domingo, 20 de junho de 2010

ADEUS A UM GRANDE HOMEM E ESCRITOR




Quando fui Presidente da Comissão Directiva da União dos Escritores Angolanos, tive a honra e o previlígio de privar de perto com este ícone da literatura mundial, durante uns dias.

Admirei seu humor, para mim às vezes bastante britânico, seu sentido de percepção e crítica sobre o mundo em que vivia e o rodeava e suas convicções, sobretudo aquelas a ver com a religião, que levaram muitos só a ver nele a ateu e o comunista que foi. Todavia, sempre demonstrou um elevado sentido de humanidade e humanismo que fizeram dele um acérrimo defensor dos direitos humanos, muitas vezes criticando e opondo-se a posições do seu partido e governo, bem como de outras forças políticas e movimentos internacionais.

Seja o que for, este grande homem foi um pedaço da Humanidade e sua marca será indelével na literatura tanto de língua portuguesa, quanto na mundial. Deixou marca e viveu sua vida como desejou e quis. Deixou de estar aqui, como ele próprio afirmava, para estar num outro lado qualquer. Que bem esteja.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

ANTOLOGIA DO CONTO ANGOLANO


No passado dia 28 de Maio, foi lançada uma nova antologia do conto angolano, intitulada "Como se viver fosse assim", organizada pela jovem Domingas de Almeida, finalista do Curso de Língua e Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, e da qual consto com dois contos, nomeadamente "O Filho" e "Traição", que publicarei aqui futuramente.
Segundo a organizadora deste antologia, os escritores estabelecem um pacto com as suas origens e, convocando outras memórias, seguem o percurso dos contadores ancestrais. O espaço matricial é recuperado em vários níveis, o destaque, no entanto, é para a discursividade oralizada e a materialização de tal discurso, quando o autor modifica, altera a língua portuguesa ao introduzir termos e estruturas fraseais oriundas do kimbundu, do kikongo, do umbundu e de outras línguas que representam o lugar da angolanidade. Logo, o conto angolano tem uma tradição oral, constitui-se numa herança ancestral, baseada em lendas, mitos, fábulas e provérbios

SUMAÚMA





POEMAS



Poema
gesto amarrotado
na mão pensamento


tentáculos
do mundo inverso
verdejando
no coágulo
da palavra


NUNCA


Nunca permitas
cicatrizar o ódio

a onça aguarda
medos
no muxitu

terça-feira, 1 de junho de 2010

MEMÓRIAS DA ILHA - CRÓNICAS


Logo após o Mundial de 1994, escrevi esta crónica que, às portas do que começa daqui a dias, acho por bem republicar com a devida antecedência. Assisti ao que decorreu na Alemanha, onde nós angolanos participamos pela primeira vez com muita honra e brio. Lamentavelmente, para este, que é aqui mesmo ao lado, a nossa bandeira não se fará presente. Paciência, mais sóis brilharão, e como se diz aqui na banda, etu mudietu, makamba jiami (nós somos, meus amigos).


O MUNDIAL

Decorridas várias semanas do término do Mundial 94, quiçá se possa referir ao evento com um pouco menos de subjectivismo e com maior probidade.
Não será intenção descrever os feitos da grande equipe brasileira e da sua mais do que merecida vitória, muito menos das técnicas e tácticas desenvolvidas e usadas nos campos pelo diabo-virado-santo Parreira.
É mister sim, e sem pitada de ironia, alertar desde já para as técnicas, e sobretudo tácticas, que poderão vir a ser impostas aos jogadores no campo do amor, no período dos mundiais. Esperemos cheios de alento que seja unicamente nos mundiais, porque se a moda esdrúxula passar para os campeonatos nacionais, Deus nos ajude, estará tudo perdido.
Num estudo elaborado e conduzido por dois pesquisadores israelitas, em cerca de quarenta jogadores de futebol daquele país, chegaram-se a indesmentíveis conclusões, que certamente não serão do agrado de todos, já que ao partir-se do princípio que todos os jogadores podem, ver-se-á que uns poderão mais do que outros, segundo a relevância física do posto. Consagra-se assim a máxima por nós bem conhecida, a cada qual segundo o seu esforço e trabalho.
Concomitantemente, a D. Maria, esposa amantíssima do guarda-redes (goleiro?) Fulano de Tal, poderá ser agraciada com os favores e calores do extremoso marido até três dias antes do tira-teimas. Se o dito cujo for tão bom a furar a baliza lá em casa quanto é a guardá-la nos relvados, ter-se-á um momento nublado para a infeliz consorte, por três dias que sejam.
Todavia, se a D. Maria for esposa do avançado Sicrano de Tal, porque o desalmado exaure todas as energias correndo de um lado para o outro para meter o afamado golo, a coitada não poderá ver, na alcova, seu marido a avançar e meter o que todos sabemos que mete, oito dias antes da partida, segundo as recomendações da estatística dos malvados, esses sim, andam a meter o que não devem onde ninguém os chamou.
Que me perdoem os pesquisadores, eles próprios talvez maridos competentes, isto não é partida que se pregue a ninguém.
É evidente que as esposas das defesas são metidas a meio caminho nesta pesquisa, devendo a abstinência sexo-desportiva decorrer a partir de cinco dias antes do páreo.
Por aí se poderá imaginar o sofrimento do futuro campeão mundial que, ao fazer todas as partidas, passará no mínimo um jejum espartano de mês e meio, isso não contando que o regime seja aplicado durante o período de preparação.
Não nos admiremos pois, se os treinadores desejarem levar a rigor os valores científicos das pesquisas, para benefício do desempenho da equipe que se venham a verificar violentas manifestações púb(l)ícas das esposas dos jogadores, com as dos avançados a liderar, unidas para jamais serem vencidas.
E para que elas se vinguem, sobretudo as consortes dos futebolistas do Petro Atlético de Luanda ( mais validado campeão angolano), aos quais é exigido muito mais que um tetra, com o resultante desgaste do arcaboiço e afins, é dever patriótico tornar público o nome e local de trabalho destes briosos e talvez inditosos pesquisadores.
Mas meditai antes, ó abnegadas damas, porque uma viagem a Israel é algo oneroso. O pecúlio hoje é escasso, não mais se viaja por duas grades de cerveja. Ser-vos-á mais fácil e prático permitir que os vossos maridos impunes furem o boicote, até porque o treinador não estará de vigília todas as noites e em todas as alcovas.
Quanto aos malandros, os senhores Alexander Olshanytsky e Mordechai Halperin, pesquisadores no Centro de Jerusalém para a Impotência e Infertilidade, não se encontrando ainda satisfeitos com os possíveis danos que venham a causar, desejam ir mais além e prometem pesquisa feroz nos restantes domínios do desporto.
Felizmente só jogo ao dominó!

04/08/94

O IMAGINÁRIO NO TEXTO ANGOLANO (NO PRELO)


COSTA ANDRADE

De seu nome de guerra, Ndunduma We Lepi, nasceu no Huambo em Abril de 1936 e faleceu em 2009. Insigne nacionalista, guerrilheiro, artista plástico, jornalista e Deputado, tem mais de vinte títulos publicados, poesia e prosa, e é um renomado artista plástico, com nove exposições individuais de pintura. Sobre este conto, escrito em 2002, o autor, com a nostalgia de quem revive páginas duma infância mágica, revela que o rio Kuiva não é um rio. É uma lenda.
Também não é uma lenda. São muitas lendas cruzadas com a verdade. Tantas verdades, que a lenda do Kuiva é afinal uma verdade, que faz dele um rio, que devia ser igual aos outros, mas não é.


