se os sons de alguém a levantar-se, a pôr o miúdo a fazer xixi no bacio, e alguém a beber sofregamente. Em seguida tudo se acalma, entendendo-se unicamente o piar do mocho, que poucos segundos depois entra em cena, colocando-se ao lado da árvore maior, em anicho, para passar o dia. Pia mais umas duas ou três vezes, espreguiça-se e tenta adormecer. O ressonar de Katerça começa a irritá-lo. Muda de lugar várias vezes sempre a resmungar e a piar.

MOCHO

“Assim não dá, como pode alguém descansar depois de uma noite de trabalho, com este ruído todo?... Assim não dá, não senhor... Isto não é viver, gaita, todo o tempo a ressonar, já podia ter passado em qualquer hospital para se curar... (bis).

O dia avança. Tudo é claramente visível agora. Ouve-se um despertador, daqueles dos antigos, a tocar.

MABUNDA

“Katerça, ó Katerça, acorda, olha o despertador.”

KATERÇA

“Merda, já?!... (Ouve-se o despertador a ser atirado contra a parede. O bebé grita, assustado) Xiça, Mabunda, dá lá de mamar a esse gajo. Que barulhada! (A árvore agita-se toda)

MABUNDA

“Ó Katerça, não fales assim do nosso filho!” (a árvore movimenta-se)

A árvore (Katerça) move-se do lugar uma trintena de centímetros, entende-se o som de Katerça a urinar virilmente, com os respectivos sons de alívio, e o autoclismo a ser descarregado.

KATERÇA

(Zangado) “Quem tirou daqui a porcaria da pasta de dentes?... Raios!...”

MUNTU

(Espreguiçando-se) “Mamã, hoje não quero ir à escola, está-me a doer um nódulo.”

CHISOLA

(Mexe-se) “Ó mãe, se o Muntu não vai è escola eu também não vou, essa de lhe doer um nódulo já é velha!”

KATERÇA

“Pela careca do Lenine, calem a boca, tanto barulho já pela manhã. Isto aqui não é Congo, poça!”

MABUNDA

“Ó Chisola, sê uma querida e vai dar o biberão ao bebé. Olha, aproveita para lhe mudares a fralda, vai querida, faz lá esse favor à tua mãe.”

CHISOLA

(Muda de lugar, rolando em direcção ao público) “Mãe, hoje é a vez do mano, eu fiz isso ontem.”

MUNTU

(Espreguiça-se outra vez e rola na direcção oposta) “Euuuu?!...”

KATERÇA

(Chateadíssimo, dá três pulos enormes) “Calem-se, já vos disse, e tratem mas é de ir pôr a mesa do mata-bicho (o bebé pára de chorar).

MUNTU

“Mamã, não posso ir à escola, a farda da OPA está suja e se for sem ela não me deixam entrar.”

KATERÇA

“E é mesmo assim, quem não tem farda não tem nada que ir, ou já queres que acusem o teu pai de reaça? Mas ó Mabunda, porque é que a merda do fardamento da criança não está lavado? Sabes muito bem que sou membro do partido e que tenho cargo importante, o meu filho não pode ir com uma roupa qualquer quando tem as fardas.”

MABUNDA

“Deixa-te lá de estórias, se a criança não levar hoje a farda da OPA não vai morrer.”

KATERÇA

“Que não vai morrer sei eu, mas os outros vão falar já sabes que vão logo dizer, olha aquele armado em chefão lá no partido e o filho dele vem sem farda.”

MABUNDA

“Cala a boca homem, até parece que já te esqueceste da mocidade portuguesa (Ri), sempre gostaste de fardas. (torna a rir) O que eras então, comandante de esquina ou arvorado em castelo, não era?”

CHISOLA

“Mamã, quem era a mocidade portuguesa?”

KATERÇA

(Dirige-se à mulher, aborrecido) “Já viste, já viste, queres que sejam os meus próprios filhos a lixarem-me? (para a filha) Não, filha, não é nada, é só uma brincadeira da tua mãe. A mocidade portuguesa era uma prima afastada dos padrinhos. Chamaram-se assim porque era já uma moça quando foi baptizada, portanto Mocidade, e como a madrinha dela era uma senhora portuguesa, ficou então a chamar-se Mocidade Portuguesa.”

A iluminação começa a decrescer gradualmente, permitindo que se veja o cangalheiro a atravessar o espaço cénico, a dançar com o abutre em passo de kabetula. Chegado à árvore ou aonde se encontrar o cartaz, retira-o e coloca um outro que diz ANOS AINDA DO DITO CUJO ÚNICO, DEPOIS. Por esta altura deverá estar a sala quase escura. Sai. Pouco depois a iluminação é a do amanhecer. Entretanto as raízes estão muito maiores, cresceram, duas quase adultas e uma menor. Encontram-se em sítios diversos dos anteriores.

Entra um enorme boneco cão, chega-se à árvore, levanta a pata e urina.

KATERÇA

(Em desespero) “Ó não, ó nãooooo!... (zangado) isto não é vida, ainda nem um gajo tomou banho e já logo isto lhe acontece pela manhã. PORRA!!! Amanhã vou pedir a minha demissão do cargo. Se me começam a mijar em cima é porque algum filho da mãe já me está a lixar, já me quer o lugar. Pois que fique com ele, também já cá tenho o que é meu.”

O cão dá a volta e urina igualmente na outra árvore.

MABUNDA

(Igualmente arreliada) “Ó nãooooo... olha como ficou a minha camisa de noite (chora). Esses senhores lá porque mandam pensam que podem mijar em cima de qualquer um. Poça, já estou farta!”

O dia clareou por completo. Um enorme telefone entra e coloca-se entra Muntu e Chisola. Entra seguidamente um gira discos que se coloca ao lado de Bitolas que, de imediato põe um disco, a todo o volume, do Balão Mágico. Dança, enquanto os outros desesperam, até que Chisola retira a música e parte o disco.

MUNTU

(Aliviado) “Puxa, obrigado mana, esse gajo aí chama a isso música? (Para o irmão) Ei puto, descorta, yá?...”

CHISOLA

(Jocosa) Estou farta de lhe dizer que só ouça essa música pré-histórica quando estivermos fora.”

BITOLAS

“Vocês pensam que aqui em casa só se pode ouvir a vossa música. (Rebolando por toda a cena, grita) Mamã, mamã...”

MUNTU

“Grita filho, grita porque a mamã está bem ocupada a ver se penetra mais uns dez centímetros na terra. Esta seca está a dar-nos cabo da saúde. Esses gajos dos países ricos com a mania que a população mundial está a crescer obrigam-nos à planificação familiar e é isto o que dá, cada vez mais desertificação.”

CHISOLA

(Goza com Bitolas, batendo com uma colher numa garrafa, põe o disco do Man Ré) “Como é meu? O Man Ré aqui é que é bem fiche, não esse porcaria que estava a tocar.”

BITOLAS

(Grita, zangado) “E tiraram o Balão Mágico para pôr essa música? Ó mãe, ó mãeeee!.... (bangão, o cão atravessa a cena, o que de imediato gera um silêncio glacial. Quando sair, tudo regressa ao mesmo. O telefone toca, até que Muntu atende)

MUNTU

“Está? Daqui o Muntu, quem fala?... Oi, Fininho, como é, meu?...O quê?... Fala mais alto, não ouço. Yá, Man Ré meu!... Yá... A parva da tua namorada, quem mais?...”

CHISOLA

(Curiosa e atenta, baixa o volume da música e aproxima-se) “Quem é, Muntu?”

MUNTU

(Divertido) “Adivinha, adivinha.”

CHISOLA

(Ansiosa) “É o Fininho? É o Fininho?...”

MUNTU

(Espicaça a irmã) “E se fosse, o que tens a ver com isso? (ri e fala para o bocal do telefone) Não meu, é aqui a menina da desbunda a querer saber se é o garino dela... (ri) Yá meu... fixe... yá... fixe...yá... (Chisola dá-lhe um encontrão e o telefone cai. Apanha-o).

CHISOLA

“És tu Fininho?”

(Muntu levanta o som da música ao máximo. Bitolas põe-se aos gritos a chamar pela mãe, Chisola continua a falar e ouve-se, o toque da campainha da porta, para o qual ninguém liga. As luzes apagam-se todas e tudo acaba. Quando subirem novamente é só sobre Katerça que fala com Mabunda, bem juntinhos.

Em silêncio, percebe-se todos os outros integrantes do elenco, passeando pela cena.

Um novo cartaz está pendurado, com os dizeres ANOS DO DITO CUJO ÚNICO, JÁ NO FIM.

MABUNDA

“Estou preocupada Katerça. Hoje poisou aqui um bando de corvos, isso sem falar nesse bufo de cão que anda sempre por aí a meter o nariz por tudo quanto é canto, e ouvi umas coisas nada agradáveis. Estiveram aí um bom tempo, de ramo em ramo, a fingir não sei o quê, falando mal do dito cujo único. Estou segura que era para estudar as minhas reacções. Reconheci um deles, vivia lá no bairro antes da independência e tinha fama de ser pideiro.”

KATERÇA

(Preocupado) “O que ouviste, o que foi? Hoje há que ter cuidado com todos, fazem de conta que não são e são mesmo.”

MABUNDA

(Saem todos menos Branca de Neve e os sete anões que a perseguem, em silêncio) “Oh, nada. Bom, não é bem assim. Diziam que agora, logo na nova fase, zangastes-te com eles e deu-te para fundares um partido, até disse que se chamava União Florestal Liberal e que andas metido com uma malta a preparar a derrota do Embondeiro Maior do Dito Cujo Único. Para isso juntastes-te a uns gajos que vivem numa capoeira, etc., etc.”

KATERÇA

(Surpreso, todo ele treme) “EU?!... Sempre fui membro do Dito Cujo Único!... (Receoso) Estás segura de que foi isso que os corvos disseram? Não haveria por lá provocadores da bófia para ver como reagias? Olha que essa malta é sabida, aliás não tivesse sido assim nunca eu teria chegado até onde cheguei... (Dá uma sonora gargalhada) fartei-me de lixar gajos armados em espertos e que pensavam que me comiam as papas de milho!”

MABUNDA

“Posso estar velha, mas não maluca ou caduca, sabes? (ofendida) Minha mãe bem me avisara para não me casar com uma mulembeira, mas enfim, o que a gente não faz quando se é jovem e parva. Crente dos teus arrulhos! Eu, filha de uma mangueira pura, talvez já nem te lembres, lá no quintal do velho Morais, caí no teu conto do vigário.

KATERÇA

(Sem querer cai em cima de Branca de Neve. Logo se levanta. Esta aproveita para sair, seguida dos sete anões) “Mangueira pura? A única coisa pura que tens é a tua boca. Boca para aqui, boca para ali nas intrigas, como agora. Que boca é essa que estás a mandar? São os teus irmãos não é? Nunca quiseram que te casasses com uma mulembeira, é do mato, o gajo não presta, etc. Só que nessa altura não tinhas raízes aqui no Alvalade, já te esqueceste? Era lá no Bairro Operário que vegetavas, num quintalão. Por que razões haveriam de falar de mim, heim? Sempre fui do regime, a favor de regime e pelo regime! Eu, heim? E logo contra o Embondeiro Maior!...”

MABUNDA

(Magoada) “Não precisas de vir com essa conversa fiada para cima de mim, não sou idiota. Depois não digas que não foste avisado. Nos anos fortes do Dito Cujo Único andavas de facto calado e satisfeito, pudera, mas quando começaste a ficar para trás os zum-zuns logo apareceram. Não há fumo sem fogo, não sou tapada.”

(Entram um corvo e um pica-pau, e a iluminação geral sobe para normal. O corvo coloca-se ao lado do gira discos, dá-lhe um forte pontapé o pica-pau encosta-se à árvore (Katerça) e assobia, limpando as unhas com um facão. Gera-se um silêncio total).