A PROFECIA


O rio Kuiva não é um rio. É uma lenda.
Também não é uma lenda. São muitas lendas cruzadas com a verdade. Tantas verdades, que a lenda do Kuiva é afinal uma verdade, que faz dele um rio, que devia ser igual aos outros, mas não é.
Ás vezes torna-se um conto, outros vezes um mistério, a maior parte das vezes um caudal de enchentes, onde acontecem coisas estranhas, inesperadas, que transformam o rio num conjunto de geografias, seres humanos e bichos, capazes de ser ontem e amanhã, mudar de repente.
Das águas cristalinas, alturas do Salundo, passa e arrasta margens das nakas, as lavras de terra negra fértil das baixas da Emanha, transporta o barro, lama, até chegar á sukatera, a garganta apertada, do próximo socalco.
Perguntei uma vez, à noite, hora propícia, sentado em torno do braseiro, ao guarda-nocturno da loja, o mais-velho Longuia, porquê que o Kuiva se chamava Kuiva.
- Porque o Kuiva é uma cobra. Mas não é uma cobra qualquer, às vezes incha, outros vezes fica magro. Esse nome dele, de cobra, não é aquele, daquela cobra que mataram no curral dos porcos?
- É.
- Então! Kuiva é nome de cobra. A kuiva do curral mamava o leite da porca enquanto ela dormia e os leitões morriam de fome. A kuiva metia a ponta do rabo dela, na boca do leitão. Uma vez é este, outra vez é aquele, e todos morreram de fome. Até que lhe mataram com ela, também.
- Eu penso que se o Kuiva incha e fica magro ás vezes, talvez o nome dele, devia ser o’mona, porque a, a jibóia, pode até engolir uma pessoa.
- Sim, mas o Kuiva não é um rio muito grande para ser jibóia.- conclui Longuia.
O Kuiva não é um grande rio, porque só tem trinta quilómetros. Mas era grande porque tinha lagoas muito largas no caminho, cascatas de grande altura, rápidos, ilhas, onde com coragemt talvez se pudesse viver. Águas turvas aqui, transparentes ali, onde viviam peixes. Nos rápidos, novamente a cintilar, os brilhos de rochas de granito afiadas, escorregadias, reflexos de sol, antes de sombras, praias, numa e noutra margem, ilhas povoadas por bandos de pássaros e serpentes esquivas, bananeiras espontâneas, frutos sem nome, doces e com múltiplas cores; um pouco mais longe das margens, nkulankunlas, as cerejas planálticas, o’lomoinhos vermelhos junto à raiz, como pequenos bagos de café rasteiros, quando maduros, e outras surpresas. A minha Avó não queria nem ouvir falar das minhas ideias com Tchiwe e o António até ao Kuiva.
- Lá tem muitas cobras, nas árvores do Kuiva. Aquela cobra que voa, o nome dela é Ndala. A cobra Ndala salta como seta de azagaia lá dos ramos e te pica na cabeça. É só morrer, sem tempo de chamar ninguém para te chupar o sangue envenenado, com ventosa de chifre de mbambi, a cabra do mato, se tem. Isso tudo, e o que fica Por contar, é o rio Kuiva. Exactamente, a partir das alturas do Salundo, até pouco antes do começo da encosta do Chivilundo, onde ele cava a ravina profunda da passagem, que o leva ao Chicanda é a parte que eu conheço e lhe andei, com os meus amigos.
Porque eu vou contar o que sei dele e acontece, o que vi e entendi, nos dez ou doze, dos seus poucos mais de trinta quilómetros de existência. São esses, que conheço perfeitamente, de tê-los pisado ao sol, à chuva desde o muxitu, as árvores gigantescas da nascente, onde surge gota a gota, entre raízes e mosquitos, quase noite porque o sol não consegue entrar ali, até que começa a viver diante dos olhos e ouvidos do mundo, com a voz de seixos e pedras cor de cobre e ferro, entre raios, que parecem lanças quando atravessam os espaços no meio das folhas, que o dia de sol não deixa escapar, e finalmente se despenha num outro rio, esse sim um rio. Este é mais estreito e longo, visto de vários vistas, atravessado por pontes, e cordas de amparo, (coisas dos homens), que o Kuiva não conhece, nem permite que façam sobre ele.
Dizem que do Kuiva, em noites de lua cheia, levantam-se serpentes com duas cabeças de mulher. Têm cabelos que brilham e se alongam sobre o corpo esguio. Se calhar passar homem, mesmo um rapaz, a serpente enrola-se nele muito apertada, uma das cabeças bebe-lhe o sangue através da carótida, e a outra suga-lhe toda a força, que ele podia dar a um filho se fosse com uma mulher de verdade. Depois solta o corpo, feito cobra sem vida, mais bem uma tripa de boi abandonada, no fundo das águas, para ser levada pela corrente e desfazer-se no caminho.
- E porquê, que essa cobra faz isso aos homens - perguntou o Tchiwe?
- Porque ela não tem família, vive a raiva de ser sózinha, não sabe o que é gostar ter alguém, para chamar-lhe pai ou mãe.
- E porquê, que um caçador naõ vai matá-a ou fazer uma chiriva, ratoeira, para lhe apanhar? - perguntei eu.
- Porque a arma ou azagaia do caçador vira água, quando ela aparece. E a chiriva vira barro
De olhos esbugalhados ouvíamos o terror das coisas medonhas, que os mais velhos contavam do Kuiva. Isso aguçava a nossa curiosidade, em vez de fazer-nos desistir de ir a ele.
No seu percurso, pelo menos aqueles que eu conheço, recebe regatos, torrentes das montanhas que o apertam e por vezes lhe dão largas só dum lado, para espreguiçar-se e inundar as terras, protegidas por espinheiras de folhas acerradas e cruéis, não obstante a forma de um coração humano, que exibem enquanto verdes. O próprio Kuiva parece não saber do mundo e não ter vida dentro de si, até momentos antes de diluir-se no Chicanda, que pouco depois se despenha nas mupas da Tchenga, conhecidas nos mapas da linha do caminho de ferro de Benguela, como as quedas do Ukuma. Mas é falso, é perigoso, acreditar nesse fingimento. No lago que forma depois da queda do Salundo, lá para trás vários quilómetros, há bagres e outros peixes, que na verdade ninguém sabe, como é que são iguais aos do Luena tão distante e diferente, com falas e lendas doutra língua, por vezes até para culpar a terra do Kuiva, de ter levado de Kalunga, o mar, até ás suas planiras, os brancos que mandavam na vida e na morte, depois demandarem no trabalhos pessoas. Mais isso acabou num dia 11, dum ano, que vai ficando velho, como acontece com todos os anos, que se comemoram.
Ninguém sabe nada do Kuiva, porque esconde as estórias todas dos seus mistérios, dizem que por causa daquele branco, que lhe apareceu na outra margem, como uma nuvem de chuva carregada, que faz fugir as pessoas e os bichos, para ninguém saber como veio, o que fez e como acaba. Por isso é que os mais velhos, nunca respondem ás perguntas sobre o branco, sobre a lavra dele, e não gostam, que as crianças atravessem o rio, nem mesmo nos lugares onde é possível tentar chegar ao outro lado.
Nós os miúdos da Emanha, sem nada para fazer, depois que nos ralharam por subir nas cabras e ovelhas, fazer delas cavalos, fomos várias vezes até lá.
A Emanha era a nossa margem, cá em cima.
Em baixo na encosta, as lavras, mbanda, lavra de socalcos do Chimuco e todos os habitantes da aldeia.
Diante dessa lavra, havia uma floresta estreita, que se podia chamar a fronteira do lago, que se estende em frente à alta e escarpada encosta da Emanha, o nosso sítio prefeito. Era o nosso ponto de observação, posto de guarda, sei lá! Vivia no lago, um jacaré, que não tinha famíla, nem se sabe como lá chegou. Ninguém lhe viu jamais os filhos, a mulher, os ovos, donde saem pequeninos já a morder, os filhos da sua “epata”, a família, da beira d´águas paradas e profundas. A terra do lado da margem do Ukuma estende-se plana e úbere.
Do nosso miradouro, via-se um canavial, pomar e lavra, até perder de vista na base da montanha, atrás da qual se esconde o sol, ainda cedo, antes das cinco da tarde. Daí o Kuiva, vai por sua vez, gordo de tantas águas, de outros córregos, cercar uma ilha ao longo de um quilómetro, num abraço de pouco mais de cinquenta metros de largura. Nela, a ilha de chão branco de areia, sobre a terra negra, crescem árvores muito altas, com lianas, flores, abelhas e estende-se essa areia branca, como voz de quem chama ao repouso, como um convite de pensar coisas sagradas, para acreditar no que vê e ouve do vale profundo, antes das quedas do Lukamba, onde o moínho, que alguém tentou plantar ali, foi levado pela enxurrada, antes de ter moído sequer um grão de milho, encalhado entre as pesadas mós de granito, que tinham o dever de executar esse trabalho. O Kuiva não consentiu jamais corpos estranhos, nem mesmo ali onde montanhas e pedras resistem desde sempre, á sua força variável somada á dos músculos da idade do mundo. Nem mesmo um corpo de mulher, que diziam ser do Brito alfaiate, por ter constado, que ele a encontrou na cama com um empregado da loja do Barreto. O Kuiva atirou-a para a outra margem e os corvos, em disputa com os lobos e as raposas do Chivilundo deram cabo dela, e no entanto ninguém a viu. Outros diziam, que não era nada disso. Ela fugiu do Brito, que não chegava par ela, e era bruto. Apanhou o combóio no Longonjo e foi ser puta no bairro S. João, em Nova Lisboa, para os soldados expedicionários.
Então o Kuiva chega, cinco ou seis quilómetros adiante, ao Chicanda antes da ponte, para preservar a sua liberdade de margens afastadas, após ter aberto na montanha vulcânica, a ravina profunda da passagem, (que referi antes do tempo), e que o sol não consegue nunca iluminar. Não é que ele não queira, é o Kuiva que não deixa, mesmo se já cumprido o seu caminho. Transforma-se, enfim num rio, como os rios, é Chicanda, que se desfaz finalmente, em rio Catumbela, um senhor de rios, que impõe os seus caprichos aos homens, haja chuva ou seca a mais, durante o ano.
Pouca gente fala do apoio, que ele recebe de muitos outros, sobretudo do Cubal, dono de muita terra, e muito canto, por causa dos saltos sobre o leito pedregoso. Nem sequer duma barragem feita pelos homens, que outros mandaram destruir, como se a praga do Kuiva tivesse resistido a tantas misturas de afluentes com mais forças do que ele. Como se fosse já o rio grande e poderoso, feito de rios e de lendas, margens de sisal e eucaliptos, ali mesmo transformados em papel, lenha para combóios e fibras para sacos, até perder-se no mar, antes com a doçura devida aos canaviais, á fabrica do melaço e álcool, agora mudo, com raivas escondidas, do abandono em que o deixaram. Fez mesmo desabar a ponte, como que diz, que até os rios têm ressentimentos e os galpões de fábricas silenciosas, também.
É claro que já não era o Kuiva, esse rio que muitos chamam rio, por não terem outro nome par dar a um grande volume de água que corre, salta e repousa, depois corre novamente, sem um leito permanente, para perder-se na corrente mais estreia, quase serpentina, que o emigra do lugar onde nasceu, par transformar-se em nuvem, virar chuva e regressar á terra.
O Kuiva era o nosso brinquedo. Hoje não sei o que é feito dele. O Tchiweienge, o Vilombo, o Kalombweti, durante uns dias o Rui Araújo vindo do Lépi, Zé Coelho do Huambo, não sei se alguma vez o Jaime Reis e eu decidimos seguir o Kuiva, conversar com ele, até ao ponto onde o Ngwenje, o riacho do Brito alfaiate, se despeja nele. Conhecer alguns dos seus segredos, decifrar os cantos e vozes que lhe ouvíamos, sobretudo descobrir o sitio certo, para vencer a sua fronteira, tal muralha e desafio, a cavaleiros de nuvens da imaginação. Atravessá-lo, ir ao outro lado era uma força maior do que do que o desejo. Mais que o risco, era a afirmação. Onde a terra plana, o pomar, a lenda cresciam era impossível, cada vez que íamos imitar o Domingos Epanwe, o único que atravessava o Kuiva quando lhe apetecia, sem que nos visse.
Era o fascínio e o mistério, havia o silêncio das respostas.
Do nosso lado, o declive, árvores com raízes à flor da terra, algumas delas inclinadas quase a tocar-lhe as águas, deixava a adivinhar sobre a imensa planura do horizonte na outra margem, pontos de cores entre frutos e flores, brilhos de inundação, libélulas, peitos celestes, rabos de junco, rolas, e até pumumus, gaviões e corvos. Uma vida cheia de mistérios até ás montanhas, que escondem o Ukuma. Um laranjal e tangerineiras, morangos, muitos milho, batata-doce dentro dum vastíssimo capinzal e trepadeiras selvagens, flores de rícino, numa ou noutra árvore um cortiço. E no entanto havia pontos em as margens quase se tocavam, quando as montanhas de um e doutro lado mostravam ser mais fortes do que as águas e cresciam até ás nuvens. Da planície, diziam os velhos e as velhas sobretudo, ser um lugar para não irmos nunca. Lugar marcado por Kalunga, não o mar mas a morte, que no tem o mesmo nome, que lhe dão a praia, quando não regressa nunca mais, alguém da pescaria.
Diziam ser uma fazenda amaldiçoada, povoada por almas doutro mundo. Abandonada por um branco, que morreu de biliosa, nos anos em que nascemos nós aventureiros. Os que falavam com maior conhecimento, diziam ter sido o jacaré solitário da lagoa, que não tendo mulher, nem filhos, devorava os seres humanos, e algum macaco, que caísse à água, dos ramos pendentes sobre o rio. Por isso é que o branco, que lá viveu era um mistério, uma assombração.
Um branco que não chega a construir nenhuma estrada, sequer um caminho de andar a pé ou de bicicleta, de carroça, até à própria porta, só podia ser um branco malfadado e mal falado. Ninguém lhe sabia o nome, ninguém o viu na vila ou na cidade, como veio e como foi, que trouxe a enxada, e as sementes, com que plantou aquela baixa fértil, sem acessos. Nem vindo do Ukuma, das altas montanhas, nem ido da Emanha, a partir da estrada do Longonjo até Caconda, ou da Catabola e do desvio para a Yava, mesmo da paragem do Calunga, donde vinha o “Burrinho”, Joaquim Torres, (ouvi anos depois, quando morreu de morte emboscada no Miramar, chamarem-lhe rambo e não gostei!), passar férias connosco na Emanha. Nada, não havia nem ponte nem passagem. Ninguém o conhecia. Ninguém o via.
Nós, formamos um grupo, que fugia de casa, antes das nove da manhã, depois do matete de losseke azedo com mahíni, o yogurte kuanhama da cabaça, a quase tortura do cálice de quinado da Madeira, que o velho nos fazia tomar a todos, para prevenção contra o paludismo. Íamos espreitar de longe aquela terra de mistérios, ver como o Domingos atravessava o rio. Algumas vezes levávamos comida para lançar ao rio e atrair o jacaré para jusante. Enquanto isso tentávamos a travessia a montante. O “Burrinho” subia um tronco envelhecido e lançava-se quase em voo, mergulhava, para surgir na margem oposta, triunfante. O regresso era um pouco mais difícil. Com as varas de bambu da ilha fazíamos restolhar a água. Talvez por isso o jacaré não vinha nunca interromper a brincadeira da coragem. O nadador da vez, dava as braçadas necessárias até ao tronco, subia e voltava herói, para os que não tinham tentado ainda a travessia. Mas ninguém se atrevia a ir além da margem, colher uma laranja, o que quer que fosse. Não era aquela uma terra de causar medo a todos, menos ao Domingos, porque era Epangwe?
A nossa margem entrecortada de pequenas veredas, que desapareciam entre o fechado arvoredo, para ressurgir em várias direcções, que não conduziam a ponte nenhuma, era o nosso território. É claro que tínhamos atravessado quilómetros abaixo, o ramo estreito do Kuiva e descoberta a ilha. Mas não além da ilha, a contracosta, que a torrente era forte e com ruídos surdos. Vimos fugir serpentes, macacos a chiar e a fazer caretas de assustar intrusos. Vimos pássaros saltar de ramo em ramo, seguros por não verem nas mãos de nenhuma de nós uma chifuta, a fisga, um arco ou zagaia, o que quer que fosse, que servisse par matar.
Mas se não havia pontes nem estradas, como é que o branco foi ao outro lado, ou lá chegou, vindo ou não desse mesmo lado, para plantar aquele pomar, naquela baixa inundada pelo Kuiva, todos os dezembros até março? O tronco de pé, que o Domingos um dia derrubou, não era ainda, quase ponte.