CORVO

“Ó pá, esta árvore parece-me um pouco estranha, não achas?... Parece-me que já a vi aí por qualquer sítio, mas onde foi? Sei que foi junto a uma capoeira.”

PICA-PAU

(Dá uma volta em torno da árvore) “Não, não julgo que seja esta, tem um pé defeituoso, mas de facto algo aqui parece não estar bem (Dá um pontapé na árvore que faz “Ai”). Viste, viste? (Repete) Já viste? Porra, uma árvore a falar! É certamente subversiva, só pode ser, temos que chamar a bófia, chama a PISA, a Polícia Investigadora dos Serviços Arbóreos.”

CORVO

(Lacónico) “Também me saíste cá um idiota! Os bufos somos nós, ou já te esqueceste? Essa mania de comeres funji pela manhã é o que dá, ficas com a mente parece um pesa papeis. Diz-me lá porque é que uma árvore não haveria de falar se tu também falas? (Aponta para o público) Julgas que essa malta aí é parva ou quê? (Sentencioso) AGORA!... Se ela choramingou só porque apanhou uns kissendes, é definitivamente da União Liberal Florestal, esses gajos são uns maricas. Armam-se em fortes mas quando se lhes dá um estremeção, cagam-se logo todos! (Para criar medo) Vamos arrancar-lhe os tomates e fazer uma salada de genitais!...”

PICA-PAU

(Vingativo) “E chamas-me idiota? Idiota és tu, explica-me lá como é que vais arrancar os tomates a uma mulembeira? (Brincalhão) E se eu lhe desse umas bicadas nas bilhas? Pica na árvore várias vezes, com esta sempre a responder com um “Ai”.

Os dois riem ás gargalhadas. A árvore agita-se toda e cai assim que eles saem de cena. Em sentidos opostos, entram o cão e o mocho. O cão assobia alegremente e tem na mão um cassetete. Ao cruzarem-se o corvo passa-lhe uma rasteira. Este cai a rir, o corvo ajuda-o a levantar-se e saem os dois em alegre camaradagem.

MABUNDA

“Eu bem te avisara Katerça. Agora o que vai ser de nós e dos nossos filhos? (zangada) Tu e as tuas politiquices.”

KATERÇA

(Aborrecido) “Que politiquices? Esses gajos mandaram como quiseram todo este tempo e agora chegou a vez dos outros. Ele que vão gozar o que conseguiram, isto não é politiquice nenhuma, é a verdade. Porque não poderei igualmente ter uma conta na Suíça, não somos todos farinha do mesmo saco? A única excepção que posso fazer é aquele galináceo, mas isso também ainda está para ver. De resto filha, somos todos lidos e versados na mesma cartilha. Deixa-te lá de contos e vai-te preparando para veres a tua vida melhorada, é a nossa vez, é a democracia multipartidária, ou não sabes?”

MABUNDA

“Ai Katerça, não digas isso, és um mal agradecido, um ingrato. Os teus filhos tiveram sempre escola de borla, hospitais e medicamentos, até tu arranjaste esse teu pé torto em Cuba às custas do Dito Cujo Único, ou já te esqueceste? As rendas da nossa casa custavam menos de uma cerveja, os transportes públicos nos quais nunca puseste o cú, eram quase de graça. Ai Katerça, não digas isso, cospes no prato em que comeste durante tantos anos só porque te tiraram a tesoura da censura ideológica das mãos. E com essa conversa ainda vão acabar por levar o nosso filho para a maldita dessa guerra que nunca mais acaba. Falas à toa sem propor concretamente as alternativas, achas que são esses fundamentalismos estranhos que por aí grassam que te vão salvar nas hora dos Aves-marias? (o telefone toca, ela atende) Alô?... Se é da casa mortuária? ABRENÚNCIO! Não, não, é de uma casa privada... sim, estou segura!... (desliga)

KATERÇA

(Levanta um pouco o volume do rádio, desconfiado) “Casa mortuária uma ova, são é mas é os bófias a agagaçarem-nos, conheço bem essas tácticas, eu mesmo as usava nos meus dias de glória, (ri) já te contei quando aquele filho da puta do correspondente da Reuters queria... (É interrompido pela campainha da porta que toca).

MUNTU

(Que aparece a correr) “Ó mana, deve ser o teu Fininho, vai abrir.”

CHISOLA

(De fora de cena) “Não posso, estou a tomar banho. Consegui encontrar um pouco de água subterrânea ou então já lixei a EPAL ao furar um cano. Agora não dá, manda o Bitolas.

BITOLAS

“Eu não posso, estou a estudar, apanhei aquela revista pornográfica do pai e estou a instruir-me.”

(Ouve-se o arrombar da porta e entre o lenhador, com um enorme machado às costas).

MABUNDA

(Em pânico) “Ai Katerça, socorro, vieram buscar o nosso filho para a tropa... (Chora) ai meu Deus, vão levá-lo... (Grita) Socorro, vizinhos, socorro!... (O telefone toca outra vez, até ao fim da situação) Quem me ajuda, criminosos, ele é ainda uma criança, ai Katerça, viste o que conseguiste com tudo isso?...”

KATERÇA

(Aterrorizado) “Cobardes, cobardes, só sabem agarrar as crianças... SOCORRO, SOCORRO! (o lenhador dá umas machadadas em Muntu, que já se encontrava agarrado ao pai).

MUNTU

(Aos gritos, bem como toda a família) “Não quero ir, socorro, não quero ir, levem os filhos deles, eu não vou (uma última machadada desliga-o do pai), não vou, não vou seus cabrões!...”

LENHADOR

(Coloca-o ao ombro) “Ai vais sim senhor (Sai).

Chisola e Bitolas xinguilam pela cena. Mabunda e Katerça idem, aos gritos. O rádio toca, o telefone sempre a tocar, a campainha da porta toca sem parar, e os gritos dos vizinhos a pedir para abrirem, o corvo, o cão e o mocho atravessam a cena a rir, todos abraçados.

Gradualmente a luz vai baixando até atingir a escuridão total. Segue-se um silêncio sepulcral muito curto, após o qual entende-se do corvo, o picar do pica-pau numa árvore, o latir do cão e, por fim, o lúgubre piar do mocho.

BAIXA A CORTINA.






POESIA


Escreve-se poesia
abstracta
para não ser apagada
pelas borrachas de prata
dos invisíveis
sempre à cata
do incauto
que não deu pelo leão
afiando a pata

guarda-se o lamento
para as estrelas
nas horas mornas do madrugar
embaciadas
lugubremente embaciadas
pelo imenso aguardar

segunda-feira, 1 de março de 2010

INKUNA MINHA TERRA


MARTINHA (Revisto)

A manhã pródiga em luz e calor, aportava, não obstante, uma brisa húmida que já anunciava a vinda do cacimbo. A praia, despida dos banhistas habituais por ser terça-feira, espreguiçava-se pela areia suja e furada por miríades de tocas de caranguejos. No verde-claro da água próxima, duas jovens banhavam-se onde havia pé. A mais velha teria uns catorze anos, a outra, de tronco nu e no qual dois bicos de seios apenas despontavam, não poderia ter mais do que onze, talvez doze.

Serafim enterrou a estaca da sombrinha na areia e, depois de a ter aberto, estirava a toalha estampada, quando a voz o despertou.

“Amiguinho, amiguinho... vem!”

Novamente olhou à volta e não ligou. Sentado, agarrou na revista, quando percebeu que a jovem saía da água e a ele se dirigia, lesta e sorridente. Anichou-se junto a seus joelhos, e entabulou conversa, como velhos e conversados amigos.

“Amiguinho, como te chamas? Eu sou a Martinha”, disse sem esperar resposta.

Serafim sentiu-se pouco à vontade, não descortinando o interesse da garota. Incessantemente olhava ao redor, receando que o observassem feito um mais velho a engatar catorzinhas.

“Muito bem, o que queres?”, disse seco.

“Nada, amiguinho. Não tem medo, aquela é a minha irmã, samo deslocado de Malanji, e só queremo falar contigo”.

Já ouvira muitas estórias sobre crianças da rua e sabia que uma grande quantidade era nativa de Luanda e foragida de suas casas, por vários motivos, sobretudo o da fome. Conhecia ainda que muitas delas actuavam nas praias praticando pequenos furtos, ou introduzindo-se nas casas dos mais desavisados, onde conduziam depois o seu grupo de assalto para uma limpeza maior e mais determinada.

“Deslocadas de Malange, ou são mesmo dum bairro aqui de Luanda?”

“Não amiguinho, te juro samo memo de Malanji, nos mataram a família e tivemo que fugir”, continuou Martinha, agora acenando à irmã para que se chegasse igualmente. “Foi a UNAVEM que nos trouxe até Luanda e agora vivemo aqui”.

Serafim olhou para a garota e tentou descortinar se o que contava era verdade. Estava um pouco espantado com o ar vivo e desenvolto da criança, mostrava um à vontade incomodativo, até porque à medida que falava, descontraída e casualmente, numa carícia sub-reptícia, que ele não percebia se intencional, ia-lhe riscando a perna com o dedo.

A irmã optou por chegar-se e sentou-se do outro lado. Já era uma mulherzinha, embora visivelmente criança. Pouco tinha que denotasse o laço de sangue, se em verdade fosse real. Mais reservada, manteve-se à margem, olhos pousados na areia.

“Esta é a minha irmã, chama-se Joaninha, é minha mais velha”.

“E quantos anos tens tu?”, quis saber Serafim.

“Eu?”, perguntou Martinha.

“Sim, tu, quantos anos tens?”

“Amiguinho, como te chamas?”, indagou Martinha, mais uma vez acariciando-lhe a perna com o dedo.

“Para que queres saber do meu nome?”, perguntou desconfiado e cauteloso.

“Para nada, tamo só a conversar. Como te chamas, amiguinho?”, insistiu.

Receando que as jovens pudessem ser uma armadilha, tornou a olhar para os lados. A praia continuava deserta, na pequena lanchonete a uns sessenta metros, duas empregadas trabalhavam e na paragem do machimbombo (autocarro), umas três crianças, igualmente deslocadas, abrigavam-se do sol.

“Chamo-me Toninho”, disse, mentindo.

“Toninho, queres-me tirar o cabaço (desvirginar)?”, perguntou com toda a naturalidade Martinha.

Serafim deu um pulo instintivo e pôs-se de pé. Não acreditando no que ouvira, olhou espantado para tudo à sua volta, como que procurando testemunhas que confirmassem que aquela criança tivesse efectivamente feito tal oferta. Durante uns tempos rondou a sombrinha até que, pelo espanto na cara das jovens, deu conta da figura ridícula que fazia e sentou-se.

“O que disseste?”, quis confirmar.

Martinha riu, riu e olhou para a irmã. Depois chegou-se outra vez a ele.

“Perguntei se o amiguinho me quer tirar o cabaço”, repetiu com a mesma naturalidade

Serafim quedou-se calado por muito tempo. Tão absorto estava que nem notou que Martinha continuava a acariciá-lo com um dedo, pela perna, como que escrevendo.

“Se me perguntas isso é porque já o não possuis...”, disse, como que falando para si próprio.

“Que idade tens então?”, indagou despertando.

“Tenho doze anos, fiz o mês passado. Olha, amiguinho, és casado?”, insistiu.

“Dizem que são de Malange, onde vivem?”

“Vivemo no Katmbolo”, respondeu Joaninha, falando pela primeira vez. “Vivemo na casa dum braga, ele é que nos ajudava, mas agora nos enxotou”.

“Braga, o que é isso de braga?”, perguntou Serafim.

“Não sabe o que é braga? É assim pula, como tu, branco!”, respondeu pronto Martinha, rindo a bandeiras despregadas pela ignorância de Serafim.

O riso das miúdas ajudou-o a relaxar, descontraiu-se, tentou ver porque é que um branco seria chamado de braga e voltou à carga.

“E quem te tirou o cabaço então?”, quis saber para pôr aquela estória a limpo.

“Foi uns sordado da UNAVEM quando a gente veio de Malanji. Estivemo com eles um pouco, eram assim castanho-escuro, já não sei que país. Depois andamo com indiano e brasileiro, mas fugimo porque os brasileiro não prestam, não têm dinheiro. Nos levavam só e depois nos deixavam, não davam nada, só coca-cola ou cerveja. Hoje já não andamo mais com os da UNAVEM, bom memo é os pula (brancos) português. Nos levam nos apartamento deles, nos mandam tomar banho, nos dão de comer e depois a gente fica lá. Si-deitamo com eles, amiguinho, nos dão biquini, sapato e outras coisas. É bem fixe... Mas amiguinho, responde só então, és casado?”

Serafim sentiu o peito crescer amotinado.

Tinha conhecimento que os contentores espalhados pela ilha de Luanda, sobretudo os que se encontravam ao fundo, do lado da baía, serviam para a prostituição infantil, todavia sempre pensara que as jovens fossem de pelo menos quinze anos, nunca de doze.

Que sociedade produzira tal fenómeno e o alimentava, desconcertantemente?

“Não, não sou casado, mas tenho uma filha que tem só um pouco mais da tua idade e o que me contas deixa-me muito preocupado”, disse Serafim, com bastante amargura.

“Amiguinho, não faz essa cara. Se vives sozinho a gente pode ficar lá contigo, limpamo a casa, fazemo a tua comida. Vamo-te tratar bem, juro!...”

“Já foram à Assistência Social, nunca ninguém vos lá levou?”

“Sim já fomo, mas ninguém nos ajuda. Querem nos mandar numas casa que a gente não sabemos, ou então ficamo só ali. É melhor aqui, os mais velho nos ajudam, temo memo um tem uma casa grande que nos leva lá, xê, QUANTIDADE DE GUARDAS!..., deve ser chefe. Mas quem nos ajuda memo é os braga. Esse da Katambolo, a gente conseguiu fazer lá dois meses, no outro dia disse podemo ir embora, nos mandou sair”, respondeu Joaninha, que se limitava a olhar, ouvir e sorrir.

“E não voltam para Malange porquê, já se pode viajar para lá?”

“Nada!... temo medo, a Unita ainda estão lá, a gente sabe”.

“Se quiserem eu posso vos ajudar, talvez vocês não são é nada de Malange, são aqui de Luanda e só querem andar nesta vida”.

“Nada, amiguinho, juro, somo de Malanji, pergunta só na minha irmã. Viémo memo com os sordado da UNAVEM que nos trouxerem junto com eles. Agora voltar em Malanji, não queremo ainda. Mataram nossa mãe e nossos irmãos, aqui em Luanda está mais fixe”, disse Martinha.

Um grupo ruidoso de rapazes, na sua maioria de quinze ou dezasseis anos, ocupou aquele troço da praia com um desafio de futebol. Eram os lavadores de viaturas e os faz- tudo do mercado cerca. Nas horas vagas, fumavam liamba escondidos nas pedras dos pontões, e dedicavam-se ao roubo nas viaturas e aos banhistas incautos. Igualmente compravam peixe às peixeiras, para o revenderem aos estrangeiros, na estrada. Sempre se ganhava qualquer coisa para a comida ou para a droga.

“Esse braga é daqui!”, gritou em aviso um deles, como que avisando do desforço delas.

“Vives aonde então?”, quis saber Joaninha, agora mais familiarizada.

Serafim não sabia como agir. Por um lado sentia que tinha que fazer qualquer coisa, no mínimo encaminhar as jovens, por outro, rendia-se à evidência da futilidade do acto. Eram crianças já viciadas que só com muito carinho, tempo, compreensão e amor contínuos poderiam revirar o rumo que suas vidas levavam, e essas associações profissionais não existiam, a não ser a igreja. A guerra, que em Luanda e alguns sítios mais não era guerra, mas uma ausência da paz, o egoísmo perturbante dos que dirigiam, a acção dos que agiam na penumbra para manter a paz indefinida e o espectro da guerra nos corações, não levava a que os problemas sociais fossem resolvidos. Tudo era paliativo, remendo de suposto luxo em traje podre e irrecuperável.

“Amiguinho, vives então aonde? Deixa que a gente te ajuda, vamo cuidar bem de ti. Samo criança ainda, mas já temo coração de mulher”, voltou Martinha à carga.

“Não interessa onde vivo. Já viste em algum sítio um mais-velho como eu, que pode ser teu avô, a viver com duas netas que não são netas e que pensam como vocês?...”

“Eh, deixa lá isso. Os mais velhos é que nos ajuda, e a minha irmã tem catorze anos, ela pode então ficar contigo, eu fico só em casa para lh’ajudar”.

Serafim não soube se ria ou se zangava-se. A desenvoltura da criança, por um lado, dava-lhe vontade de continuar a conversa, jornalista que era, saber mais sobre as suas vidas, quiçá fazer um programa para a televisão sobre o drama das meninas de rua já que ninguém falava delas. Por outro, achava que mantendo o diálogo justificava a esperança das duas em encontrarem um abrigo, um apoio, um calor humano, que só seria legitimado para elas se o corpo fosse a moeda de compensação, o equilíbrio emocional no relacionamento.

“Há pouco disseste que tinham coração de mulher, sabem o que isso quer dizer?”, perguntou Serafim.

“Sabemo sim, nós já sofremo muito, mais que a nossa mãe que está morta. Samo criança, mas nossa vida é lutar, é não morrer, assim temo que aprender com o mal que nos segue sempre. Só nosso corpo é de criança, nosso sofrimento é de mulher”.

Contrita, enrolava as mãos uma na outra e foi assim que Serafim sentiu que Martinha falava a verdade. O nervosismo e a amargura envoltos no relembrar, no avivar da memória, nunca poderiam ser um jogo no consciente da criança. Por muito duro que estivesse seu coração, por muito empedernidas que estivessem suas emoções, haveria o momento, como agora, que revelaria o sangue a escorrer pelas pétalas duma infância sofrida, verdadeiro e imolado.

“Olha amiguinho, os mais velhos nos abusam porque não temo onde ficar, nosso corpo tem então que ser a casa deles para nós comer e ter roupa, sapatos. Por isso temo que nos divertir e procurar um mais velho que cuida de nós, tu memo amiguinho, podes ficar com nós duas, estás sozinho. Vamo cuidar bem de ti, te cozinhar, lavar a roupa, minha irmã fica então contigo, podes dormir com ela”.

Um helicóptero da companhia petrolífera nacional sobrevoou o local, em direcção ao norte, aos campos da milionária miséria angolana.

“Minha irmã está falar bem, tem razão. O morteiro rebentou nossa casa, só nós escapamo. Memo nosso irmão caçula de um ano, só lhe encontramo um braço, o resto desapareceu, ficou tudo colado nas parede no chão. Depois, foi só fome e fugir. Foge aqui, esconde ali, alegria de viver só memo os cães é que encontravam, tanto morto pra comer. Hoje a gente quer é se divertir e encontrar um mais velho que cuida de nós. Só memo um braga, os negro como nós é só para nos fazer de criada e nem nos dá nada”, ajuntou Joaninha.

“Mas o braga o que vos dá também? É tudo igual. Uns e outros só querem o vosso corpo e sobretudo porque são crianças. Vocês deviam estar é na escola, a aprender, a brincar com bonecas e não com homens...”

Ambas riram ao mesmo tempo, como se Serafim tivesse dito algo de anormal ou repreensível. Martinha deu-lhe um carinhoso soco no peito, divertida com a ignorância do braga. Este, não percebeu o riso trocista e franco das duas.

“Xê, não vives em Angola então? Escola? Boneca? Brincar? Amiguinho, nossa escola arrebentou, morreu quarenta e cinco crianças. Aprender é só memo andar na rua, a rua é que nos ensina a viver, e boneca?... Boneca anda aonde?”

Boneca anda aonde, perguntou-se a si mesmo Serafim? Caindo dos céus nas asas sibilantes dos morteiros, no morno embalar do fétido cheiro da guerra.

“Nosso coração já não aguenta boneca, brincadeira é aqui memo na água, no mar, na areia. A água, a onda é nossa brincadeira, nossa alegria, faz nos’quecer o resto. Quando temo fome, esses aí que estão a jogar com a bola é que nos dão de comer, mas depois temo que ir no contentor com eles. À noite vem a polícia, nos tira o dinheiro que ganhamo e temo também que entrar com eles. Só memo esses miúdo é que nos ajuda. Mas pra ter casa para viver, só memo com um braga”, disse Martinha com uma leveza e candura que o surpreendeu, já que sua angústia aumentava à medida que ia ouvindo o que lhe era relatado.

“Meu Deus, mas isso é mesmo verdade o que estão a contar-me?”

“O amiguinho pensa então que esta conversa é só pra t’engatar? A gente já viu que vucê é de cá, se estamo ti pidir para viver contigo é porque vucê vive sozinho e nós pudemo te ajudar. Não queremo viver no contentor, levamo porrada, tem que dormir com este ou com aquele, as outras estão nos roubar. Não dá. Agora, em casa de braga, memo se é angolano, a vida é melhor e como o amiguinho não tem mulher...”

”Esqueçam isso de eu ter ou não ter mulher. Na minha casa ninguém vai viver, estão malucas?... O que posso fazer é tentar ajudar-vos, ver se consigo fazer alguma coisa, mesmo quando vocês próprias já me disseram que ninguém vos ajudou. Vou falar com o órgão que cuida da criança...”

Desataram a rir outra vez por causa da angústia de Serafim. Ou estava a gozar com elas ou então era maluco. Quem já viu alguém ajudar só assim à toa?

Retiraram-se para uma distância razoável e conferiram, entre risadas múltiplas, tendo chegado à conclusão que seria melhor deixar o braga em paz, não batia bem da bola. Estavam certas, pelo seu comportamento, que se o convencessem a deixá-las viver com ele acabariam por se arrepender. Esses bragas angolanos também são feiticeiros, e tudo nele indicava isso.

Lembravam-se ainda de ter ouvido, com espanto e maravilha, os mais velhos lá na aldeia contar como os soldados internacionalistas cubanos haviam engravidado os homens de Malange. E muitos desses soldados tinham ficado em Angola, quem sabe este não fosse um deles?”

“Tchau amiguinho, a gente vai já’ué?...”, acenaram de onde estavam.

Serafim olhou para elas e sentiu-se ludibriado nas intenções. Estiveram a gozar com ele sem dúvida, a fazerem correr as águas do tempo, pensou.

Encolheu os ombros e remeteu-se à leitura, já passara, o que estava feito estava feito.

A PRECE DOS MAL AMADOS



CAPÍTULO DEZ


LÁGRIMAS E RISOS


Uma criança é um hóspede na casa, a ser amado e respeitado - jamais possuído, pois ela pertence a Deus.