De pergunta em pergunta, ouvimos dizer da Avó Ngueve, que isso era uma história de mais-velhos e que os meninos não deviam andar por esses lados. Só lá ia o Domingos Epangwe, que na verdade se tornou dono daquelas terras, ou pelo mesmo, do que ela produzia. Trabalhou desde criança com o branco, que pegou primeiro na enxada, capinou a vastidão, semeou o milho, as batatas, o feijão e mais perto da montanha, as árvores de frutos todas, que lá havia. Não derrubou nenhuma das naturais, que encontrou, filhas da própria terra, os loengos, as loncyas, outras mais. Plantou mangueiras, junto da pequena casa, que ele próprio construiu. Viveu sozinho, muito tempo, ninguém sabe ao certo quanto. Atravessou o rio para este lado, foi ao quimbo do Lukamba, uma vez de manhã cedo, arranjou uma mulher ainda nova, que vivia só, sem filhos, e convidou para viver com eles o Domingos, que já era órfã de pai e mãe. A mulher perdera o marido há vários anos, vendido pelos angariadores para S.Tomé, mais exactamente para as fazendas do café, perto do Congo. O Domingos, vítima do mesmo destino dos pais, era então, um rapagão de uns treze ou catorze anos, que vivia de muitas tarefas pesadas, prestadas a este e àquele em troca de comida e dormida, uma fuga aos cipaios, pedradas aos camiões, que transportavam contratados. Forte como um touro, livre como um leão., forte como um elefante, Domingos era um homem aos treze anos.
Aceitaram os dois, a mulher e Domingos, ir viver do outro lado, mais acima, com aquele branco estranho, que morava sozinho e lavrava a terra como se tivesse nascido ali. De resto, pouco ou nada mais sabiam dele.
Os dois, também sem mais ninguém no mundo, seguiram-no, subiram atrás dele, toda a margem esquerda do rio, às alturas do Salundo, desceram a encosta, até ao ponto onde o barulho d’água, que se ouvia de longe, se tornava tão forte, de não deixar de ouvir a palavra do branco, mas só o gesto, “por aqui!” encontraram-se diante de três grandes rochedos, quase pontiagudos, que apertavam o rio, fazendo-o passar ruidoso e revoltado, entre duas gargantas, donde caía em espuma e arco-íris, ao sol do meio dia, duma altura de mais de quinze metros, sobre um poço negro de águas límpidas, que depois por vez, se abria em lago calmo, que se alongava cerca de quilómetro e meio, e se alargava cerca da margem direita, nus cinquenta metros mais aqui, menos ali, antes de estreitar-se novamente entre margens reais mais fortes, porque de pedra profunda e com a face votada para o sol.
- Enquanto não fizermos uma pequena ponte lá em baixo, perto de casa, este é o único sitio onde o Kuiva se deixa atravessar a vau, mas com cuidado par não escorregar, senão é morte certa”.
Em silêncio fizeram o caminho da descida da margem direita até ficarem defronte da encosta, donde tinham vindo, e se erguem os vários caminhos que vão á Emanha das lojas e da estrada no planalto.
Chegados á casota do branco, ele dispôs como seria daí para a frente:
- Aqui dentro fico eu e a... como é o teu nome’
- Lahundi.
- Lahundi? Tá bem! Filha da puta de nome...Tu ficas aqui comigo. Agora és minha mulher. Não quero idas e vindas á sanzala, nem visitas de ninguém. Vais à loja quando eu mandar. Tu ou o Domingos. Ele dorme no jango da cozinha, até fazermos na próxima semana, um quarto para ele, ali perto da horta.
Domingos e Lahundi nada disseram. Olharam em torno. Havia um cercado do lado do rio. Luhundi apontou para lá o branco disse:
- Sim! É lá, podes ir. Oh Domingos, havemos de fazer outra latrina mais fechada, um pouco mais longe.
- Sim, disse Domingos.
Entardecia. Lahundi, que já vira o que havia dentro de casa, voltou com um a panela de ferro esmaltado e batata-doce. Entrou no jango, soprou e reactivou o braseiro, voltou a sair, foi até ao rio, encheu a bacia, que levou á cabeça com água e regressou ao jango. Lavou as batatas e assentou a panela ao lume sobre as três pedras para o efeito. Retirou do tecto do jango dois peixes secos e fumados, assou-os directamente nas brasas.
O branco, depois de ter comido levantou-se, foi sentar-se a uma certa distancia, acendeu o cachimbo com uma brasa, que levara consigo. Um cheiro estranho espalhou-se pelo anoitecer, agrediu as narinas dos recém-chegados e os mosquitos desapareceram.
No dia seguinte de manhã muito cedo, o branco agarrou na enxada, chamou Domingos, entregou-lhe umas moedas e disse-lhe.
- Vais à Emanha, e compra sal, óleo, açúcar e arroz. Vais pelo caminho de ontem. E não sabes nada, que te perguntem, ouviste bem?
- Emanha é aqui á frente. Não tem passagem?
- Não. Há aí um lago com jacarés. Nem sei como vieram parar aqui, havendo aquela queda de água de um lado e outro lá em baixo, perto da ilha.
- Sim Senhor! - Respondeu Domingos. Como do outro lado tem muitos paus grossos, um dia vou fazer uma canoa.
- É uma ideia!
Domingos partiu. O branco e Lahundi, depois de um gole de café foram para a lavra. Passou a ser assim todos os dias.
Lahundi olhava de vez em quando aquele branco forte, com alguns cabelos brancos, barba crescida, que falava pouco, e que ninguém sabia donde vieira. Nem mesmo o nome dele, sabia. Parecia ter feito sozinho a lavra e tudo quanto fosse obra. Queria saber dele alguma coisa, mas ele quase não falava. Nunca foi visto a visitar os outros brancos das chitakas, que havia do outro lado. Muitos nos quimbos pensavam, que fosse um branco feiticeiro. Os cipaios mandados do posto do Lépi tinham medo. Faziam perguntas às pessoas do quimbo e iam embora, dizer que não havia nenhum branco naquela terra. Os brancos todos eram conhecidos, tinham lojas e chitakas do lado de cá do rio. Lahundi, porém, agora que vivia com ele, que era sua mulher, tinha de saber ao menos, o nome dele. Naquela noite, da primeira vez, até gostou dele. Só aquele cheiro, que saia no nariz, parecia um remédio dos mais velhos, é que lhe estragou um bocado. Até que era um bom homem. Nunca, lhe bateu, mesmo na noite, que tinha dente doeu e não aceitou lhe deixar dormir em cima dela.
Perto do meio-dia quando voltavam para casa, Lahundi disse, que já vinha ia passar naquele lado do milho, se tinha maçaroca para jantar.
- Podes ir, mas não vás para lá daquele morro de salalé. Ali só eu, é que vou”.
Lahundi, enquanto procurava no milharal umas maçarocas mais desenvolvidas sentiu alguma curiosidade pelo que haveria atrás do morro de salalé, mas pensou para consigo: “se calhar quer fazer lá outra coisa, um dia”. Deu de ombros, voltou para casa.
Passava do sol das quinze, quando Domingos chegou com a sua carga.
À medida que o tempo passava Domingos foi-se tornando cada vez mais forte, dono de uma força hercúlea, ajudante inseparável do branco, que o tratava sempre, como se fosse um filho. Era ele que saía para as compras e vendas dos produtos da lavra e do pomar.
Lahundi ajeitava-se nas tarefas da casa, da lavra e da cozinha. O único momento estranho, difícil, incompreensível tanto para ela como para Domingos, sem que no entanto tivessem trocado um palavra sobre as suas preocupações era o afastamento cada vez mais frequente do branco, ao fim d dia, para fumar o seu cachimbo, exalando aquele cheiro, que tanto os incomodava. O branco, num desses fins de tarde chegou a dizer-lhes:
- Vocês podem chamar-me senhor José. Não podem ficar toda a vida, sem um nome para me chamarem, não é?
- É sim, senhor José, - respondeu Domingos.
Lahundi manteve-se em silêncio.
Depois foi uma noite em que José, pareceu mais amigo e se encostou muito a Lahundi. Mais uns dias passados, após uma noite de muita chuva, acompanhada de granizo, que destruiu grande parte da lavra de batata-doce e milho, José levantou-se nervoso. Dormira mal. Durante curtos períodos de sono agitado. Lahundi ouviu-o falar, pronunciar nomes, que não ouvira nunca. Gritar a palavra não, algumas vezes. Ao vê-lo levantar-se e sair sem tomar café, em direcção ao rio, Lahundi sentiu um pequeno aperto no coração, como que um vago pressentimento. O chão ainda mostrava extensos espaços brancos de granizo, que esperava o sol para derreter completamente.
José dirigiu-se a passos largos para a lavra das batatas. Dois javalis largaram em fuga transvia, para o lado das montanhas. Era a primeira vez, que via javalis naquela zona. A inundação cobria grande parte da lavra. Adentrou-se um pouco mais no campo inundado. Queria chegar à horta, que lhe parecia não estar coberta pela água Para encurtar caminho, a água chegou-lhe á cintura, um passo mais e de repente, saltou um grito e desapareceu. Debateu-se alguns instantes. Agitaram-se as águas e depois voltaram à sua quietude habitual. Lahundi que de longe seguira José com o olhar, soltou um grito angustiado chamou Domingos e correram ambos na direcção do sítio onde desaparecera José.
Antes de chegarem ao ponto da ocorrência viram aparecer á superfície das águas á direita, mais exactamente sobre o leito do rio, uma ancha de sangue levada lentamente pela corrente, um braço, que depois também desapareceu.
Lahundi correu par o rio desesperada. Domingos impediu-a, segurado-a pela cintura. Puxou-a para terra e arrastou-a para cas.
Ela dizia entre soluços: - “Atrás do morro do salalé. Atrás do morro do salalé, é que está o segredo, atrás do morro da salalé”.
Quando Domingos conseguiu serená-la e depois de deixá-la chorar longamente em silêncio perguntou com voz contida:
- O que é isso do morro de salalé?
- O branco falou desde o primeiro dia, para nunca ir lá. Nunca fui.
- Eu também nunca passei naquele lado, mas ele não falou nada.
- É melhor passar lá para saber, agora que ele morreu.
Á tarde encaminharam-se para morro de salalé. Percorreram cerca de dois quilómetros seguindo um mal disfarçado caminho. Entre o arvoredo abri-se uma pequena clareia com uma plantação, cujo cheiro deu a Lahundi, a resposta imediata:
- Ele fumava! Afinal era este o cheiro! Ele fumava! Vamos sair daqui! Vamos deixar esta lavra, tudo vamos sair. Aqui tem desgraça.
- Não! Então nós trabalhamos com ele este tempo todo. Não sabemos se tem família ou não tem. Nós é que ficamos família dele, e vamos deixar tudo aqui? Não. Ainda vamos ver, vamos pensar bem.
Voltaram para casa.
No caminho do regresso, Lahundi dizia: “É mesmo a minha desgraça! O meu primeiro homem lhe levaram no contrato, no norte. No dia 15 de Março lhe mataram, porque é daqui, desta nossa terra. Fui no velho Pataka, passei na velha Nanguenkenha, fui nos sékúlus da Ahienja, matamos galinha, é cabrito, é quê, todos falaram: “a tua desgraça só vai acabar quando outro filho daqui da nossa terra morrer, um mês de lua antes desse dia 15, que perdeste o teu homem, junto com os outros, que foram daqui. Mas tem de morrer também outra pessoa, um mês de lua depois desse mesmo dia, para acabar a desgraça, de todos da nossa terra. Nem que vai passar muitos anos. Se não vai continuar sempre. Todos vamos sofrer muito”.
Lahundi não dormiu a noite toda. Na manhã seguinte, depois de ter percorrido as águas com o olhar, sem ter visto qualquer sinal de José, entrou em casa e abriu o velho baú de zinco, onde José guardava as suas coisas.
Entre as poucas roupas gastas, duas fotografias, um de uma mulher muito velha com cabelos brancos, parecida com José. Estava o cachimbo, havia uma folha rasgada de jornal antigo, com a fotografia do José, enquanto novo. Lahundi não sabia ler. Chamou se Domingos, que frequentara há muitos anos a segunda classe a escola do Ukuma, antes dos pais morrem no norte. Domingos conseguiu decifrar o velho jornal, dos anos cinquenta:
“Evadiu-se da Baía dos Tigres o perigoso assassino João de (Papel roído), que aí cumpria pena maior de 22 anos, condenados na metrópole (Papel roído), por vários crimes contra a segurança do Estado.”
Lahundi não quis ouvir mais nada.
Três semanas decorridas, uma manhã, com o sol já alto como não se abrisse a porta, Domingos bateu novamente e abriu. A casa estava vazia. Lahundi desaparecera. As pegadas frescas de véspera, que conseguiu descobrir, levavam ao rio. Segui-as um pouco, mas desistiu.
Domingos ficou só, durante muito tempo.
Num dia de sol decidiu atravessar o rio, pelo caminho de sempre, até á árvore da outra margem, que se erguia em frente da casa onde morava. Como o machado, que levou consigo derrubou-a fazendo tombar sobre o rio, quase transformada em ponte, sem separá-la totalmente da raíz. Os ramos mais altos e robustos atingir a margem onde morava, enquanto não fizesse a canoa, ou não completasse a ponte, com outro pau até onde terminava este.
Regressou exausto a casa. A solidão pesava-lhe. Levantou-se a caminhou até á pequena lavra de diamba de José. Colheu algumas folhas, voltou a casa, secou-as na cinza quente e depois fumou-as. Passou por um estado, que nunca vivera antes. O meio tonto, meio leve sem saber o que sentia, nem pensar exactamente em qualquer coisa. Adormeceu, dormiu profundamente.
Com a passagem dos anos, e sem ter feito a canoa nem completo a ponte, passou a atravessar o rio, no sítio da árvore tombada. A falta de chuvas estreitava o Kuiva certos anos. Bastava-lhe um salto mais ousado, uma braçada mais larga, atingia a margem. Na ida era o contrário: dava duas ou três braçadas, içava-se na árvore caída sobre ela chegava á outra margem.
Visto pelas crianças do outro lado, a proceder à travessia, depressa lhes ocorreu a imitação.
Foi assim que o nosso grupo, com o “ Burrinho”, que era o mais aventureiro, iniciou aposta sobre o medo, a coragem, a rapidez e a vitória da corrida a nado, desafiando o jacaré, que de vez em quando se espirava ao sol, na praia do rio, desse mesmo lado, com a boca aberta para caçar moscas. Era tão grande, que devia ser muito velho com certeza, pensavam as crianças.
Domingos, que entretanto começou a tresandar a liamba por onde passa, quando ia á loja vender mangas, laranjas, ananases, passou a ser conhecido por Domingos Epangwe, e mais tarde apenas por Epangwe, o nome da liamba em umbundu. Não se zangava jamais, deixava transparecer apenas uma profunda tristeza no olhar.
Quando numa manhã de Abril, depois de uma noite de lua cheia, regressava do quimbo, ao antigir a margem direita, depois de duas braçadas a nado, Domingos sentiu a perna presa dorida, entre as mandíbulas do jacaré. Com a rapidez e a força imensa, que tinha desfechou uma machadada, entre os olhos do batráquio que de repente abriu a boca sem espadanar. Sem vida, voltou-se, ficou de barriga para cima, a boiar, arrastado lentamente pelo Kuiva.
Domingos sangrava, mas conservava a pena presa ao corpo, os osso inteiros. Arrastou-se para fora do rio e disse para consigo:
- Agora só falta acontecer o resto da fala da velha Nanguekenha, numa lua de fevereiro, para acabar a desgraça toda nossa gente. Eu não morri, mas o bicho morreu.
Domingos, passados mais de trinta anos, não chegou a saber se a profecia da velha Nanguekenda se cumpriu. Caiu ao rio, depois de ter bebido a cabaça inteira de lingenye, a aguardente de batata-doce. Desapareceu nas águas da noite escuras, cansado de esperar o fim da sua desgraça.
Dois meses depois, em Março, Vilombo o único amigo, que lhe sobreviveu, velho e só, viu gente, que não via há muitos anos, passar entre os esqueletos do quimbo. Chamaram-no par que fosse com eles. “Toda gente que sobrou vem aí, Velho”!
- Eu vou mais aonde, se já perdi até a vida dos meus netos?
- Vem, mais-velho! A desgraça acabou! Lá atrás na fila, tem um menino, que pode ser teu neto. Ele não tem ninguém! Nós também somos teus filhos, não temos nada. Vamos só. Vem... não podemos te deixar...
Vilombo pediu ajuda para levantar-se a custo, e começar a andar. Afagou a cabeça do menino, conseguiu finalmente esboçar um sorriso.
Deixou morta a desgraça.

domingo, 2 de maio de 2010

MEMÓRIAS DA ILHA - CRÓNICAS


EXERCÍCIOS MENTAIS E SENILIDADE

Ao chegarmos à média idade, notamos que começamos a esquecermo-nos de pequenas coisas, pequenos acontecimentos e situações e entramos em parafuso, preocupados com a nossa memória que já não mais responde aos comandos tradicionais.
É uma reacção primária e normal, todavia se pararmos para pensar um pouco, cedo chegaremos a uma conclusão óbvia; a de que a memória, tal como o corpo, sem exercício, não funciona de maneira adequada e começa a mirrar, a tornar-se esparsa e espaçada.
O tema de hoje ocorreu-me ao pensar nos 86 anos que minha mãe em breve celebrará, e nos 81 anos que o meu querido amigo e confrade no esgrimir de palavras e ideias, o nosso Uanhenga Xitu, aliás de Agostinho Mendes de Carvalho ou, melhor dito, seu nome de kimbundu, celebrou há dias, com muito carinho de todos nós. Ambos são pessoas activas e envolvidas, a minha mãe não tanto quanto o ti Mendes nas mesmas lavras, claro. Mas nas dela, é um prazer ver, desde que a memória não lhe seja muito solicitada. Se não, o caso vira prazeroso para todos nós, por ela não se dar por achada,
Li um programa, elaborado por uma americana, a senhora Kimberly McClain, que é uma espécie de guia prático, uma receita, para ajuda do refrescamento da memória, que consiste em exercícios práticos e simples, para que não passemos horas a indagarmo-nos onde é que o raio da chave da casa ficou, para onde é que fugiu o telemóvel, se desligámos ou não o gás da cozinha, culparmo-nos por não termos recordado o aniversário da Maricota, etc.
Esses exercícios são um pouco o que seria a aeróbica para o corpo ou, já que estou a falar de mais velhos, a ginástica sueca, ou a musculação soft do John Weismuller (vejam que já nem me recordo como se escreve), lembram-se?
E não há, hoje, qualquer sombra de dúvida que, para aqueles que se mantêm permanente e mentalmente activos, a senilidade é uma praga ainda bem longe. Perguntem aos mais velhos(as) que passam a vida a fazer palavras cruzadas, passatempos, a jogar xadrez ou damas, quebra-cabeças, a escrever, a desenhar e ou a pintar, a dançar kuduro ou a tarrachinha, a inventar engenhocas com os restos das latas e artefactos velhos e usados, ou a atazanar a vida de colegas quer no Parlamento quer no Governo com picuinhices que fazem muito bem à saúde mental.
É claro que, numa sociedade como a norte-americana, crescentemente mais envelhecida e “engordecida” (a minha palavra preferida), com o mal de Alzheimer respandido, assim como com outros tipos de doenças mentais, esta preocupação com a memória, atirou a comunidade científica para pesquisas múltiplas, sobretudo no que refere ao scanning e mapeamento do cérebro, onde, com ajuda de alta tecnologia, já o esquadrinharam quase todo para aprenderem e entenderem o seu funcionamento, a fim de que o envelhecimento não signifique necessária e imediatamente uma questão de senilidade.
Aliando-se os exercícios mentais aos antioxidantes, como o selénio, a vitamina C e E, ou às ervas tradicionais, poder-se-á contribuir para um retardamento do processo da perda de memória e a proteger-se o cérebro. Já é evidente que os processos para evitar-se o “engordecimento” (que me perdoem o bisar do termo, mas trata-se de amor à primeira vista) que leva às paragens cardíacas, como alimentação correcta, manutenção de um colesterol e pressão arterial baixos, exercícios físicos regulares, são os mesmos que protegem o cérebro, daí procurar-se saber se as mesmas drogas para o colesterol serão eficazes para a nossa matéria pensante.
A receita para a memória, que a senhora McClain utiliza, numa possível relação causa-efeito, inclui, entre outras coisas, uma dieta alimentar saudável correndo paralela a exercícios físicos diários, técnicas de relaxamento e exercícios de memória diversos.
Mesmo sabendo que os mais velhos(as), por tendência natural, são avessos a tudo isto que referi, aqui deixo o recado. Toca de exercitar, de comer bem, não em quantidade mas em qualidade se possível, e fazer exercícios mentais, como memorizar o que o vosso guarda-roupa tem lá dentro, por exemplo, ou quando é que viram o vosso neto tomar banho pela última vez.

04/09/05

SUMAÚMA - POESIA


INCONSCIÊNCIA

Ascende
a inconsciência
milenar

pragas escarradas
por homens
a mulheres
desejadas espelhos
de virtudes
em si
não reflectidas



ECOS

O eco
percorre
o calor
em fibras sinuosas
à sombra da bananeira

no perene vigiar
do surucucu

O IMAGINÁRIO NO TEXTO ANGOLANO (NO PRELO)


BOAVENTURA CARDOSO

Nasceu em Luanda a 26 de Julho de 1944. É licenciado em Ciências Sociais e membro fundador da União dos escritores Angolanos, com vasta carreira no Governo. Autor de vários livros, segundo Luandino Vieira, é um escritor revelado no pós-independência e dono já, em sua bibliografia, de títulos importantes na afirmação e re-definição da literartura angolana contemporânea. O excerto aqui inserido faz parte do livro “A Morte do Velho Kipacaça”