(J. D. Salinger)


Decorreram cinco dias desde a chegada de Balanta, e a vida tendia a retornar ao normal. A surpresa fora grande, não menos que a alegria e, após os dias festivos iniciais, a aldeia parecia encontrar a tranquilidade perdida há quase dezoito anos. Afinal a paz viera mesmo para ficar, dizia-se sem muito receio de falha, os sinais ominosos não deixavam margem para dúvidas e o regresso de Balanta, com o reencontro da filha, seria um culminar dessa bem aventurança.
Nehone, duvidoso de poder confiar por inteiro em Nazamba, sobretudo com o regresso da mãe, a velha poderia tirar-lhe a ideia da cabeça, já muito haviam sofrido, achara melhor ir sondando a maior parte dos velhos que integravam o conselho. Por intuição, Juba de Leão mandou-o chamar e, sem os rodeios e os salamaleques habituais, talvez por não mais os tolerar ou se sentir cansado, com o chapéu do poder enfiado na cabeça e o cabo de rabo de boi na mão, como sempre fizera quando desejava asseverar autoridade, apenas esperou que se sentasse onde lhe indicara, propositadamente no chão, sem resguardo. Nehone, manteve-se estático, de pé, por longo tempo, porém achou não ser prudente antagonizar o velho e sentou-se, com as pernas para o mesmo lado.
- Sonhei de novo com o sonho antigo. – disse, abruptamente.
Nehone olhou para ele e esperou, não quis responder e encaminhar a conversa, Juba de Leão que o fizesse. De qualquer dos modos, era bom que tivesse sonhado com a neta, ser-lhe-ia mais fácil encará-lo com as palavras certas.
- Sei que andam a tramar a minha sucessão... – Falou novamente Juba de Leão.
Nehone estremeceu quase que imperceptivelmente, não esperava a afirmação de chofre e, sobretudo, despida, crua. Juba de Leão sorriu para dentro. O bagre tinha entrado na nassa.
Como é que ele sabe? Terá sido o neto?
Que lhe dizer? Afirmar que sim, anuir, era desaconselhável. Portanto, negar, só isso, negar! Pelo menos ficaria a réstia ou o benefício da dúvida, caso o jogo fosse o de adivinhar intenções através de sugestões camufladas de verdade aparente, ou charadas disparadas a esmo.
- Não, senhor. Deve ser impressão por causa do sonho, agora mais forte porque a Nazamba se encontra aqui e com a mãe. – respondeu feliz, pensando esgueirar-se deste modo.
- Estou cansado, muito cansado e velho... – adiu, com tristeza.
- É!... a altura de descansar está a chegar. – respondeu Nehone.
- Sei que estão a preparar a minha sucessão... – insistiu.
- Quem o informou, só pode estar a querer criar confusão...
- A minha idade me informou. Chamei-te para te dizer que não estou contra, mas terá que ser Nataniel.
Nehone ponderou e viu a rasteira armadilhada que, com aparente inocência, Juba de Leão lhe estendia. Esquecia-se que ele sendo mais novo, igualmente era velho, já vira muita coisa e conhecia bem o irmão.
- Senhor, sabe que só o conselho pode decidir quem o sucederá. Terá que convocá-lo e apresentar a questão...
- Cuidado que a esperteza não te coma. – respondeu Juba de Leão, desagradado.
- Não entendo, senhor, só lhe respondi a uma pergunta que me fez...
- Está bem, vou convocar o conselho.
- Para quando? – perguntou Nehone, logo arrependido de ter sido tão lesto.
Aldrabões! A perdiz que não sabe esperar, não choca os ovos.
- Amanhã chama o mestre Tuluka para vir falar comigo logo pela manhã, antes do galo cantar, ou do sol nascer.
Nehone sentiu-se aliviado, o mestre Tuluka seria então quem anunciaria ao soba grande a sucessora, Nazamba. Assim, quando convocasse o conselho, tudo estaria resolvido, talvez os netos levassem o avô com eles para Luanda, e Nazamba, após o nascimento da criança, pudesse regressar para ser iniciada e assumir o seu lugar.
- Assim farei, ainda há mais assuntos a tratar?
- Não, vai. – disse, exausto.
Tentando não transmitir a impressão de pressa, e a olhar para os lados, nervoso, Nehone dirigiu-se a passo acelerado para a casa de Tuluka, as coisas começavam a correr melhor e mais rapidamente do que esperava. A vida tinha desses ardis, a cada instante, uma volta ou reviravolta com que contempla, a seu bel-prazer, os arquitectos que pretendem manipulá-la para proveito próprio. Entrou, com passos de onça, e sem se fazer anunciar. Tuluka dormitava no catre. Assustado, ergueu-se.
- Então mano, entra só assim? – inquiriu.
- Desculpa, mas não queria ficar na porta. – respondeu Nehone, procurando um lugar para se sentar.
- O que foi, tanto alvoroço? – perguntou Tuluka, indicando um banco.
- O nosso soba mandou-me chamar e pediu para reunir os mais velhos, quer falar da sucessão.
- Isso é verdade, não estava doente? – suspeitou, Tuluka.
- Não, disse que está velho e cansado, e quer Nataniel para lhe suceder.
Tuluka sentou-se no catre e coçou a cabeça. Nehone não lhe relatava nada de novo, no fundo. Há muito que Juba de Leão pretendia que o neto lhe sucedesse, e até talvez não encontrasse opositores não fosse o sonho repetido vezes sem conta, a sugerir a neta, confirmada na revelação dos amuletos.
- E a Nazamba?
- O que há com a Nazamba? – Olhou para ele, Nehone.
- Vai aceitar? – perguntou Tuluka.
- Mano Tuluka, então não leu no cesto? Vamos lutar contra o que está decidido? Não aceitou ontem, aceita hoje ou amanhã, a Nazamba não é nossa preocupação.
- Assim, temos que nos preocupar com quê? – indagou Tuluka.
- Com que tudo corra bem, sem lutas, sem feitiços e mortes...
- Então vou ter que começar a preparara a pemba, as folhas e os remédios, às vezes leva tempo.... – anuiu, Tuluka
- Dar-lhe já posse? – perguntou perplexo Nehone, que não avançara tanto nas suas intenções.
- Porque não? – insistiu Tuluka.
- Estava a pensar depois das eleições, aí já pariu o filho e pode voltar para ficar o tempo necessário para os rituais.
- Não, mano. Como estão as coisas é melhor que saia daqui já empossada, o regente que a gente escolher, poderá até ser o mano, deverá aguentar, são só uns seis, sete meses... – insinuou Tuluka.
Nehone quedou-se pensativo. De facto, caso não houvesse muita oposição, a neta poderia já sair pelo menos com a indicação do conselho, ou mesmo empossada, todavia os preparativos, por muito apressados que fossem, colidiam com a vontade expressa de Nataniel de regressar muito em breve.
- O conselho não vai aceitar... – retorquiu, Nehone, hesitante.
- Vai. Você é quem cuida dessas questões, eu tenho a minha voz como adivinho, aliás o cesto falará, não irão opor-se...
- Então é melhor falarmos com a Nazamba e o marido, só depois convoca-se o falatório.
- Juba de Leão disse para quando?
- Não, só pediu que o conselho fosse convocado. – informou Nehone.
- Mais logo, pela cair da tarde, vamos falar com eles. – sugeriu Tuluka.
- Poderá ser, vou mandar avisar.
Quando Nazamba e Nataniel foram informados que o tio-avô iria vê-los à tardinha, ambos tiveram o mesmo pensamento, que o velho vinha para levantar o problema que deixara, sabiam que não iria descansar até a situação estar bem definida, para um lado ou para o outro.
- O que quer esse malandro com vocês, perguntou Balanta?
- É um assunto que a mãe logo vai saber, mas terá que ser da boca deles. – respondeu Nazamba.
- Deles?!...
- Sim, mãe. Deles...- respondeu a filha.
- Eles quem, então? – insistiu.
- O avô Nehone e o mais velho Tuluka.
Balanta olhou para a filha, assarapantada. Assunto que metesse o mestre adivinho era assunto sério, todavia, mais não quis saber, Nazamba avisara-a que teria que vir deles, portanto competia-lhes aguardar. Olhou para Nataniel, que baixou os olhos e tossiu.
- Está calor aqui dentro, vou lá para fora um bocado. - disse.
Seja o que for, o marido não aceita...
- Queres um copo de água fresquinha? – perguntou-lhe a mulher.
- Não, obrigado, vou ficar um pouco à sombra, lá fora está mais fresco.
Não aceita, não!... Mas o que será que querem com eles?
- Bebe um copo de água, meu filho. Vais sentir-te melhor. – disse Balanta.
- Não tenho sede, obrigado, vou só sair um pouco. – disse, já junto à porta e de modos a evitar mais conversa.
A tarde passou lenta para Nataniel e Balanta. Nazamba, ciente do que queria e de como iria jogar as pedras, encontrava-se tranquila. Neste últimos dias revira a sua vida, desde o fatídico dia em que fora forçada a abandonar a aldeia, aos anos que passara em Portugal, até ao presente. Na verdade achou que o mundo era uma minúscula esfera redonda eternamente a girar, o que estava em cima hoje estaria em baixo amanhã, afinal o certo não era senão o lado oposto do incerto, a verdade o reverso da mentira. Quando percebeu os passos arrastados de Nehone, logo seguido dos de Tuluka e do marido, foi preenchida por uma estranha calma. Olhou para o rosto angustiado da mãe e sorriu, esboçando um beijo com os lábios. Dirigiu-se à porta, que abriu. Os três homens entraram e sentaram-se à volta da mesa, onde já se encontrava uma jarra com a cerveja, uma garrafa de vinho e vários copos, bem como um prato de milho assado, tapado com um pano.
- Boa noite, mana – disse Tuluka, olhando para Balanta, sentada junto à cómoda, num pequeno banco.
- Boa noite. – respondeu esta.
Nazamba tirou a rolha que tapava a garrafa de vinho e serviu os velhos, sabia que quando e enquanto houvesse vinho, a cerveja ficava para o fim. Estes agarraram nos copos e beberam dum trago, estalando os lábios e escancarando um sorriso de satisfação. A maneira como os recolocaram na mesa, não deixou dúvidas que eram para ser cheios novamente. Tuluka agarrou numa das maçarocas e começou a retirar do caroço o milho, com gestos precisos. Colocou os bagos sobre o plástico da mesa e foi debicando, sem pressa.
- O meu neto não bebe? – perguntou Nehone, notando que Nataniel não se servira.
- Não avô, essa é a última garrafa que tínhamos e é para vocês, vou beber um copo de água, até porque tenho sede.
Nazamba dirigiu-se ao moringue e serviu, perguntando com os olhos à mãe se também queria. Encheu os dois copos, entregando um a Balanta, que estava a seu lado, e levou o outro a Nataniel. Regressou e serviu um para si própria.
- A vossa mãe já sabe porque estamos aqui? – indagou Nehone.
Nazamba e Nataniel entreolharam-se, decidindo quem deveria falar.
- Não. – respondeu, seco, Nataniel.
- Não, avô, ela não sabe de nada, perguntou uma vez e eu disse que seriam os avôs quem teriam que lhe explicar tudo. – complementou, Nazamba.
- Fizeste bem... Boa filha. – respondeu Tuluka. – Mostraste que sabes ser prudente, lembra-te minha filha que o cão ladra com as costas voltadas para o seu dono, e que a perdiz velha não come no descampado, mas sim na encosta do morro.
- É verdade, também revelaste paciência, por isso não esqueças que andar devagar é o segredo do camaleão. – Ajuntou, Nehone.
Balanta mexeu-se, impaciente e fungou propositadamente
Tanto provérbio para quê, porque não falam já?...
- Obrigado pelos conselhos, não vou esquecer, até porque quero aprender e gosto de interpretar a sabedoria que encerram.
- É tua obrigação agora – respondeu Nehone.
Balanta, intrigada porque lhe estava a escapar a insinuação, moveu o banco para mais próximo da mesa.
Obrigação? Obrigação de quê?
Percebendo a ansiedade da mãe, Nazamba achou que deveria cortar aquela conversa fiada a que já se ia habituando, nunca se ia directo ao assunto.