A ÁRVORE QUE TINHA BATUCADA

Pintadas de fresco na memória, cenas de O Laço da Meia-Noite. Teimosamente: apesar do esforço. E passava das onze da noite, vinha assim do cinema, noctívago quase só. E vinha assim andando e assim andando, noctambulosamente, passos quase na fronteira luz e escuridão: linha divisória de espaços sociais. Tinha nó na garganta: medo engravatado.
Silêncio cortado: cão a ladrar. E acelerei então: o passo. Cacimbante, luarenta: a noite. Capim seco tinha então cheiro de queimadura. E tinha pirilampo, pontinho luminoso: adiante. Sem intermitência, não era pirilampo: certifiquei. E experimentei então descontrair assim: assobiando. Breve sensação de segurança.
Porém minhas pernas não estavam então acompanhar o esforço para me descontrair assim. Pontinhos luminosos agora estavam então aumentar. E parei: assustado. Mas impetuosamente veio então assomo de coragem: decidido, retomei o passo. Sob a minha cabeça. Os pontinhos luminosos. E dos lados: os pontinhos luminosos. Sem querer tossi então e alguém também tossiu. E tossi: tossiu.
Tossia e na noite luarenta ecoavam tosses. E retive então o passo assim e olhei assim para os lados: ninguém! Oh! outra vez: na passada. E assobiei então e o silêncio da noite que apenas de vez em quando era cortado pelo vento e o silêncio da noite se engravidou então de assobios. Fui! Fui! Fui! E deixei de assobiar, mas o silêncio continuou a se encher de assobios. E imobilizei então de novo o passo. E ouvi então. E decidi então: passinho progressivo. E ouvi então outra vez: vozes. Quem vem aí? - quem falou assim fui eu. Quem vem aí? - vozearam vozes. E parecia que as vozes estavam a vir então de uma árvore que estava: próxima. E ventava. Capim seco e galhos secos começavam então a rolar, a rolar a rolar assim pelos carreiros muitos. Fantasmas pareciam. E estava então calado. O eco é que então continuou vozeando: quem vem aí!!! E me sentia pequeno perante uma voz tão potente e cavernosa. E comecei então a ouvir, vindo da árvore que agora estava à minha frente, uma mistura de sons e ruídos e gargalhadas e batucadas e barulho de pratos e cães ladrando e gatos miando. E não estava a ver ninguém. E não me atrevi a dar passo. E fiquei então estático. Um som oco crescia e crescia assim: eram cabaças se entrechocando. E desceram então da árvore e vieram então cá em baixo se movimentando ás voltas, dançado. E não via ninguém de repente comecei então a ser esbofeteado. E tentei me esquivar, me defender: em vão. E aguentei bofetadas e pontapés até cair no desmaio.
Imponente, vertical, alicerçada na força telúrica, resistente às intempéries do Tempo e da Natureza. Caminhantes de todos os caminhos passavam. Uns passavam sem parar e outros paravam e lhe segredavam então. Caminhantes de muitos caminhos passavam. Uns cansados da caminhada paravam e descansavam para no corpo dela os seus sentimentos e desejos. De muitos caminhos, os caminhantes lhe veneravam. E tinha então caminhantes que vinham lhe fazer pedidos para resolver casos. Caminhantes de todos os caminhos iam passando. E uns passavam então e nunca mais regressavam. E tinha outros que passavam e repassavam. E a Chuva e o Frio e o Sol e a Noite e o Dia eram dos caminhantes que passavam. Guardava então segredos de muitos caminhantes e guardava lamúrias e desejos e sentimentos e queixumes. E guardava tudo então, porém não revela nada. E ninguém podia desvendar então o que estava lá encerrado. Um dia vieram então caminhantes armados de catanas e machados para lhe matar e ver então o que é que ela tinha lá dentro. Queriam lhe roubar as prendas valiosas que ela recebia de muitos caminhantes e que guardava então no seu corpo. E os caminhantes, depois de muitas horas e suado e extenuados, desistiram de lhe golpear com as catanas e os machados. E no corpo dela não havia então nenhum sinal e nenhuma marca e nenhum golpe. Por isso os caminhantes desistiram.
E no começo da estrada que dava para a Kaála, frondosa e imponente: a árvore. Durante o dia era igual a tantas outras. Na sua sombra os passantes vinham então se refrescar e recobrar energias para a distância longa. E descontraídas as crianças vinham então: lúdicas. Era uma árvore igual a tantas outras. E tinha gente que só dava por ela pela sua imponência. Durante o dia tinha então pássaros e passaritos e passarinhos que vinham ainda brincar nos seus galhos. E vinha então o Bulikoko, gigante e pousava na copa da árvore e nidificava e começa então assim sorridente té… té… té… e o Huicumbamba de pescoço dourado respondia e então uei… uei… uei.. Mas quem traquinava mais, salitante, era o Mukorikori, rabo de junco tri… tri… tri.. O Mukuku-a-tumba, esse não vinha sempre. Mas e quando vinha avisava então assim du... du du… eh! e a gente que morava cerca sabia que era a chuva que estava vir lá então das bandas de Kangambo, nuvens engrossando e passando pelo Cemitério e Kapopa e depois descarregava. Bons pássaros e passarinhos, amiguinhos de todas as horas. E tinha também uns pássaros que só vinham nas horas aziagas eh! kiiuik… kiiuik… kiiuik… era entaõ o Yngo, de crista alta. Mas quem metia mais medo era inda o Kakoko. Passava raras vezes. E pousava então mais vezes nas casas abandonadas, e nas torres. Quando vinha, o Kokolo se enfiava nos buracos da árvore e começava então a chorar, eh!
Era uma árvore normal e igual a tantas outras, até aquele dia. E depois tinha mais gente que, passando à noite pela árvore, fora então agredida. Tinha cada vez mais gente. E veio então a PSP averiguar e não viu ninguém. E no outro dia a cena se repetiu então. Notícia correndo, gente vindo. E até povo da Vila Matilde e Campo da Aviação e Kangambo até, desceu e veio então: curiosamente. E durante o dia era uma árvore normal e sem nenhum sinal estranho. De noite é que ninguém se atrevia então a ir lá satisfazer a curiosidade. E de dia uns lhe olhavam: respeitosamente. Os mais velhos descobriam então a cabeça e se inclinavam perante a árvore. E tinha até gente que mesmo de dia estava então evitar passar por ela.
Corria, bocante: a boca! Intrigado, Sô Administrador mandou então chamar os cipaios e falou assim vocês esta noite vão dormir na árvore para apanhar os bandidos. Estão a ouvir? Sim senhor Sô Administrador! - a resposta. Sô Administrador, ainda bem Sô Administrador está nos mandar então acaçar os bandidos que estão na Kaála, já estão abusar muito, Sô Administrador - quem falou assim então o chefe dos cipaios, nome dele conhecido de Cinquenta e Um por causa das palmatoadas até naquela conta que ele gostava então de palmatoar nos presos. E fiel servidor do Sô Administrador e sempre solícito na execução das ordens dele e bajulador, o Cinquenta e Um estava sempre singraxar no Sô Administrador. E quando tinha folga ia sempre na casa do Sô Administrador se oferecer para regar o jardim e baloiçar então com os meninos no baloiço e até mesmo lavar com prazer os pezinhos chulécheirosos do Sô Administrador. Os presos evitavam então dar encontro com ele. E um dia os presos estavam assim a trabalhar na estrada e assim a trabalhar e a carregar pedra e a britar pedra. E de repente chegou Cinquenta e Um e chicoteou então um preso que estava ainda descansar. E o preso se revoltou e lhe deu na cara. Ih! O Cinquenta e Um à noite veio então lhe buscar e nunca mais ninguém soube dele.
De manhã cedinho Sô Administrador tinha então no gabinete, agredidos e alquebrados: os cipaios. E vomitou raiva toda dele nos cipaios, disparatou as mães deles. Matumbos! Cobardes! Vocês são piores que as mulheres! Cinquenta e Um adiantou ainda dar explicação e a resposta do Administrador foi lhe abonar então uma série de bofetadas.
Sô Administrador, irritado, mandou então pôr cerco na Kaála: a rusga. Nada. E os bandidos não apareceram. Do gabinete dele todos os dias só ouviam então berros e disparates um monte. E ele andava então desorientado. Assim então resolveu comandar pessoalmente as operações. Se muniu então de armas e cordas e cacetes e mobilizou então cipaios todos e, à noite, pela calada cercaram a árvore. E com ele também estavam então alguns comerciantes.
No dia seguinte a notícia: correu. E Sô Administrador estava mal no banco de urgência.
Depois de ter pregado vários sermões contra os bandidos, Sô Padre decidiu também ir lá desafiar então o Satanás. E na árvore deixou a batina e o missal e os óculos e foi levado então em estado de coma. E nem as benzeduras lhe safaram.
Caminhantes. Vinham de muitos caminhos. Passavam e reparavam e olhavam: atónitos. Caminhavam caminhos de muitos caminhos e: vinham. E paravam e olhavam e olhavam e retomavam: caminhos. Caminhantes. Vinham de muitos caminhos.
Cortar a árvore! Cortar a árvore! - decisão tomada. Alguns aconselharam-lhe acorrentar primeiro e a deixar ficar assim pelo menos durante três dias. E assim os bandidos não podiam então fugir.
Sol ardente, Sô Administrador, Sô Padre, os comerciantes, meio mundo, todos vieram. À ordem de começar e os homens e dez homens à volta da árvore, começaram então a arremeter machadadas no tronco da árvore.
Ninguém estava acreditar então no que estava acontecer. E passadas mais de três horas desde que os homens tinham começado a amachadar, tronco da árvore estava na mesma: intacto. E os homens tinham já as mãos a sangrar e quase não se aguentavam de pé. Sô Administrador, esperançado, incitava os homens a prosseguirem e os homens prosseguiam então exaustos. E uns então começavam a cair, mas sob as ameaças da autoridade se levantavam então para depois caírem novamente. Seis da tarde: tudo na mesma. Sô Padre já tinha então se retirado, sem ninguém dar conta. E pouco depois, Sô Administrador, alguns comerciantes, com medo da noite, se retiraram também. E veio então a noite e com ela a batucada: outra vez então.
Caminhantes, a Noite e o Dia e o Frio e o Vento e a Chuva, caminhantes de muitos caminhos, caminharam e foram ter com a Tempestade. Lhe contaram então tudo o que se estava a passar. A Tempestade lhes mandou então esperar, enquanto se preparava. E depois partiram juntos caminhantes de muitos caminhos. Quem vinha no comando era a Tempestade. Caminhante, a Tempestade é quem estava a puxar todos: a Noite e o Dia e o Frio e o Vento e a irmã dela, a Chuva. Tempestiva e tempestuosa vinha então a Tempestade tempesteando. Por onde passava arrastava tudo: tempestuosamente. E chegou a assim, peito inchado e assim começou então a berrar em voz troante e gritante e ribombante e faiscante.
Companheiros da mesma caminhada, o Vento e a Chuva lhe ajudavam então a engrossar a voz. Troante. Intempestivamente a Tempestade se retirou. Com ela os caminhantes da mesma caminhada. E a árvore estava lá: firme, imponente e frondosa.
Os cipaios entraram apressados no gabinete do Sô Administrador e da lá saíram então pouco depois. Tinham de cumprir a ordem! Era uma ordem do Sô Administrador e eles sabiam que não podiam sequer contestar. Sô Administrador falou assim se não cumprirem com a minha ordem mando-vos todos nas minas da Kitota! Dito não tinha contradito.
Se puseram então a: caminho. Cinquenta e Um estava apreensivo e quase e quase não falava. Agora é que Sô Administrador me arranjou um trinta e um! - pensou no pensamento dele. Como é que ele ia convencer então o velho a vir em Malange se ainda no mês passado lhe tinha espancado? E o velho estavam lhe acusar então de ter enfeitiçado um comerciante, por isso um mês antes tinha estado na Administração. A carrinha ia rolando estrada fora e entrou na picada. Cinquenta e Um: cara dura, caladura, sem faladura.
Bocaram: a árvore tinha então milagre. Caminhantes, vieram: peregrinamente. Cegos e paralíticos e mulheres de ventre infecundo e homens sem geração e solteirona desamada e kafofo de visão camoneana e kaleijado coitadito e marido cornudo na tourada conjugal e caloteiro fugindo da cobrança e pobretão sonhando os milhões na lotaria. Todos: vinham. Caminhantes. Peregrinos. Vinham de muitos caminhos. Caminhos de muitas desgraças e: vinham. E partiam: desiludidos.
As mulheres, na lavra, só quando viram já a chevrolet verde, eh!, começaram a desaparecer bofele-felê, bofele-felê.
Carrinha parou: Camburi tinha ninguém derepente. E tinha só galinhas e cabras circulando. E fumo na cozinha era sinal de que o povo tinha fugido tinha momentos - Cinquenta e Um confirmou irritado. Bateram palmas e entraram para dentro das casas e nada.
Veio então a noite e nada. No relento da noite os cipaios dormiram ao relento. Cinquenta e Um: desconseguiu no sono. E pensou na surra que Sô Administrador lhe ia então surrar se voltasse sem o Velho. Ih!
Madrugada: Cinquenta e Um despertou cipaios. E despertos. Ordenou: buscas nas cercaduras. E porém: advertiu. Nada de brutalidades: tirar mel sem espantar abelhas. E os homens foram então e Cinquenta e Um ficou só assim: expectante. E no fumar tinha então ligação directa: cigarro acendia com cigarro.
Um a um gente regressando. Cipaios se excedendo em tácticas de tirar mel sem espantar abelhas. E Cinquenta e Um se animando, vendo gente vindo. Distribuía cumprimentos e sorrisos.
Gente receosa, desconfiando. Cinquenta e Um mandou descarregar carrinha: garrafões de vinho e malas de peixe e panos e cigarros e muita coisa. Gente desconfiando: mão que ontem trazia chicote, hoje trazendo mão cheia, benemérita. E Cinquenta e Um tinha cara alegre e estava a abraçar a gente então.
E o Velho estava aonde? Não estava aparecer. E Cinquenta e Um solicitou imenso que lhe fossem então chamar e o assunto era importante e tinha uma mensagem muito boa da parte do Sô Administrador. Repetiu: o pedido. Gente estava receosa, não estava então acreditar.
Cinquenta e Um então persuadiu: não trazia nem armas e nem cacetes e nem chicotes.
Veio: o Velho. Cinquenta e Um estendeu então a mão e o Velho não lhe correspondeu no cumprimento. E mostrando simpatia Cinquenta e Um botou então mansas faladuras. Falou assim então que o Sô Administrador lhe mandou chamar para uma missão importante. Eu sou feiticeiro não posso ir falar com o Sô Administrador! a piada do Velho. E secundado pelos cipaios, Cinquenta e Um insistindo. Tinha gente que na mira da oferta aconselhava então o Velho a aceder. E o Velho nada. Cinquenta e Um insistindo. E o Velho nada. Bola vai e bola vem, só duas horas mais tarde é que puseram: acordo.
De Camburi a Malange, viagem de nem duas horas estava então a durar dois dias. A carrinha que na ida não teve problema, no regresso estava andar e a parar. Andava e parava e o condutor descia e ia então lá à frente no motor ver então o que é que estava acontecer e depois manivelava e entrava na carrinha e a carrinha então começava a andar e depois outra vez estava a parar. E assim então foram andando. Andando e parando. Cinquenta e Um, cadavez a carrinha parava descia também da carrinha e olhava à frente no motor e ficava então a disparatar a mãe dele do condutor. Depois, a carrinha foi ainda se enterrar na lama e todos os cipaios desceram na carrinha e ouviram os disparates do Cinquenta e Um. Alguém que queria lhe lixar no Sô Administrador falou então para todos os cipaios. E então depois disparatou não só a mãe dele do condutor e também a mãe deles dos outros todos cipaios.
E Cinquenta e Um estava mais zangado porque o Velho não queria descer na carrinha. E queria se meter com o Velho e um dos cipaios na mãe dele do Velho eh! podia então piorar a situação. A carrinha andava e parava e o condutor descia e ia então lá à frente no motor ver então o que e que estava acontecer e depois manivelava e entrava na carrinha e a carrinha então começava a andar e depois outravez estava aparar. Dez paragens seguidas e Cinquenta e Um perguntou no Velho se não percebia nada de mecânica e se ele não podia fazer alguma coisa. E o Velho falou que não sabia nada de mecânica. E assim então foram andando. Andando e parando. Cadavez a carrinha parava os cipaios então não adiantavam: palavra. Cinquenta e Um estava então a desconfiar é o Velho que estava então a fazer parar a carrinha andar e parar e por isso lhe perguntou então outravez se o Velho não podia fazer nada e o Velho falou então assim nada. Cinquenta e Um tinha: fúria contida. E foram andando. Em cada paragem Cinquenta e Um estava xingar a mãe deles dos cipaios todos e falava então alguém que queria lhe lixar no Sô Administrador. E o Cinquenta e Um estava sempre com a vontade dele de bater no Velho e estava sempre a travar: os socos morriam nos punhos feitos nos bolsos. E assim então foram andando, andando, andando até chegar a Malange.
E o Sô Administrador já estava cá fora e vai e vem e vai e vem no quintal da Administração. E o Cinquenta e Um quando viu Sô Administrador estava então a passear no quintal começou então a tremer de medo. E para surpresa dele Sô Administrador quando viu então o Velho estava descer na carrinha começou então a sorrir e o Cinquenta e Um experimentou ainda sorrir e depois então, vitorioso, sorriu com o Sô Administrador.
Caminhantes. Vinham de muitos caminhos. Passavam e repassavam e olhavam: atónitos. Caminhavam caminhos de muitos caminhos e: vinham. E paravam e olhavam e retomavam: caminhos. Caminhantes. Uns passavam olhando para frente e outros passavam olhando para trás. Uns passavam com o Tempo e passavam e outros vinham com o Tempo e vinham. Só árvore é que não passava e não vinha. A árvore: estava.
De boca em boca: a notícia. A árvore ia ser derrubada! Foram buscar um Velho em Camburi que vai derrubar árvore! E o Sol nem tinha ainda meia andança e já tinha então gente muita à volta da árvore. E todo o mundo veio. E Sô Administrador veio. E Sô Padre falou então que não acreditava em feitiçarias e blasfemou o Velho, Satanás em pessoa
O Velho se ajoelhou diante da árvore e ficou assim algum tempo. E gente atenta. E depois subiu em cima da árvore e toda a gente começou a ouvir então gente conversando em cima da árvore: lá. E tempo depois, da árvore começaram então a cair trapos, penas de galinha, ossos. E caíram então as cabaças, muitas cabaças.
Ninguém se atreveu a falar. Não dava mesmo para falar. Eh! Eh! Eh!
O Velho desceu e ordenou então que os homens que começassem a cortar então a árvore. E os homens começaram pum! pum! pum! E cada machadada a árvore gritava ai! ai! ai! E o grito vinha do fundo das raízes e subia pelo tronco e se espalhava pelos braços da árvore. E a gente viu: o sangue. A árvore jorrava então sangue ai! ai! ai!
Seis da tarde a árvore batucante estava ainda de pé. E o Velho estava então transpirar no olhar furioso do Sô Administrador. Cinquenta e Um desconteve: a represa. Desembrulhou então a língua, enfureceu o cavalo-marinho, atiçou a besta e o rio arrastou pedras, cada pedra, pedradas, pedragulhos e rebentou então: o dique. O Velho foi nas águas.

INKUNA MINHA TERRA


O ALMOÇO

Fora jurado amor à primeira vista.
Ninguém duvidava, ao ouvir Malaquias “Gordo” contar, com paixão, a estória do seu matrimónio, que engorda há quinze anos.
Conhecera a então futura esposa num dos programas matinais de culinária, que a T.P.A.
(televisão de Angola) quinzenalmente apresentava naqueles anos idos. A fama de bom garfo, aliada ao facto de ser dono do mais famoso restaurante de luxo de Luanda, levara a que o convidassem a presidir ao júri do concurso. Aos concorrentes era atribuído um valioso prémio, com base na receita mais original, no prato melhor confeccionado perante as inquiridoras câmaras televisivas, e nas parcas chamadas telefónicas recebidas no programa, sobretudo de aborrecidas donas de casa querendo dar palpites gastronómicos.
Embasbacado, mesmerizado nos jeitos e trejeitos culinários das mãos da fada Serafina Coquillage (assim se inscrevera), entrou em acelerada órbita amorosa quando ela, sem o querer, acariciou castamente o corpo engordurado do coelho.
Ao esquartejá-lo, cada golpe de retalho, era uma insinuante frechada de Cupido no já esfrangalhado coração de Malaquias que, boquiaberto, inalava os suados respirares da amada.
Quando Serafina começou a temperar o bicho com sal, pimenta, vinho branco (um copo), alhos e louro (uma folha), Malaquias havia tomado a decisão mais intempestiva e séria de sua vida. Se a senhora fosse solteira, ou desimpedida, nada, mas absolutamente nada, se interporia no caminho de sua felicidade. Chamaria a si a grata tarefa de desencalhar aquela frágil nave das rochas do desamor e da solidão para, incólumes, navegarem os mares doces da vida compartilhada entre caçarolas, almoços, amores e jantares.
O continuado carinho demonstrado por Serafina, ao segurar o tacho que levou a lume com o azeite (cinco ou seis colheres de sopa), a cebola picada, o ramo de salsa e um pouquinho de água, para refogar o inditoso lapin, confirmou a justeza das suas pretensões.
Mulher assim não era para andar à solta, a desperdiçar tempo e talento em programas de televisão, ainda por cima para gente que nem apreciava ou entendia a arte e o amor envolvidos. Era um atirar de pérolas aos porcos...
Sentia que Serafina Coquillage, o pseudónimo que escolhera revelava toda uma alma preparada a servir repastos dignos das kiandas (sereias), dar-se-ia por realizada não só a gerir a vasta cozinha do seu famoso restaurante na Ilha de Luanda, como a de sua casa, na qualidade de esposa amantíssima.
Serafina teria uns trinta anos, com uma cor negra a fugir para o castanho que reluzia ás luzes dos projectores do estúdio, corpo bem roliço (85 quilos) e mais para o baixo de que para o médio, e uns serenos abaulados olhos.
Viúva há quatro anos, o anafado marido morrera de enfarte cardíaco, irresistente aos bons tratos do garfo. Sua razão de vida encontrava-se nas panelas, tachos, frigideiras, esfregões e afins. Não por ser mulher, mas sim por chamada divina, um sacerdócio.
Imbuída desse espírito, ganhara concursos por tudo quanto era canto, apresentando agora seus melhores pratos no programa televisivo das dez da manhã. Levar a palavra do bem comer aos ímpios, convertê-los, era um gesto da mais alta sublimidade.
Extravasando transcendência, metia agora no tacho, onde deixara o roedor a alourar, a polpa de tomate (2 colheres de sopa) e o resto dos ingredientes (uns quatrocentos gramas de nozes picadas, pimenta preta ralada, cravinho e o decilitro de natas).
Com a coração a estoirar, mesmo antes de terminada a confecção do prato, Malquias decidiu que daria nota dez àquela fada gastronófila.
“Que maravilha, que destreza! Merece o máximo!...”, ia cochichando, suficientemente alto para os outros dois membros do júri, um, empregado seu, o ouvirem.
Quando Serafina Coquillage colocou o aromático coelho já preparado e enfeitado de salsa picada, sobre rodelas largas de pão torrado, não conseguiu esconder a enorme alegria. Tão cedo o programa terminou, dirigiu-se a ela e apresentou-se.
“A senhora foi deliciosamente maravilhosa”, disse, enfatizando a palavra deliciosa. “Poderíamos sentarmo-nos ali a um canto do estúdio e provar a peça de arte que confeccionou? Dei-lhe nota dez, nem que fosse só pelo seu nome artístico...”, continuou, estendendo-lhe uma mão adiposa, mas firme.
“Quão gostoso é ouvi-lo”, respondeu, sabendo que encontrara, por fim, a alma gémea
Depois de terem comido o coelho que Serafina (Valente era o verdadeiro nome) confeccionara, Malaquias levou-a a casa para se preparar e irem, dali a uma hora, almoçar no “Pantagruel”, seu famoso restaurante.
Decidira que seria depois da sobremesa. Sabia de antemão que o cérebro e o coração funcionam muito melhor quando o estômago está satisfeito. Seria logo após a sobremesa que lhe formularia o pedido de casamento. Caso negasse, poderia sempre tentar conquistá-la propondo-lhe a gerência do restaurante. Nunca fora aventureiro, todavia iria arriscar num jogo de tudo ou nada. Onça que não caça é onça velha, morre de faminta vida.
Ás doze e meia, como combinado, tocou à campainha da casa de Serafina, que não se fez esperar. Exsudava antecipação e seus vastos seios não o escondiam, ofegava. Malquias, cavalheiro, abriu-lhe a porta do carro, esperou que se sentasse e fechou-a com cuidado.
Serafina adorou, confirmava um pouco a ideia que fizera dele, atencioso, bom garfo e o suficientemente gordo para a tornar feliz. Aceitaria qualquer investida do adiposo garanhão, dentro das medidas da decência e do socialmente aceitável.
“Depois da sobremesa, tenho uma proposta muito importante para lhe fazer...” atirou, para sondar.
“Sobremesa? Não me fale de sobremesa, que é parte mais importante de qualquer refeição para mim”, disse, meiga e enternecida
Malaquias tremelicou de emoção, o Mercedes guinando de vontade própria, ligeiramente para a esquerda.
“Espero que tenha parfait de laranja...”, continuou Serafina, emocionada.
“Parfait de laranja?... Creio que não temos, mas doravante se não o encontrar na carta das sobremesas, paro de comer por uma semana. Juro-lhe!... Aliás, vaaiii ensinar o nosso maitre doceiro como o confeccionar da maneira que gosta”, emendou rápido, não se perdoando por não ter o referido parfait.
“Quanta doçura de sua parte! Até é bem fácil de preparar, leva poucos ingredientes. O estimado Malaquias mistura bem o leite condensado (uma lata), o iogurte natural (um casco), o sumo natural de laranja (um copo), e as cascas raladas das mesmas (pouco menos de uma colher de sopa)”, disse Serafina, ciente que lhe fazia uma declaração de amor.
“Por favor Serafina, não continue, comove-me... e estou a conduzir...”, disse Malaquias com sinceridade, o Mercedes fugindo novamente para a esquerda.
“Ó meu querido amigo, não seja modesto”, riu com pudor.
“Olhe, depois continue a misturar, numa panelinha, a gelatina (sem sabor, e em pó), e a água (meia chávena) até a dissolver. Quando tiver ganho consistência mínima, coloque em taças, intercalando camadas de creme, com camadas da mistura obtida com a castanha de caju picada (cerca de meia chávena), e o chocolate branco ralado (igualmente meia chávena)”, estimulava, a meiga Serafina, mais uma vez Coquillage.
“Tempera suas palavras com tal carinho e saber, que me deixa extasiado!... Disse alternar camadas de creme de laranja, com a mistura da castanha de caju e chocolate branco? Será que ouvi bem?”.
“Ouviste Malaquias!”, disse-lhe, sem notar que o tratara por tu.
“Oh Serafina, como me enche a alma com esse parfait!...”, retorquiu, segurando-lhe a mão sem aperceber. “Continue, continue meu bombom, e depois?”.
“Oh Malaquias, como me derretes com tuas palavras, sinto-as como se fossem a mais doce tarte de framboesas... mas deixa-me acabar! Depois enfeitas com rodelas de laranja e pedaços da castanha que sobrou, e pões na geleira até estar pronto!...”
Foi ao verem, apavorados, o outro carro contra o qual iam inevitavelmente chocar por estarem fora de mão, que Malaquias notou, atordoado pela ousadia, que segurava a mão de Serafina, e esta, espantada, que já há algum tempo o tratava por tu, contra todas as regras da boa educação, tendo-lhe incluso confessado a sua maior fraqueza, a tarte de framboesas.
Durante as duas semanas do internamento de ambos, na mais chique clínica privada de Luanda, a cozinha do restaurante “Pantagruel” esmerou-se no envio dos melhores pratos para o patrão e sua futura esposa. É que Serafina Valente, logo após o desastre, perante a surpresa dos médicos que lhes colocavam o gesso nas pernas, aceitara novamente a proposta de Malaquias “Gordo”, feita ainda quando nos bancos do carro acidentado.
Quanto ao magnífico BMW do outro condutor, desprestigiadamente atirado para a berma do passeio e destruído quase por completo, o problema era da seguradora, o que estava feito estava feito.