Uma vez já apresentara ao marido a teoria de que os países africanos nunca se desenvolveriam porque o conceito de ligar dinheiro ao tempo, ou vice-versa, era incompreensível para as mentes. Tinha a ver com o clima e com a cultura da subsistência crónica. Assim, para tudo era feriado, por dá cá aquela palha, tolerância de ponto, conversa, só conversa, deixa para a amanhã o que podes fazer hoje. Como avançar-se assim, num mundo moderno onde cada segundo é contabilizado em termos de custos, de perdas e de ganhos?
Andar devagar é o segredo do camaleão?!...
- Eu sei avô, mas melhor é contar tudo à minha mãe.
Nehone olhou para a sobrinha, Balanta, e atirou-lhe, de chofre.
- A tua filha vai ser o próximo soba grande.
Balanta virou estátua de pedra, boca aberta, olhar fixo esbugalhado e não pronunciou uma única palavra, tão grande foi o terror dentro de si. Não encontrara a filha ao cabo de quinze ou dezasseis anos para a perder num minuto, assassinada, envenenada, enfeitiçada. Aguardaram até que se recompusesse, só Nataniel lhe tomou o pulso, e para tranquilizar a esposa.
- É a surpresa, já passa. Nazamba, dá-lhe um copo de água. – disse, este.
Aos poucos Balanta foi serenando, mas começou a tremer.
- Mãe, o que tem? – perguntou Nazamba, preocupada.
- É o choque, já passa, põe-lhe um cobertor por cima dos ombros – ripostou o marido.
- So...so...soba?... – conseguiu balbuciar, quase que inaudível.
Nazamba cobriu-a com um xaile que fora buscar, sentou-se a seu lado e segurou-lhe as mãos, friccionando-as.
- Mãe, recompõe-te e ouve tudo o que o avô Nehone tem a dizer. Eles já falaram comigo, pensei muito e decidi aceitar. Tu e eu devemos isso ao nosso soba Juba de Leão, ou a mãe já se esqueceu?
Como que movida por uma mola, Balanta ergueu-se e colocou-se entre os dois velhos, empurrando-os. Com desdém olhou para eles, de cima a baixo.
- Esqueci o quê, minha filha? Uma coisa não tem nada a ver com a outra, não sejas tu desta vez a estragar a tua vida...
- Estragar a minha vida, como?
- Também já lhe disse o mesmo, mas está obcecada. – aproveitou Nataniel.
- Por favor, Nataniel, não te metas nisto, a vida é minha.
- Não é só tua, também é minha e do filho que carregas na barriga – replicou-lhe.
- O teu marido tem razão, vais-te meter num saco de lacraus. Estes velhos estão malucos, Nazamba. Aquele que come contigo é quem te pode matar.
- Mãe, por favor, primeiro escuta o que eles têm para dizer...
- O que vão dizer? Este meu tio não foi um dos que instigou, e mesmo concordou, com a saída do teu pai e de vocês? E este feiticeiro, alguém o ouviu falar contra? São hoje os mesmos que te querem fazer acreditar que mudaram?
Nazamba sorriu, contente. A mãe, sem o querer ou desejar, encaminhava a conversa para o lado que lhe convinha, acabaria por a ter do seu lado, tinha a certeza.
- Mas é por isso mesmo que aceitei a proposta deles, mãe. Tomás e eu não somos filhos da cobra, mas sim filhos das cobras, não vês?
- O que estás para aí a dizer, não percebi. – disse Tuluka.
- Tio Tuluka, alguma vez já viu galinha fazer filho com cobra? – brincou com ele, Nazamba.
- Claro que não, que disparate é esse? – replicou.
- Como é que o Nataniel e eu, netos da mesma pessoa, o nosso avô Juba de Leão, não somos ambos descendentes da cobra? Só eu?!...
- Isso significa o quê? – insistiu, não vendo a ligação.
- Significa que cobra só faz filho com outra cobra, e não com galinha, como bem sabe e afirmou. – riu-se, Nazamba.
O velho mirou-a, perplexo e foi esboçando um sorriso que, após algum tempo, se transformou em gargalhada de apreciação.
- Muito bem, minha neta, você é esperta. Muito bem! Uma grande qualidade!
- É por aí que queres enveredar? – perguntou à mulher, Nataniel, aborrecido.
- Não falámos sobre o assunto?... Onde está o teu conceito de cidadania? – retorquiu Nazamba, provocando-o.
- Já chega de discussão. Ouve agora o que temos a dizer, se for preciso vamos mesmo mostrar-te a vontade dos antepassados. – disse Nehone, virando-se para Balanta.
- Mãe, escuta-os. Quanto mais cedo acabar melhor, logo partirão. – disse Nazamba.
- Não vou escutar nada, estes dois são feiticeiros que querem acabar contigo e com o teu irmão, não vês? Aqui não há filhos nenhuns de cobra alguma.
- Estás a chamar-nos de feiticeiros, toma cuidado porque as palavras tornam-te escravas delas.
- O que estou a dizer à minha filha, é que por muito que se tenha viajado, uma pessoa deve sempre olhar para trás, é necessário.
- É verdade, minha mãe. Mas o caminho percorrido já o está, aquele a percorrer, está à frente e é para aí que estou a caminhar. Tenta entender, há uma dívida a ser saldada.
- Dívida? Que dívida é essa? – perguntou Tuluka, novamente movido pela desconfiança
- A dívida do tempo... – respondeu, mais para si, Nazamba.
- Mano Nehone, o que fazemos? – perguntou Tuluka.
- Mãe, por favor senta-te e ouve. Suplico-te. – pediu Nazamba, segurando-a pela mão e reconduzindo-a à cadeira.
- Está bem... mas vou estar contra. – respondeu Balanta, amuada.
Uma vez o consenso formado e a harmonia restabelecida, todos se sentaram, cada no lugar que ocupara Nazamba retirou a cerveja da mesa e colocou-a na cómoda, fora do alcance dos dois mais velhos. Sugestionado, Tuluka agarrou na garrafa de vinho e serviu Nehone, depois a si próprio. Observando que a esvaziaram, Nataniel suspirou, levemente aliviado.
Melhor assim, pelo menos já não bebem mais.
Em voz pausada, denotando cansaço, Nehone contou as aspirações e os sonhos de Juba de Leão, falou da linhagem e das razões porque Nataniel não poderia seguir o avô e, por fim, das fantásticas revelações que os amuletos de Tuluka produziram, verdadeiramente inacreditáveis, não tivesse ele visto com seus próprios olhos, e Nataniel estava ali para testemunhar, não acreditaria, nunca. Nazamba era a pessoa que os que velavam pela vida e protecção da aldeia indicavam, e uma vez que ela aceitara, tudo ficava mais fácil. Havia o problema da iniciação, crescera fora dos seus e da terra, tinha muito que aprender, todavia poderia regressar a Luanda de posse tomada e o conselho dos anciãos era apresentar um regente, um dos chefes mais graduados e que já tivesse dado provas de capacidade, até ao seu regresso à aldeia, após o nascimento da criança. Tuluka seria o seu mestre oficial para ensinar-lhe as tradições, os costumes, os hábitos e as crenças, assim como lidar com elas. O regente, seria então o seu ministro principal e que lhe faria ver o difícil lado da governação, da sensatez, da ponderação, da avaliação dos factos e dos acontecimentos, entre outros.
- Vocês estão malucos!... – cortou Balanta, incapaz de mais ouvir.
- Malucos? Olha como fala, minha sobrinha, mais respeito. Não somos nós que mandamos, essa mensagem vem do além, você quer ver?
- Quero, sim, quero ver. – desafiou.
- Olhe que eu assisti, e é verdade. – avisou Nataniel.
- E não tinhas bebido antes, estes velhos não te deram de beber? – não se deixou abater.
- Chega de conversa. Mano Tuluka, por favor consulta o cesto.
Tuluka estendeu a esteira no chão, junto à porta e de costas para a mesma, retirou do saco próprio os amuletos e lançou-os para dentro do balaio.
- Chega mais perto, que é para você ver com os teus próprios olhos. – disse Tuluka para Balanta.
Acendeu um pequeno fogo sobre o qual colocou uma lata, e para aí lançou uns pós que produziram uma ténue nuvem de aromático fumo, talvez de eucalipto, e deu início ao cerimonial, com as cantilenas só de si entendidas. Levantou-se e, saracoteando o corpo, dançou três vezes à volta do cesto de adivinhação. Agarrou num pedaço de pemba branca, e colocou um risco vertical na testa e dois oblíquos nos pomos do rosto. Sentou-se novamente, de pernas cruzadas, e ergueu o cesto acima da cabeça, implorando para que os antepassados lhe mostrassem mais uma vez a verdade e os desejos deles. Baixou o balaio, remexeu-o várias vezes como que peneirando os amuletos, e lançou tudo à sua frente, na esteira. Os olhos dos presentes convergiram para a mensagem, que ele interpretou. Quase no centro, representando, portanto, uma decisão consensual, ao lado das penas de galo e de dois pauzinhos avermelhados, o elefante fêmea, por qualquer lei de equilibrismo natural, permanecia de pé sobre o dente de leão. Balanta olhou, lançou um profundo grito e principiou a tremer, crente que perdera Nazamba definitivamente. Sem saber qual e por que motivo, queriam-lhe comer a filha. Nunca na sua genealogia houvera qualquer tipo de impedimento, disso pensava estar certa, não houvera interdição quebrada.
Nazamba abraçou-se à mãe, enquanto Nataniel meneava a cabeça.
- Agora já acreditas? Já viste com os teus olhos? – perguntou, autoritário, Tuluka.
- Nunca mais afirmes que somos velhos malucos ou feiticeiros. Quem muito fala em feiticeiros, acaba por cair nas suas malhas. – ajuntou, zangado, Nehone.
- Não fomos nós quem indicou a tua filha Nazamba, foram eles, os que vivem debaixo da terra nas lagoas, eles é que falaram. – disse Tuluka.
O silêncio foi longo. Balanta recompôs-se, retirou-se do abraço da filha e ergueu-se.
- Se alguma coisa acontecer à minha filha, nem os maiores feiticeiros da região vos vão salvar – anunciou Balanta.
- Esteja tranquila minha sobrinha, nada vai acontecer à tua filha, ela só vai assumir o destino que lhe está reservado. – respondeu Nehone.
- Nas vossas mãos?... - insistiu Balanta.
- Sim, nas nossas mãos! – responderam quase em uníssono Nehone e Tuluka.
- Por acaso não está ela grávida? – perguntou a velha?
- E depois?... Vai ter o filho em Luanda e volta, não há problema...
- Mãe, será melhor que entendas que nada me vai demover, até porque não fui eu que procurei, nunca tal me passaria pela cabeça.
- Achas que o teu pai iria aceitar tal coisa? – perguntou Balanta.
- Teria um grande orgulho, estou certa. Não foi com a filha do soba grande que ele se casou? E se pudesse estar aqui hoje, depois do que nos aconteceu, com mais razão me apoiaria.
- Vejo que nada conseguirei. Não sabes o que está à tua frente, não conheces as leis e o regime nosso ...
- Posso aprender, mãe. E vou fazê-lo, vou começar mesmo hoje, agora já.
- Assim é que se deve falar. A força do crocodilo está na sua própria cauda. – respondeu Nehone.
- Avô, o que vem depois? – perguntou Nazamba, para fazer ver à mãe e ao marido que nada a demoveria.
Nehone olhou para Tuluka, que se levantou e assentiu com uma suave inclinação da cabeça. Sentaram-se os dois à mesa.
- Minha neta, vai buscar a cerveja e serve-nos, de garganta seca não sai palavra que se entenda.
Nazamba trouxe a cerveja e dois copos limpos que os velhos puseram de lado, preferindo utilizar os usados. Sorveram os restos do vinho no fundo e estenderam os copos, colocando-os um ao lado do outro. Nazamba serviu-os e pousou a garrafa ao seu alcance. Saborearam a cerveja, estalaram os lábios com prazer e sorriram um para o outro, felizes.
- Quando chegar o momento, vais ter que reunir com os mais velhos que te vão ensinar como te preparares. – disse Tuluka.
- Preparar-me, como? – indagou Nazamba.
- Terás tempo para saber, eles é que te vão dizer como e porquê. – respondeu Nehone.
- E depois?
- Depois? Depois escolherão quem te vai ajudar, os teus conselheiros directos, aqueles que serão os teus olhos, os teus ouvidos, a tua boca e até mesmo as tuas mãos.
- Ai minha filha... minha filha!... – começou Balanta a chorar.
- Mãe, por favor, até parece que vou morrer!... – implorou Nazamba.
- Não digas essa palavra. – cortou, rápido, Tuluka.
- Olha, a tua mãe não está bem, está nervosa. Voltamos amanhã à mesma hora. – disse Nehone, acabando a cerveja que tinha no copo.
Tuluka repetiu o gesto, olhou para a garrafa não acabada e, resignado, levantou-se para proceder à arrumação dos seus pertences. Notando o suspiro do amigo, Nehone agarrou na garrafa e acabaram a cerveja de milho, tendo de seguida saído.
- Durmam bem, até amanhã. Voltamos. – disse Nehone.
Balanta não parava de chorar, baixinho, mais parecia o piar de um pinto moribundo. Nataniel, nervoso, não sabia o que fazer, não desejava ser parte de toda a trama, sempre esperançado que a qualquer momento Nazamba acordasse do sonho que vivia e se rendesse às evidências e aos factos. Entendia o seu desejo de acertar velhas contas, mas conhecia muito melhor do que ela os contornos das lutas sucessórias, sobretudo quando as nomeações se haviam transformado mais do que nunca num jogo político e de força dos dois contendores na guerra que grassava no país. Cada um desejoso da posse deste ou daquele soba, já que os mesmos controlavam homens, controlavam jovens para a máquina de guerra, controlavam produção, mandioca, milho, frangos, cabritos, porcos. E ela, mulher desenraizada, aculturada, mulata, onde poderia chegar? Estava certo de que em Luanda, uma vez no seu meio natural, conseguiria demover a esposa das ideias estapafúrdias que agora albergava e conjecturava, aliás contaria com o apoio de Balanta.
Do lugar em que se encontrava sentado, quedou-se a olhar ora para a esposa ora para a sogra e deixou o tempo escoar. Finalmente a velha calou-se, cansada, e retirou-se para o quarto onde dormia com a filha.
- Não fiques assim!... – disse Nazamba, colocando-se a seu lado e passando-lhe a mão pela cabeça, afagando-o.
- Se eu soubesse que tudo isto iria acontecer, nunca teríamos vindo...
- Mas meu amor, o que está a acontecer é o que teria que acontecer, e digo-te isto sem fatalismo. Não acreditas que o destino de cada um é traçado à nascença?
- Isso é um absurdo, o destino somos nós quem o delineamos, até pareces uma mulher sem estudos. – respondeu, meio agastado, Nataniel.
- E as interferências externas que não controlamos?
- Quem disse que as não controlamos? Não poderás parar com toda esta brincadeira de mau gosto, e regressar logo para Luanda?
- E as consequências da quebra do que não deve ser quebrado, quando os factores são extrínsecos? Somos responsáveis pelo que é de nossa monta, nada mais.
- Estou muito cansado e não é o momento nem o lugar para falarmos sobre este assunto, vamos dormir, vai ter com a tua mãe.
Nazamba deu-lhe um beijo da testa, acariciou-lhe o cabelo e retirou-se. Nataniel, exausto, colocou os braços sobre a mesa, deitou neles a cabeça e adormeceu.
No dia seguinte, logo pela manhã, foi ter com o avô, decidido a contar-lhe tudo e a informá-lo que desejava regressar e que tão cedo quanto possível mandasse avisar o camarada comissário para os vir buscar.
Fez-se anunciar e entrou quando ouviu que o chamavam. Encontrou o velho sentado na sua cadeira, agasalhado com um cobertor e com um ar bastante cansado. Sobre a mesa, os restos da comida que não acabara e uma caneca, ainda intacta, de cerveja.
- Tão cedo já a visitar? – indagou Juba de Leão.
- Bom dia avô, vim para o visitar e tratar de um assunto, mas parece-me que está doente. Está a sentir-se bem?
- A velhice, meu neto. A velhice. – respondeu, tendo uma ligeira sezão.
- O avô está com frio? O corpo dói-lhe? – insistiu Nataniel, passando-lhe a mão pela testa para ver a temperatura. – O avô está com febre, e pelo que vejo deve ser paludismo.
- É... O corpo dói-me, mas o corpo de um velho dói sempre. O frio, já passa, e só ir para o sol.
- Aqui não lhe posso fazer nada, mas tenho cloroquina que o avô vai tomar, agora duas, depois venho dar-lhe o resto quando chegar a hora. Volto já.
- Não te preocupes, isto é coisa de velho, o mestre Tuluka cuida.
- Nada disso avô. Vou a casa e volto já. E faça o favor de não beber cerveja nenhuma, só água.
Ao sair, ouviu o velho rir e se lhe pudesse ter lido a mente, descobriria que lhe chamava criança da cidade, já esquecido dos remédios da terra e das maneiras como o povo curava as maleitas. Quando regressou, obrigou-o a tomar os dois comprimidos e uma aspirina e mandou retirar toda a cerveja que encontrou.
- Hoje vou passar o dia aqui com o avô, vai ficar bom, rápido.
- Se é o senhor doutor Nataniel que o diz... – e riu que se fartou.
- É verdade avô, é o senhor doutor Nataniel que o diz, por isso vai ter que respeitar a palavra do médico. – respondeu, rindo igualmente.
- Mas o que é que querias, assim tão cedo?
- Nada de especial avô, estava a pensar que chegou a hora de regressarmos...
- Qual é a pressa, ainda faltam duas semanas para o camarada comissário vir.
- Sei, mas agora já cá está a minha sogra e a barriga da Nazamba está a crescer, acho que a hora da partida está próxima...
Mais uma vez Juba de Leão desatou a rir com gosto. Com os olhos procurou o cachimbo.
- Você é mesmo um médico, mas um médico branco, está preocupado com o crescimento da barriga da tua mulher? Isso não é das velhas? A tua sogra, você acha que alguma vez eu vi a barriga da mãe dela? Só quando nasceu é que Kolele mandou informar que tinha uma filha.
- Mas os tempos hoje são outros, avô, e nós vivemos na cidade onde há hospitais e parteiras...
- Tens razão, estou caduco já nem penso direito. Está na hora de eu ir, de deixar este mundo... passa-me o cachimbo.
- Mas o que é isso, avô? Que conversa é essa? E está doente, não devia fumar...
- Deixa-me fumar à vontade, ou achas que é agora que me vou preocupar com o fumo? Um dia quando estiveres velho vais entender. Quando a gente sente que a nossa hora está já ali, não há medo...
- Então avô acredita no destino, que está tudo escrito? – perguntou, curioso, lembrando-se da conversa na véspera com a esposa.
- Destino? Não sei bem o que é isso, mas que a minha chamada está próxima eu sei, a minha vida foi muito cheia, fiz muitos filhos, deixo descendência grande, cumpri com o que devia cumprir e vou viver noutro sítio, com outras pessoas, vou viajar. A primeira morte foi quando me fizeram a iniciação, depois vêm todas as outras que tiverem que vir.
Nataniel ficou sem saber o que lhe dizer. O velho retirara-lhe os argumentos que pretendera usar para lhe contar o que desejara.
- Mas avô, a falar dessa maneira e com esse sentimento, a sua sucessão?
- Afinal era isso, também tu queres falar da minha sucessão? Pois fica a saber se depender de mim, tu serás o meu sucessor. Mas disso vamos falar noutra altura, primeiro o conselho tem que reunir
- É muito duro o que vou dizer, mas não conte comigo. Não posso abandonar a minha vida em Luanda, sobretudo agora que Nazamba está grávida e vir viver aqui, avô.
- Mas não precisas de viver aqui, podes viver na capital da província, lá também tem hospital e escolas para os teus filhos...
- Já não sou mais um homem do interior, lamento dizer-lhe, capital para mim é só Luanda. Daqui só me restam vocês, a família, que posso visitar uma ou mais vezes por ano, vir apresentar os filhos...
Juba de Leão baixou a cabeça e adormeceu, talvez para não ouvir as verdades terríveis que o neto lhe dizia, ou porque o cansaço tivesse levado a melhor, não obstante ser ainda manhã. Nataniel, angustiado, olhou para o avô e recordou o dia em que a aldeia festejara a sua ida para Cuba, sabendo o que dele se esperava. De pé, sentiu as lágrimas rolarem-lhe pela face. Como podia ter-lhe perguntado se acreditava no destino, que estava tudo escrito, quando ele mesmo nem fora capaz de o ler, quanto mais, escrever?
Perdoa-me meu avô. Perdoa o meu egoísmo e a minha ignorância.
Agarrou no livro que trouxera, sentou-se junto à porta e tentou ler, limpando o resto das lágrimas com as costas da mão. Achou melhor não avisar os outros, ele cuidaria do velho enquanto pudesse.
Minhoca! É o que tu és, uma minhoca egoísta...
Por volta das nove da manhã, estranhando a sua ausência, Nazamba mandou-o procurar. Como o velho dormia em paz, a baba a gotejar na camisa velha e desbotada, Nataniel limitou-se a colocar a mão sobre a sua testa e preferiu deixá-lo assim, com receio de o despertar, sabia que o avô recusaria ir para a cama. Pediu ao moleque que viera com o recado que lhe indicasse a casa de uma das esposas, certamente ao lado na cercadura principal. Informou-a que o velho estava doente, talvez paludismo, seria aconselhável que ela fosse para lá, mas que o não acordasse, qualquer outro problema, que o chamassem de imediato, estaria em casa com a esposa.
- O velho está doente. – disse, ao entrar em casa e sem cumprimentar.
- O que tem? – perguntou Nazamba.
- Penso que seja paludismo, pelo menos parecem ser os sintomas. Já o mediquei e mandei para junto dele uma das esposas. A tua mãe?
- Está lá fora, pelo menos acordou mais resignada.
Nataniel encolheu-se, lá vinha a conversa de novo, achava-se completamente esvaziado. Achou por bem não responder e pediu uma muda, queria ir tomar banho antes de comer. Trocou de ideia e falou para a esposa, aproveitando a ausência da mãe.
- Quando fui ver o avô, era para lhe dizer que vamos partir o mais cedo possível.
- Nataniel, sabes que não poderá ser bem assim, até a minha mãe já concordou...
- Tenho-me mantido afastado de tudo isso propositadamente, mas acho que chegou o momento de começar a bater com o pé no chão, a minha harmonia psíquica começa a estar em causa.
- Meus Deus, que exagero querido! Que não te sintas confortável, entendo, todavia estares a perder o controlo de ti mesmo, por favor...
- O que te quero fazer sentir, é que não vejo uma saída feliz para as tuas intenções loucas.
- Até já pareces a minha mãe a falar. Loucas ou não, vou para a frente e assim que acabarmos de comer, vou pedir que o avô Nehone venha cá. Se quiseres estar presente agradeço, caso contrário nada posso fazer.
- Esta não é a mulher com quem eu casei... – disse Nataniel, sofrido.
- É sim, meu querido, sou a mesmíssima, só que agora mais decidida, até porque carrego no ventre um filho teu. Será que também é da cobra?...
- Nazamba, meu amor, vamos regressar a Luanda...
- Nataniel, só te perdoo porque sei que não estás a fazer de propósito, mas domina os teus receios e trata de me dar o apoio que vou precisar. Pára de pretender que não me entendes.
- Claro que te entendo, não luto contra a tradição, nada tenho contra as cerimónias a que assisti, acredito que tudo isso possa ser possível. Não vejo é o teu futuro aqui, e muito menos como soba grande.
- Mas se fosse ao contrário, Nataniel? Se fosses tu, tudo faria sentido, não é?
- Não podemos enveredar por esse caminho, é mera especulação, eu nunca aceitaria tal proposta, e por razões e motivos mais do que evidentes.
- Talvez... talvez. Mas tu pertences às maiorias, não é assim que te ensinaram lá no partido? Eu sou uma minoria e, portanto, devo-me submeter, não é?
- O que estás para aí a dizer?
- Mas olha que aqui quem está em minoria és tu. – mofou, com ele.
- Nazamba, não brinques com coisas sérias, é a nossa vida que está em jogo.
- Precisamente, meu marido! Finalmente entendeste!...
Furioso, esqueceu-se da muda e do banho, e saiu porta fora.