Luanda, capital de Angola, no ano de graça de 1996

ANTOLOGIA PANORÂMICA DE TEXTOS DRAMÁTICOS


JOSÉ MENA ABRANTES

NANDYALA OU A TIRANIA DOS MONSTROS

Cenário e adereços - Um círculo em tecido claro, com 4 metros de raio. Três estruturas metálicas em forma de V deitado: a face que assenta no chão (forrada de plástico) forma em relação à outra (coberta de serapilheira) em ângulo de 45graus. Um pequeno banco de madeira. Um braseiro/fogueira transportável. Três tubos rígidos de plástico transparente. Um cachimbo, um arco e um bastão. Um plástico grande.

1. A Invasão dos Monstros

(Um grupo de pessoas sentadas no chão, à volta de uma fogueira meio apagada, escuta um velho narrar uma história em voz baixa. Num canto mais afastado, um ferreiro fuma em silêncio um cachimbo).

FERREIRO
(falando ao público)

Foi uma noite como a de hoje. A aldeia estava sossegada e já quase todos se tinham recolhido. Só um pequeno grupo à volta da fogueira meio apagada escutava ainda as histórias do velho Nambonde, aquele que nasceu no ano da praga de gafanhotos.

(entram os monstros)

Foi então, quando menos esperávamos, que os monstros saíram do escuro e caíram sobre nós...
O mais terrível é que eles matavam sem fazer ruído, como um sonho...

(Quando o ferreiro se cala, ouve-se um zumbido leve que começa a aumentar de intensidade, acompanhado por um ruído surdo, semelhante a pás de helicóptero. Inicia-se o ataque dos monstros. A roda dispersa-se. Todos são mortos, com excepção de uma mulher grávida que consegue esconder-se. Os monstros percorrem o espaço em várias direcções, passeando entre os cadáveres. Pressentem a presença da sobrevivente, mas não a localizam)

Toda a aldeia foi arrasada. Eu ainda pensei em ajudar, mas... foi tudo tão rápido, e além disso não sabia como enfrentá-los. Acabei por fugir, tomado de pânico. Durante horas corri sem destino pela noite dentro. Bem protegida do frio e do vento levava comigo uma brasa acesa da minha forja. Tinha pelo menos de salvar o fogo, impedir que ele se viesse a apagar.

(Pouco a pouco, muito lentamente, os cadáveres espalhados pelo chão vão erguer-se, ao som de uma música adequada, formando o “coro dos antepassados”. Eles vão poder deslocar-se entre os monstros, como se fossem invisíveis).

2. Nandyala (nascimento e primeira infância)

(A mulher, aflita, sente os monstros continuarem as buscas. Ouvem-se de vez em quando os seus soluços abafados)

CORO DOS ANTEPASSADOS
(à medida que se põem de pé)

- Nós vimos e ouvimos aqueles que nos arrancaram a vida...
- Voltaremos quando morrerem aqueles que nos mataram...
(Os antepassados dirigem-se a seguir para o local onde se esconde a mulher, fazendo uma barreira à sua volta. Isso faz com que os monstros se desorientem ainda mais nas suas buscas).
FERREIRO

Durante anos vivi sozinho, caçando e comendo frutas e raízes. Nunca mais ousei voltar em direcção da minha aldeia. Julgava que todos tinham morrido. Nessa altura não sabia ainda que uma mulher, grávida de várias luas, tinha conseguido escapar à fúria dos monstros. Ajudada pelos espíritos dos antepassados e pela experiência d várias gerações, conseguira sobreviver na toca de um papa-formigas. Foi aí que gerou e deu à luz Nandyala, o que nasceu em tempos de fome...

(Enquanto o ferreiro fala, os antepassados transportam para primeiro plano e fazem girar a estrutura em que a mulher está escondida, indicando assim a passagem do tempo. A mulher parou entretanto de chorar. Os antepassados rodeiam-na, protegendo-a. Entoam um canto suave que vai servir de fundo à conversa da mãe com o filho que traz no ventre).

MÃE

Meu filho que vais nascer. Não tenhas medo de nada. A tua mãe cumpriu todas as regras. Depois que fiquei grávida, só o teu pai se deitou comigo na mesma esteira. Logo que tu mexeste, tomei a farinha de sorgo sentada no chão, levei para casa a cabaça com as raízes de “otyvatu”, ainda tenho amarrado ao ventre um pedaço de raiz “tyihola”. (Começam as dores de parto) Senti muita fome, mas não comi a carne das tartarugas, para não ficares para sempre dentro de mim. Não tenhas medo, meu filho que vais nascer. Aqui já ninguém te vai fazer mal. A tua mãe quer que tu vivas. A tua mãe quer viver!...

(Chega o momento do parto, feito à maneira nyaneka. Mãe de joelhos, sentada sobre os calcanhares, é ajudada pelas mulheres do “coro dos antepassados”. Os homens entretanto retiram-se discretamente para trás da estrutura. As dores são fortes, mas as mulheres não deixam a mãe mover-se).

MULHERES

- Não te mexas, queres que chamemos os homens para te ajudar? Tu sabes como eles têm uma faca bem afiada. Ou queres matar o filho que vai nascer, a vida de todos nós?...
- Talvez o arco do marido morto tenha ficado armado dentro de casa. Agora já não há remédio...

(O parto continua difícil e as mulheres dão massagens no ventre da mãe).

- Tanto tempo fechada, se calhar o crescimento parou...
- Ou então ela não encontra a saída...
- Calem-se e ajudem!...

HOMENS
(Comentando entre si)

- Esta criança no seio da mãe, que não tem por onde respirar e que vive, que mama, que não chora e que tem razões para chorar, como respira e como mama?...
- Vocês não a vêm, mas sentem quando ela mexe. Como é isto possível
- Mistérios e mais mistérios...
- Ela está como num saco e não sufoca. Se vivêssemos assim fechados não morreríamos?...
- Mistérios mais mistérios...

(A criança cai finalmente por terra. As mulheres dão gritos de alegria).

MULHERES
Alililili! Alililili! Alililili!

(Pegam na criança ao colo e admiram-na. Mostram-na eventualmente aos homens)

MÃE
(aliviada)

Subi a uma árvore e não caí. Os ramos não se partiram...

OS HOMENS
(em coro)

Mistérios e mais mistérios...

(uma das mulheres ergue a criança e diz, enquanto a estende em direcção ao Oriente...)

MULHER

A todos os teus pais!...

(... e em direcção ao Ocidente)

... A todas as tuas mães!...

HOMENS
(em coro)

As folhas das árvores não esperam umas pelas outras, mas dão lugar, cada uma de sua vez, aos novos rebentos...

(os antepassados, homens e mulheres, avançam para a frente da estrutura da mãe e preparam a cerimónia da imposição do nome. Discutem o nome a dar).

ANTEPASSADOS

- Como nasceu em plena mata, devíamos chamá-lo “Fiko”...
- O parto foi difícil, a mãe tomou muitos remédios. O melhor é chamá-lo “Vihemba”...
- Ele nasceu depois da morte dos seus mais velhos. Tem de se chamar “Nampheta”...
- Eu proponho “Tchipukukulwo”. Sei lá se ele vai viver muito tempo...

MÃE

Não! Só eu sei o que tivemos que sofrer todo este tempo em que os meses se apresentavam com os seus nomes. Ele vai mesmo chamar-se é Nandyala, o que nasceu em tempo de fome.

ANTEPASSADO

- Sim, a tua mãe tem razão. Tu és Nandyala, o que nasceu em tempo de fome!

(Um homem levanta-se e mostra a criança aos outros).

HOMEM

Eis aqui Nandyala, mais um homem que nós recebemos da Providência. Ele há-de completar o que nós não sabemos. (erguendo-o) Que este nome seja sempre respeitado e honrado!

(todos gritam e batem palmas com alegria)

(Sombras diversas, projectadas pelos monstros, começam a obscurecer o local da imposição do nome. A mãe, receosa, levanta-se e puxa o filho para junto de si. O coro divide-se. Os homens afastam-se em direcção aos monstros. Só as mulheres se precipitam para junto da mãe, dando-lhe rápidos conselhos.