O IMAGINÁRIO NO TEXTO ANGOLANO


ANTÓNIO SETAS

Nasceu no Lobito em 1942 e, fugindo à integração no exército colonial português, obteve estatuto de refugiado político da ONU. Licenciado pela Universidade Livre de Bruxelas em Ciências Políticas, publicou vários livros na França. Tem, na Editorial Nzila, “A Caixa de Chifre Preto” e “Os Filhos do Papá Dya Kota”, de onde se retirou o presente excerto. Vive em Luanda.

OS FILHOS DE PAPÁ DYA KOTA

Mal tivesse a ocasião a Lia aparecia no Bairro, ficava durante três ou quatro dias em nosso casa e repartia para Porto Amboim, vaivém que se repetiu durante mês e meio. Esta azáfama devia-se à falta de peixe decorrente de uma violenta kalemba (marés violentas) de Agosto, nada a ver com a que levara o Belela, contudo causadora de sérios danos materiais, sobretudo a pescadores do Mussulo e da Xicala. Queixavam-se os luandenses, que viam o preço do pescado a disparar à toa, queixavam-se as senhoras das salgas, as fábricas e os próprios pescadores, que além dos danos sofridos não viam peixe nem dinheiro a entrar. E foi por essa altura que correu pelo Bairro o mujimbo (boato) de que se ia organizar um kakulu, método infalível para acalmar, pedir clemência e ajuda às yanda (Espírito das águas. Vocábulo associado., abusivamente, às sereias), porque o mais certo era elas terem sido vítimas de desrespeito intolerável, vá-se lá saber por via de quem.
Entre as pessoas que mais se animaram com a nova estava a Lia. Ela queria ver para acreditar no que lhe diziam algumas pessoas do Bairro, que as yanda são como nós humanos, vivem entre nós – há quem tenha visto as cidades onde elas habitam -, mas que normalmente só se consegue ver um ou outro sinal da sua existência, luzes, lençóis e fitas de luz com muitas cores debaixo da água. Sabia que elas são ituta, seres espirituais terrestres, que interferem na vida das pessoas tanto para o bem como para castigar, isso depende das pessoas, do comportamento das pessoas, de muita coisa. Vivem na água e podem encarnar, por exemplo, os gémeos, as pessoas que nascem depois de nove meses de gravidez, ou os que ao nascer já vêm com dentes, são ituta verdadeiros, e mais vale acarinhá-los e fazer-lhes todas as vontades, senão pode haver azar. E não era preciso explicar-lhe que os territórios das yanda são como os das províncias de qualquer país, encostados uns nos outros, com a diferença que vão do mar ou das águas interiores para a terra firme, e que aí, em terra, elas têm as suas árvores, o embondeiro sobretudo, mas também outros “paus de sereia”, como a matebeira, a musekenya e o ife, isso sabia a Lia. Mas pouco sabia do kakulu, cerimónia organizada em honra das yanda, rito antigo de veneração e reposição do respeito que lhe é devido, mais não seja que pela inegável influência que elas exercem sobre os caprichos do mar. Sabia que o kakulu era a sua mais alta expressão, mas não lhe conhecia a feição, nunca o tinha vivido. E agora, arrancada à sua zona “de fora”, com muita doçura bem entendido, sentia-se um pouco perdida no Bairro, queria saber, fazia perguntas, “Orienta-me”, pedia-me ela. Porém, a minha sabedoria sobre essa delicada matéria era de duvidosa origem, dado que os kakulu da Ilha tinha-os eu vivido de longe, e quem oficiava eram Ilamba do Cacuaco, ou do Caxito. Debatia-me entre as duas versões, a da Ilha e a do Kwanza. Além disso, sabia muito bem que a gente da Samba, da Corimba e do Mussulo, consideravam esses ilamba do norte de Luanda pouco credíveis. De pouco lhe podia acudir. Quem tentou ajudar, embora sem nunca lhe dará a boa nova que ela tanto esperava, foi o meu pai.

Um dia, como não podia deixar de ser, conseguimos enfim falar do kakulu. A conversa já tinha começado antes, não à volta de uma mesa, como bem assenta a qualquer uma, mas à beira da minha chata nova, entregue na véspera, modificada, tal e qual como eu queria, pintada de azul, pronta para ir para o mar. Tinha-se-me metido na teimosia ter um mastro, arranjar maneira de fabricar um dispositivo para montar o mastro e dispor como deve todos os aparelhos de segurar a vela, cordas e roldanas, todo o necessário para navegar nas calmas. A Lia não percebia nada de barcos à vela e alheou-se um pouco do bate-papo. Entretanto nós, o meu pai e eu, debruçavamo-nos tanto ao próprio como ao figurado sobre o problema, metíamos a cabeça nos fundos da embarcação para ver como montar um reforço que aguentasse com segurança a pressão do mastro, quando a Lia, que não se explicava a razão dos nossos contorcioismos, me perguntou: “Mas que ginástica é essa, Rui?”. Ergui-me – o Luisão não, continuou debruçado a imaginar soluções e- e expliquei-lhe que era preciso um reforço nos fundos para aguentar o mastro, que sem vela não dava geito ir para o mar…
“Vem até aqui, vem”, fez ela baixinho. Pegou-me pelo braço e afastámo-nos, “Deixa-te disso. O meu pai vai te dar um motor… chuutt!, é segredo”. Caí das nuvens, “Um motor!!?...”, “Sim, um motor de 40 cavalos. Tu não sabes o que é um motor?”… Fiquei muito contente, é claro, dei-lhe uns beijos mais ou menos castos, pois havia por perto uma boa dúzia de mirones, e ela não perdeu o ensejo para me pedir o troco da boa notícia que me tinha dado, “pede lá ao teu pai que me leve ao kakulu?” Num reflexo intuitivo olhei para trás, vi o Luisão a extrair-se penosamente de entre os bancos da chata e disse, “Quando formos almoçar”.
Durante o almoço que se seguiu abordei com pezinhos de lã a importâncias das yanda no nosso trabalho, a necessidade de um kakulu com tanta falta de peixe, os prejuízos, as kalembas, e a certa altura a Lia perguntou, “Mas há kakulu ou não há?”, e eu, muito depressa, “Vai haver, sim, vai haver, o pai explica”. Calei-me logo, não viesse de lá um tradiconal “Cala a boca!”. Mas o Luizão tinha de facto mudado muito. Alem disso ele bem sabia que a Lia se interessava pelo assunto porque no nosso bairro não havia muro que não tivesse orelhas. Olhou para ela com meiguice, todo ele dentes ao léu, e anunciou, “Vão haver kakulu sim senhora, e tu agora és da família, estás “por dentro”. Calou-se de repente, cobriu-se-lhe o rosto de tristesa, por um pouco não lhe desapareciam os olhos como quando se zangava, mas lá conseguiu subtrair um sorriso do precalço que se aprestava a anunciar, “Tem havido maka grossa com aquela malta da ilha. Organizam kakuku p’ra turista, ‘tás a ver, uma vez até a imprensa lá foi meter o nariz, não pode ser… Este kakulu é só do Mussulo, na Barra do Kwanza. É uma cerimónia de mais velhos. Depois, no dia seguinte, vamos benzer as praias, talvez nessa altura… vai ser difícil. Fica para outra vez, ‘tá bem?”.. Ficámos tristes. A Lia olhou para mim com ar de quem diz “Já sabia que ia ser assim”… Mas concodámos, as razões dos mais velhos respeitam-se.

***

Estava de facto previsto organizar um kakulu. E a habitual colecta já tinha começado algumas semanas antes, pouco depois da kalemba de Agosto. Prolongar-se-ia pelo menos por mais uns dois ou três meses. É que se quiséssemos venerar com justo aparato as nossas yanda, ainda faltava muito dinheiro para poder adquirir o peixe, a farinha de mandioca, as outras vitualhas, os garrafões de vinho, as grades de cerveja, as garrafas de uísque e de cognac, aguardente e caçaças de marufu, o tudo comprado em grandes quantidades na candonga (mercado paralelo, informal). Tanto dinheiro, não era em menos de quatro ou cinco meses que se poderia arranjar. Isto sem esquecer os utensílios diversos, os tecidos, os pratos, os copos, as mesas do culto e os ingredientes para a água lustral, o dikoso (líquido lustral, de purificação, na religião animista), antigamente uma mistura de caulino branco, água e noz de coco. Muito, muito dinheiro. Estavam já a contribuir, e continuariam, a fazê-lo, os patroões das “grandes redes”, muitos pescadores independentes e a grande maioria das senhoras “natas” ligadas à faina. Os empresários da pesca motorizada e industrial não participava, Nem tão pouco tinham sido contactados.

Quanto aos participantes no kakulu, há séculos que são, por assim dizer, os mesmos, os filhosda terra, neste caso preciso os filhos da ilha ligados à pesca, as “famílias natas” residentes no Mussulo e nas terras da baía do Mussulo, até aos limites norte da Samba. Muito mais reduzido seria o número de “famílias” que viriam da ilha de Luanda e dos musseques, “do mato”, que apenas seriam aceites se fossem fornecedores de pescadores às “sociedades” de pesca à rede da zona do Mussulo e da Samba. Porem, desde que entrassem, todos eles sabiam que, participando na cerimónia, seriam bem-vindos, mas que pela mesma ocasião, enquanto se realizava o kakulu, ficaraim sujeitos às Ijila (plural de kijila, que significa interdito) do costume. Ser-lhes-ia interdito pescar e comercializar peixe, tomar banho na praia, lavar mais de meio corpo, mudar de roupa, ouvir rádio e ter relações sexuais. Em troco, todos beneficiariam, mais que os que não viessem, do estatuto de muxiluanda (da Ilha, nativos da Ilha de Luanda) “puro”, assim como das dádivas das yanda.
Contudo, como era de esperar, antes do kakulu teve lugar o casamento. Na Igreja da Nazaré. Confesso que me senti mal no fato que me comprimia. Abria os olhos para o aparato do culto católico como se estivesse a vê-lo com lentes de alcanço, as minhas raízes tremiam enquanto eu esperava a noiva ao lado do altar, é só confortei o meu desânimo ao pensar que o amor a tudo leva e seja onde for que ele nos conduza, sempre prevalece a sua força. Pensei no otor que ia receber e me separava também das tradições antigas, numa corrida às benfeitorias do progresso. E contiuei à espera, enquanto ao meu lado o kota Kiala e a Lena, escolhida à última da hora para madrinha, o que lhe ia causando um chelique de felicidade, tremelicavam de emoção, tabnto ou mais do que eu. Chegou enfim a noiva, de braço dado com o pai Faria – “A Lia, tão bonita… e o rapaz tão atrapalhdo!”, diri mais tarde a vó Júlia -, fui para recebê-la, ela deu-me o braço, e avançámos para o altar. Chegou o momento de dizer sim, foi o que fizemos. Demos aquele bejinho, e quando a cerimónia acabou vieram outros com algumas lágrimas, numa grande mistura de sentimentos, alegria, medo do futuro, esperança no futuro, tristesa pela separação perene dos pais, com os filhos, todas essas emoções que dão à vida algum sentido.
A boda decorreu no “Kyanda kya anazanga”, um centro cultural da moda, perto da Xicala. Música, maestro! Veio de lá o Faria e saltaram dos bastidores os quatro músicos que animaram a festa. Comida aos montes; bebidas às pipas; música e dança até ao nascer do sol. Um casamento como muitos outros, alegre e embriagador.
A nossa lua-de-mel – outro mambo do progresso - , qual lua-de-mel qual carapuça!, foi no Bairro dos Imbondeiros, ao lado do motor de quarenta cavalos, sorrateiramente entregue à Lia e agora escondido num canto da casa.
Para evitar makas relacionadas com o kakulu, que estava marcado para a semana seguinte. Isto, sabendo que não ia participar, agora imaginem se eu participasse.

///

Por razões que não identificava, senti que “alguém” queria impedir que me fossem revelados os segredos maiores do kakulu. Um dia, que fomos comer uns cacussos ao cacuaco – estava a equipa completa – a Lena, a Lia, o kota Kyala e eu -, atrasámo-nos depois do almoço a falar da necessidade de preservar as nossas raízes e defender asd tradições legadas pelos nossos antepassados. A um dado momento o kota disse uma frase que me marcoui para sempre, nunca mais a esqueci, “As tradições antigas, a nossa religião, a wanga (feitiço) e os seus rituais, são absolutamente indispensáveis à afirmação da nossa identidade africana, banto e negra, mas podem nos trazer alguns inconvenientes graves, podemmesmo ser perigosas”. A frase ficou assim no ar por ciima do silêncio que se instalou, até ao momento em que eu lhe perguntei quais eram esses inconvenientes e perigos. Ao nosso lado estavan a Lena e a Lia a falar dos segredos do pastel de nata e da massa folhada, distraídas da conversa, e o kota, depois de lhes ter lançado uma mirada rápida e constatar a distração que as afastavam do nosso diálogo, quase me segredou que havia ainda nos nossos dias muloji, feiriceiros, que organizavam sabbat secretos em terrenos reservados. Fiquei na mesma, porque não sabia o que significava a palavra sabbat, nem percebia o que queria dizeer “terrenos reservados”. E o kota, que bem sabia que eu não sabia, explicou-me que o sabbat é uma cerimónia que tem lugar sempre num sábado de lua cheia em presença de “feiticeiros” ou “feiticeiras”, num sítio bem determinado, à meia-noite, e na qual se apelam forças ocultas: Pás, alguns espíritos bons, chamados para acudir às doenças ou às dificuldadees da vida, mas também Luciferes e outros princípes das trevas, espíritos, génios e divindades maléficas, no fito de justificar actos que o menos que se possa dizer deles é que não são dignos de seres humanos. A verdade é que em alguns desses sabbats pratica-se ainda hoje a antropofagia. E, enquanto as “nossas mulheres” continuavam a falar de culinária, o kota explicou, “Trata-se de tradições antiquíssimas que ainda hoje se realizam em muitos bosques e florestas do mundo interiro. É verdade que a África actualmente é o continente em que mais se praticam rituais desse tipo, dugamos, campestre. E como não, se o colapso que se deu na nossa história e a maneira como ele foi vivido nos diferencia do resto do mundo? Esse salto repentino para o que os europeus chamam o Renascimento e que para nós foi da azagaia para o arcabuz e o canhão, faz com que nós estejamos fatalmente mais próximos dos rituais animistas celebrados à vista de toda a gente na pré-
história da humanidade. Assim, o que nessa matéria passou a ser kijila, proibido em Angola há cem ou duzertos anos, em certas províncias nem isso, foi proibido muito antes noutras latitudes, por exemplo, na Europa foi há coisa de mil anos. Mas nenhum interdito impediu que vestígios desses rituais tenham resisitido ao passar dos séculos e existam ainda hoje. Um amaigo meu, um português que foi preso pela PIDE e depopios ficou a viver em Luanda, constou-me que ainda aqui há uns anos, nasa serranias isoladas de Trás-os-Montes e da Berira realizavam-se cerimónias rituais cujas origens datam do tempo dos Iberos e dos Godos, quer dizer, coisa de dois ou três mil anos atrás. E factos desses foram relatados por um dos mais ilustres escritores da língua portuguesa de sempre, Aquilino Ribeiro. Por exemplo, contou ele, perto da casa dos seus país, em Ferrães, uma aldeia nos contrafortes da Serra da Estrela, realizavam-se sabbats numa clareira do bosque que começava no fundo do quintal. Ele próprio foi curado de uma hérnia nessa clareira.
“Tiraram-no da cama já noite fria, saíram de casa e levaram-me ao colo até ao bosque. Com ele iam pai, mãe, avó, os os empregados da casa e gente d aldeia. Caminharam até chegar à clareira e estacaram. O homem do ofício, o feiticeiro, curandeiro, fosse lá o que fosse, cortou com uma faca o fuste dum carvalhiço ainda tenro ao meio, no sentido longitudinal, fez força com as mãos parta separar as duas partes assim obtidas e continuou a fazer pressão até formar uma elipse. À meia-noite, nem minuto a mais, começou a cerimónia. O rapaz, o meu amigo, que nessa altura devia ter uns dez ou onze anos, foi erguido à força de braços, passaram-no para os do cura pagão ou lá o que era, depois passaram-no para os braços do pai e da mãe, fizeram-no balançar de um lado para o outro enquanto o cura a andar em seu redor fazia as suas preces, deitaram-no por cima do corpo um líquido cuja composição era secreta, e em seguida fizeram-no passar pela fenda elíptica do carvalhiço fendido. Receberam-no do outro lado, estenderam-no no chão, por cima de um pano ali posto para o efeiro, e cobriram-no. A terminar o ritua, o “feiriceiro” português reajustou as duas partes do fuste que tinh sido fendido, botou barro à volta e ligou o tudo com vimes e tiras de panos tosco. E disse: “Se o carvalhiço soldar, se não morrer e vingar, o menino também soldará”. Era o que toda a gente esperava, para que a hérnia também solde, senão… Mas a arvorezinha mártir vingou, e ele ficou curado”.
A Lena e a Lia estavam agora de orelha espetada a ouvir, e o kota Kyala esforçou-se para que a conclusão fosse educativa, “De qualquer forma, tal como as portuguesas, ou outras quaisquer, as nossas raízes, por mais fortes que sejam, estão condenadas a sair dos usos e costumes, é fatal. Não é contra tal oráculo que devemos lutar. Devemos sim, ao invés da maioria dos países modernos, respeitar os mistérios que elas albergam, preservfar do esquecimento a seiva dignificante que delas nos vem, e continuar a praticá-las nos terreiros que são delas, sem prosápia nem vergonha”.

Neste preciso momento o kota calou-se, olhou para mim com olhos muito abertos e perguntou-me, “Rui, diz-me por favor, porque é que alguns de nós, angolanos, principalmente os que fazem parte das elites mais requintadas do país, temos vergonha das nossas tradicções religiosas? Porque é que não veio ainda ninguém clamar alto e forte, para o mundo inteiro, que as nossas tradicionais relações com o “Sagrado” são tão dignas de respeito como as que deram origem às “grandes religiões”, como o judaísmo, o cristianismo, passando por todas, todas as outras, desde os muçulmanos aos hindus, budistas e zens, animistas de todas as espécies, todas, a um dado momento da sua história recorreram a sacrifícios rituais, muitas das vezes envolvendo vidas humanas. Todas, Rui, todas! Temos o privilégio de possuir as mais antigas raízes da humanidade e sermos um dos povos que nais próximo estão delas. Guardemos essas raízes. E mostremos ao mundo, que tem memória curta, que é de tradições semelhantes às nossas que todos os povos do mundo provêm. E um dia, daquei a dez, cem, mil ou mais anos vai-se lá saber, se não houver mais lugar para tradições algures, nós não, devemos continuar a guardar as nossas na memória colectiva e transmiti-las às gerações vindouras. E eu, Kyala, acredito que nunca morrerão”.

///

O KAKULU

“Havia uma ilha ali perto da Barra do Kwanza, que era a do Tumbu, ixi iala um kaxi ka Kwanza, a ilha no meio do rio, onde se realizava o kakulu. O Kilamba-Kiaxi, o único que fala com o “reo dos peixes” e com os espíritos das águas, as yanda, também chamamadas de ituta, ou iximbi, chegava à ilha a bordo do ndongo, acompanhado durante todo o trajecto que fazia ao longo do rio por muitos outros ndongo apinhados de gente que ia assistir ao kakulu. Abençoava-os com água do rio, que derramava sobre eles com um ramo de mulemba. Quando chegava à ilha, esperavam-no os idosos e os chefes das terras do Kwanza, mas ele oignorava-os e logo se dirigia para o sítio onde estavam dois anciãos ao lado de duas bacias esmaltadas com o dikoso, a água lustral, na qual ele mergulhava o ramo de mulemba e então sim, benzia todos os chefes presentes. Em seguida entregava o ramo da mulemba a um dos anciãos, um umbanda, que por sua vez benzia toda a gente que se agrupava no terreno. Feito isso, o Kilamba retirava-se. Caminhando sempre ao lado do rio ía ter a uma grande clareira onde se erguia uma mulemba centenária que protegia a cabana sagrada que ali estava, feita de ervas e vimes, o dilombe, onde ele iria descansar. Antes da noite cair preparavam-se as mesas para a cerimónia do dia seguinte.
No dia seguinte, de manhã, o Kilamba-Kiaxi saía do dilombe com um chocalho numa mão e umka flauta na outra, acompanhado por um pequeno grupo de anciãos e, mais atrás, o umbanda, que ia benzendo todos por quem passava. E todos que ali estivessem seguiam o Kilamba até à praia que dava para o rio, onde estavam expostas nas “mesas” – esteiras postas no chão – as oferendas destinadas às yanda, maluvu. Cerveja de massambala, frutos secos, ananás, papaias, bolinhos e guluseimas feitas com mel misturado com óleo de palma, além das carnes, de porco e de vaca, com feijão e kikuanga, sem falar de jingwuji e do kakuso, os peixes sagrados, que se comeriam mais tarde durante o banquete.
O Kilamba avançava com o chocalho e a flauta na mão, e os que o seguiam cantavam, acompanhados pelos instrumentos dessa época, o hungu, os bumbos e os jisaxi, chocalhos iguais ao do Kilamba. Ao cehgar perto do rio, este fazia badalar o seu próprio chocalho e todos se calavam.Silêncio. O Kilamba-Kiaxi ia até à berma do rio, ajoeçhava-se e “falava” com as águas do rio, fazia a sua prece às yanda, lsamentando o seu sofrimento, assim como o do seu povo, viítmas inocentes de guerras entre chefes, que a partir desse dia se uniriam, oferecendo então a paz merecida ao povo sofredor; agradecendo Nzambi, todos os ituta, os ilundu, e pedindo perdão a todas as yanda, filhas de Kabala Kahombo, o homem, chefe das yanda do rio Kwanza, e de Ngola-Magya, a mulher, por ele, Kilamba do Kwanza, não ter conseguido fazer um bom trabalho, “Perdão, perdão a todas as yanda, por nos termos esquecido estes anos todos. Nós somos os vossos filhos, perdão para sempre”. E duante toda a prece não se cansava de relelmbrar a eterna filiação a esses pais de todas as yanda, que só saem deste rio Kwanza, e lhes obedecem.
(Como quem não quer a coisa o meu país salientava uma vez mais que o único kakulu verdadeiro é o do rio Kwanza).
“O ritual durava horas, e o Kilamba-Kiaxi não parava de rezar, fazendo badalar o seu chocalho e tocando flauta, uma vez um, depois a outra, para chmara os espíritos, os génios do rio. E, ao chegar o final das preces, todos os presentes entoavam os cânticos tradicionais em coro. Só depois vinha o banquete, com jingwinji, kakuso, e uma enorme quantidade de iguarias e bebidas, por muitos dos presentes consumidas em excesso. Era assim”.

In “Os filhos do Papá Dya Kota”, Editorial Nzila, 2006