MULHERES

- Do pássaro que voa
Mãe
protege o teu filho
- Do pássaro sem rabo
que oscila e treme
sem mexer as asas
Mãe
Protege o teu filho
- Não deixes, Mãe
a sombra do pássaro
cair sobre o teu filho
- Do pássaro que voa
Mãe
protege o teu filho

(A criança é erguida pelas mulheres à entrada do esconderijo. Movimento de vaivém na horizontal. Depois sentam-na no chão e tocam-lhe na cabeça e nos ombros. A mãe espreme do peito algumas gotas de leite).

quarta-feira, 7 de abril de 2010

MEMÓRIAS DA ILHA - CRÓNICAS


SANTA BÁRBARA E OS NOMES

Há dias, vi na Televisão Pública de Angola (TPA) uma senhora lamentar-se que não haviam permitido que a sua filha fosse registada com o nome por ela escolhido, o de Giovânia Bárbara. A desgostosa mãe, reclamava que lhe tinha sido vetado o uso de Bárbara, tendo que registar a filha com o nome de Giovânia X (não me recordo do nome que substituiu o Bárbara).
Fiquei pasmado, se não escandalizado, em como uma pessoa, de seu livre arbítrio, decide que nome leva ou não leva o filho ou filha alheios, isto, na maior parte das vezes, a começar com os padrinhos, embora o caso seja diferente. Daí, tantas e tantas vezes, vermos o Miguelito, ser mais conhecido por Ricardo, o verdadeiro nome que os pais lhe queriam colocar, a Minguota, ser mais conhecida pela Isabel, e por aí fora.
A senhora do registo civil que impediu a referida mãe de registar a filha com o nome de Bárbara, e fez vista grossa ao Giovânia (muito em voga nas novelas brasileiras que por aqui vão mudando os nossos costumes, infelizmente), uma corruptela de Giovanna, nome italiano, certamente não sabe que a denominação Bárbara é bem comum no mundo de fala latina, pertencendo, incluso, a uma Santa muito famosa, a quem ela reza cada vez que há trovoada e relâmpagos.
Para se redimir do seu pecado, aqui lhe passo de seguida a oração de Santa Bárbara, nascida em Nicomedia, na Ásia Menor, que morreu decepada por ter consagrado a sua virgindade a Cristo e cujo culto acabou por passar para o Ocidente, sobretudo a partir do século VII.
Tornou-se a protectora e padroeira dos artilheiros, dos arquitectos, dos construtores, dos carpinteiros, dos bombeiros, dos electricistas, dos matemáticos, geólogos e mineiros. É ainda invocada para protecção contra as tempestades, contra os raios, contra os fogos e contra as mortes súbitas.
Sem qualquer pretensão de proselitismo, aqui vai a oração, para todos os oficiais do registo: “Santa Bárbara, que sois mais forte do que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura. Ficai sempre ao meu lado para que possa enfrentar de fronte erguida e rosto sereno todas as tempestades e batalhas da minha vida, para que, vencedor de todas as lutas, com a consciência do dever cumprido, possa agradecer a vós, minha protectora, e render graças a Deus, criador do céu, da terra e da natureza, este Deus que tem poder de dominar o furor das tempestades e abrandar a crueldade das guerras. Santa Bárbara, rogai por nós”.
De facto há que haver cuidado com a questão da colocação de nomes, há muita gente que coloca nomes que, embora tendo uma raiz na nossa cultura africana, como esqueleto, quisto, pobreza, etc., pelo desenvolvimento da sociedade, colocam os seus utentes em situações de agravo futuro e aí, a cautela para com quem assim deseje nomear os seus filhos. Todavia, quantos Edilsons, Elidirias, Assuntas, Jocileis, Glaucos, Zobaidas e outros tantos nomes importados via Globo, não há por aí devidamente registados? Só nos falta conhecer o António Um Dois Três de Oliveira Quatro, o paisagista Pinto Ramos de Oliveira, ou o gay Jacinto Leite Capelo Rego.
E por falar nisso, tive um amigo que passou metade da sua vida aborrecido com o nome que lhe houvera sido colocado, e só ficou em paz quando um dia o foi mudar, após muita paciência e papelada.
“Como se chama, então?” Perguntou-lhe o oficial do registo.
“José Dibinga”, respondeu ele. (José Cocó)
“E quer mudar o seu nome?”
“Sim, efectivamente, já estou farto dele”.
“Muito bem, e por que nome deseja então ser conhecido?” Indagou, solícito, o oficial.
“Por João Dibinga.” Respondeu, sem hesitar, o meu amigo.
Para quem não saiba kimbundo, que pergunte e aprenda, já é mais do que tempo.

21/09/05

SUMAÚMA


HORIZONTE

Olhei
para o horizonte
perscrutando
destinos

olhei
cogitando a palavra
mágica

o cheiro das chuvas

olhei
para o horizonte
supersticiosamente
dos homens

terça-feira, 6 de abril de 2010

O IMAGINÁRIO NO TEXTO ANGOLANO (NO PRELO)


ARNALDO SANTOS

A LIBERTAÇÃO DOS HOMENS-JINZÉU

Os anos foram passando desde a chegada das naus de alto bordo, e o Kinaxixi de Quinda viu crescer ao longe a cidade de São Paulo de Assumpção de Loanda-
Porém, a cidade de São Paulo era muito estranha. Nessa Loanda estavam insistir conviver, lado a lado, duas cidades distintas. A Loanda Cidade Alta, e a Loanda Cidade Baixa.
No entanto, só uma delas, a Cidade Alta que corria desde o pequeno morro junto à ilha onde se erguia a fortaleza de São Miguel, eriçada de pesados canhões de boca larga, até na Ermida de São José (que virou depois Hospital Maria Pia), ousava enfrentar o Kinaxixi de Quianda.
- Essa Cidade Alta. É que mandava em tudo… - explicou assim, devargamente, Kuxixima.
Mais do que alta, ela era altiva e sobranceira percorria todo o cimo da crista do morro guarnecido das cruzes da Igreja dos Jesuítas, e da Igreja de Nossa senhora da Conceição, e também das bandeiras e estandartes dos aquartelamentos militares. Dessa maneira a Cidade Alta seguia altíssona e festiva até nas encostas da manhanga do Rey, onde os escravos dos moradores iam buscar água. Dominando o casario, ficavam também nesse plano alto, os palácoos dos Governadores, do Bispo, e a Santa Casa de Miserictórdia com seu hospital.
A outra cidade, era, aparentemente, mais modesta. Nela a vida fervilhava entre tabernas, armazéns de escravos, sobrados com sanzala e as cubatas que se confundiam com as areias das barrocas.
Não raramente a Loanda Alta baixava nessa Loanda da praia, e nela se esponjava, se embriagava.
Assim, naquele arco da baía que se desenhava do sopé do morro da fortaleza de São Miguel até na Ermida da Nazareth, essa azáfama não passava despercebida na arriba do mmorro do Kinaxixi. Aqueles seres minúsculos que davam pelo nome de homens, indo e vindo pela praia, desavindos, causavam muita estranheza. As terras deviam andar muito abrasadas porque esses homens, que eram barncos e pretos, pareciam reduzidos a salalé-formigas brancas e jinzéu-formigões pretos, e não tinham parança ao sol, sempre em busca cega.
No entanto, embora assim todos minúsculos pequeninos, havia uns que eram diferentes. WEram os homens-jinzéu.
No Kinaxixi lhes chamavam assim de homens-jinzéu porque talqualmente os quissondes seguiam agarrados uns nos outros, quais colares de missangas pretas. No entanto, diferentemente dos quissondes, não marchavam. Andavam se arrastando presos entre si, e não sabiam para onde ir. Nas lhe unia a sua livre vontade de seguirem uns atrás dos outros. Estavam-lhes a ligar correntes de ferro, muitas vezes presas nos pés ou nos pescoços. Os lubambos.
- E foi então que no Kinaxixi todos esses casos começaram a levantar sérios cuidados… - disse Kuxixima. – Este foi o princípio de todas as estórias…
Naquela região do Kinanxixi só tinha uma verdade. A vida inteirinha naliberdade da natureza. Não havia outra; não conheciam.
Esses casos dos homens-jinzéu presos acorrentados não podiam acontecer no Kinaxixi. E na hora de beber água na lagoa, doía pensar no sofrimento daquela gente.
Dias a seguir aos dias, eles viamos homens-jinzéu passar dos quintais do major gabriel, grande negociante de escravos no sítio da Sanzala-ia.Mabangela, atrás da Igreja da Nazareth, até na Sanzala do Kixima-ia-Mbakanhá para beberem água. Essa água tinha o sabor de bacalhau, foi assim então que lhe deram esse nome no poço. Mas os homens-jinzéu eram escarvos, tinham sido comprados, não podiam refilar o gosto da água. Bebiam.
Os soldados da linha da Sanzala Bua Mbonge, que ficava mesmo ao lado, estavam-lhes a vigiar comespingardas e bacamartes, até que eles regressassem novamente no quintal do braga, ourives, no quintal do major Gabriel, ou nos outros quintais dos donos de escravos.
Nesses tempos, estavam a vir em Loanda navios e navios para carregar produtos e peças. E eram peças os dentes de marfim, as bolas de cera, os rolos de algodão e também as pessoas.
Todas essas peças os comerciantes carregavam nos porões dos brigues, escunas e pataxos. E amarrados uns nos outros com os lubambos estavam também os homens-jinzéu. Era muito triste.
As Quitutas do Kinaxixi que brincavam muito em todos os pequenos charcos, viam-lhes todos os dias assim amarrados, se arrastando olentam,ente e comentavam:
-Que crime é esse que esses homens cometeram para lhes fazerem sofrer dessa maneira?
Mesmo Quianda, espírito pai-mãe da lagoa, quando elas lhe contaram, não soube o que havia de lhes dizer.
Adiou:
- Essas são makas dos homens da cidade. Não se metam… - avisou.
Poré,, todo esse sofrimento as Quitutas filçhas d’água do Kinaxixi, iam vendo, e se comoviam até que os homens-jinzéu eram embarcados como peças, sufocados nos porões. E então, um dia, não puderam mais se conter e se zangaram.
- Vamos no Bungo… lhes buscar…? propuseram.
Esse era um dia do ano de 1730, em que durante quarenta dias a chuva grande d’água gorda nunca deixou de cair.
As tranças d’água estavam a ligar as núvens com o Kinaxixi. Chovia, chovia e de todos os lados vinham as águas para a lagoa. Mesmo do sítio da Santa Maria Magdalena, ali pertinho do Kinaxixi as correntes nãp paravam. Foi então que as filhas d’água repetiram na Quinada da lagoa:
- É hoje. Vamos no Bungo… lhes buscar. – afirmaram, resolutas.
Quainad sabia que elas queriam libertar os homens-jinzéu, mas se preocupou com os excessos que podiam ocorrer desse garnde entusiasmo.Por isso lhes recomendou com voz de Mãe:
- Cuidado… desçam devagar fele-fele nas barrocas… não corram…
O espírito d’água da lagoa queria-lhes explicar a razão daqueles conselhos mas elas não chegaram a ouvir mais nada. Mal ouviram a autorização não escutaram as outras recomendações. Saltaram pelas margens e cavalgaram nz zuna barroca abaixo, quela berrida estivessem a levar, na direcção do Bungo. Pareciam, eram só candengues felizes de se lievrarem da vigilãncia dos mais-velhos.
Então nessas corridasem modos, brutucu-brutucu salta aqui, brutucu-brutucu salta ali, atropela, varreram tudo na frente, areias, paus, troncos, e cavaram um caminho fundo para o Bungo, que maistarde lhe chamaram o Njila-ia-Kinaxixi.
As quitandeiras da Quitanda do Bungo foram as primeiras que lhes viram chegar com paus e pedras em confusão, e recearam. Mas adivinhando que as águas estavam zangadas, fugiram com medo, tat’ê!, mam’ê!, , os balaios e quindas na cabeça. Umas foram nos jimbungo, o lugar dos bambus, mas foram apanhadas, e outras foram na Caponta.
Mesmo os soldados da linha do Bua-Mbonge, no fortim deles, não resistiram. Vendo que os espingardões e os bacamartes não faziam farinha contra essas águas furiosas, que já tinham dado berrida nas quitandeiras e enterrado o Poço do Bacalhau, ala… Não esperaram mais as ordens dos chefes e abandonaram o fortim, fugindo cada uma para seu lado, se escapulindo qual os pucos.
Estava enfim livre o caminho para as Quitutas. Então as filhas d’água do Kinaxixi, em ondas e ondas de alegria, uma a uma invadiram as cubatas e sobrados e puseram em fuga os moradores, até que, por fim chegaram nos quintais onde estavam presos os homens-jinzéu ligados uns nos outros pelos seus lubambos.
Mesmo quando o Major Gabriel da sanzala Mabanguela, o Braga, ourives, da sanzala Bua-Mbonge e os outros donos de escravos, que tinham ocorrido nas pressas com os seus criados armados de pás e picaretas para tentar travar as filhas d’água do kinaxixi, já nada conseguiram. Era tarde.
As Quitutas do Kinaxixi já tinham abraçado os homens-jinzéu e lhes recebido nas sua vidas que levaram com elas, contentes por lhes poder entregar no mar.
Mais tarde, muito mais tarde, quando as pessoas passavam no Njila-ia-Kinaxixi, esses casos elas recordavam, ainda espantadas.
E tentavam adivinhar como depois os homens-jinzéu foram aparecer vivos nas suas sanzalas.
No entanto, o exemplo das corridas das Quitutas do Kinaxixi, a cavalgarem na zuna pelas barrocas abaixo para libertar os homens-jinzéu, outros filhos-pequenos do Quinaxixe muitos anos depois, iam-lhes seguir também.
Mas estas são outras estórias. As do Quinaxixe.

In “As estórias de Kuxixima”, INIC, 2003